O SUSPENSE
Há poucos dias, apresentei-lhes o
Bastinho e a filha, a lourinha e bela Têmis. A postagem, A DANADA DA TRANSPARÊNCIA, está aqui embaixo.
Bastinho, convém lembrar, é dono da Cantina Andiroba, localizada no Alecrim,
simpático logradouro de Natal.
Pois bem, o Bastinho está num
imprensado, gente. Começou assim, do nada. Insensível e monopolista (a mais
próxima bodega fica a 200 quilômetros da dele), Bastinho aumentou em vinte
centavos a dose de pinga. Pra quê! A galera pegou ar. Chiaram e foram pra rua
protestar. Solidários, os que tinham o costume de beber vinho de jurubeba
engrossaram o protesto, porquanto só queriam um pé para cair na gandaia
cívica. A coisa principiou mole,
Bastinho endureceu o pescoço, contratou seguranças, mandou levantar o pau,
pagou pra ver.
Aí o negócio endureceu. A
revolta, pessoal, não é somente pelos vinte centavos. Vejam. Bastinho comprou
moderníssimo telão a fim de que os clientes assistissem aos jogos da Copa do
Mundo. Até aí tudo bem. Ocorre
que os vinte centavos de aumento no preço da
pinga foi a forma engendrada pelo Bastinho para financiar o telão.
“Isso é um absurdo. Terminada a
Copa, o telão vai ser morada das moscas. Estamos pagando para as muriçocas
cagarem mais confortavelmente. Cadê que o peste manda ajeitar o imundo banheiro
do lado de fora? A porta está cai não cai. Ele devia ter contratado esses
capangas para dar segurança a gente. Quantos já não foram assaltados ali no
banheiro? O tabuleirinho de remédios vive vazio. Não tem um engov. Cibalenas e
melhoral pra dor de cabeça das ressacas que é bom, necas. Temos de nos mexer.
Chega de humilhação”, discursavam os conscientes bebuns.
E se mexeram. Falaram com a Têmis, a filha do Bastinho.
Fariam uma onda de reivindicações. Têmis endossou a ideia e encabeçou o movimento.
Bastinho, ao sentir a coisa engrossando, tratou de se aconselhar com o amigo
Lucas e o marqueteiro Dr. Santos. “Dê o dito pelo não dito, Bastinho, e cancele
o aumento”, foi a recomendação. Bastinho subiu num tamborete e anunciou:
“A pinga, meus amigos, vai
permanecer nos cinquenta centavos. Espero que a paz volte a reinar entre nós.
Não se fala mais nisso. Morreu Maria Preá”.
Não
morreu. Era tarde. A galera continuava viva.
Agora, o
bicho pegou mesmo na tarde duma quinta-feira. Bastinho não conseguiu completar
a tradicional soneca. Acordou com o berreiro na porta da mercearia.
Levantou-se, caminhou e... Imobilizou-se. Não somente ele, como também a turma
do protesto. O motivo? Esta frase, meus nobres, pronunciada alto e bom som, o
eco sobrevivendo por bons cinco minutos:
“Cheguei,
gente!”
Atônitos,
perplexos - palavras da moda -, assim ficaram todos. Donde viera tão sensual
voz? Do mar? Das nuvens? Do tabuleiro? Chico papudinho matou a charada:
“É a voz
das ruas, colegas. Só não é rouca como vivem dizendo. Que voz gostosa.
Caramba!”
Não houve
comentários, pois os olhares grudavam-se na cabeça da rua. A mulher de longo
verde caminhava na direção deles. Não era uma simples mulher. Era uma mulher
canchuda. Mulher canchuda, os mais jovens talvez desconheçam... Bom, a mulher
canchuda tem entre trinta e dois e quarenta e um anos, é linda, respinga mulher
em todos os gestos, tem o andar firme, a voz é pura paixão. O que a distingue
das simples mortais é o sutil gaguejado nos momentos do extremo prazer. Sem dúvida,
aquele andar era de uma mulher canchuda.
Pois bem,
os queixos-caídos, notadamente o do Chico papudinho, rastejavam perante o
caminhar da formosura. É a Íris? É a Hebe? É a Atena? É a Afrodite? É a Nikê?
Palpites não faltavam.
Quem
primeiro reconheceu a canchuda deusa foi a Têmis:
“Quê?!
Minha nossa! É a Pandorra, gente. E traz uma caixinha”.
Nisso, já
pertinho dos manifestantes, Pandorra aperta um botão, o vestido transforma-se
em trono, e ela fica suspensa, sentadinha, a caixinha entre as pernas. A
caixinha motivo do choro da Têmis, entendam, por gentileza. De quando em quando ela cruza as pernas e
tome carícia na caixinha.
Ninguém
entende nada. Ninguém, vírgula. A Têmis receia algo, senão não teria feito a
cara de choro. Fiquei doze horas tentando compreender a situação. Desisti. Mas,
pelo que estou sabendo, a Pandorra permanece lá, de caixinha no colo.
Ah, quando
ia me retirando, escutei a sensualíssima voz:
“Já vai, menino danado. Fique mais um
pouquinho”.
Mulher
canchuda é o cão, pensei, acenando-lhe.
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