O PROTESTO DE D.
INTERNETE
Ele escreve prosa; ela, poesia. Conheceram-se, há cerca de quatro
meses, num evento literário. Bateram dois dedos de prosa poética, tomaram três
taças de vinhos, foram para o apartamento dela, trocaram pernadas. Ou melhor,
começaram...
Agora ele estava ali, na
livraria. Ela também, cerca de cinco metros dele. Bião, encabulado todo, fez
que não a viu e usou uma das funções mais escrotas do celular: tirou o bicho do
bolso e fingiu um papo à italiana, digamos assim, visto à eloquência dos
gestos. Ovídia captou tudo, sorriu, pegou seu aparelho, pôs-se a murmurar
simulação, caminhou na direção do fingido e tome involuntário esbarrão.
Descaramento total,
beijinhos básicos, Bião confessou-se envergonhado por causa de certo
comportamento e tratou de pedir desculpa.
O pedido de desculpa se
referia àquele momento em que os dois trocavam pernadas. Ou melhor,
começavam...
Bom, pra resumir o
episódio, há quatro meses, horizontalmente febris, salivas misturadas,
ofegando
na mesma passada, equipamentos testados e aprovados, aguardando tão somente a
sirene libidinosa para explodirem, e eis que a poetisa levanta-se e começa a
declamar, não sem antes comunicar ao Bião que os versos seriam dela:
“Um delírio divino, uma dança
sagrada, conduzida num fluir tranquilo e suave, uma ondulação interminável
através do qual os corpos fazem apenas o que deve ser feito um para ou outro,
levando-os além da fronteira do êxtase na direção do plano sutil da
multifacetada experiência mística”.
Ocorre que duas palavrinhas
tiravam o Bião do sério: através e multifacetado. Aí, como se disso soubesse, a
Ovídia pegava a locução original do Platão e punha no meio as duas danadinhas.
Bião pulou da cama, começou a se vestir, e a esperada explosão surgiu em forma
de desaforo:
“Sabe de uma coisa, D. Ovídia, pegue o seu enviesado através, cubra a
multifacetada de sua multifacetada e fique se multifacetando sozinha, pois o
Ovídio aqui vai embora”.
E foi mesmo.
- Ah, Ovídia, que bom ter encontrado você. Quero pedir desculpas pelo...
- Esqueçamos o assunto, homem. Também
tenho minhas implicâncias. Tá lendo o quê?
- Tô lendo o Intuitor, do
Tiapa Apah.
- Já li. Detestei, Bião. Aquilo de dar
vida à internet é muita falta de originalidade. Internet funcionar apenas
quando alguém quiser é impossível. De mais a mais, há no enredo umas piadinhas
de péssimo gosto, cara. A queda na porta, então!
A porta a que se reportava a Ovídia...
Bem, o livro do Tiapa Apah é tremenda
crítica social a certo país sul-americano, a Andiroba. Apah se vale da internet
e a denomina de Internete dos Pontos Dáblius. D. Internete avisa aos
governantes que se eles não cuidarem bem da Saúde, da Educação e da Segurança
dos cidadãos andirobenses ela os abandonará. Somente retornará quando tudo
estiver nos trinques.
Pois bem, D. Internete está sendo
consultada num hospital andirobense (sendo acessada pelo computador de uma
médica, entendam), quando chega a assistente da médica, esquece de travar a
porta, fica por trás da chefe e se danam a rir, ao apreciarem uma ruma de homens
nus. D. internete escuta gemidos, aproveita a porta aberta, deixa uma sósia no
computador e sai de fininho. Queria dar uma olhadela na situação.
Fraturas expostas, crianças chorando,
macas nos corredores, sangue no piso, mães em desespero. Esse cenário faz D.
Internete voltar às pressas e aos prantos para o ambulatório da médica. Chega à
porta do consultório, tropeça num tapete esfarrapado de encardido e mete a
bunda no chão. Nisso, a linda e elegante médica mira a parceira, esmurra o
inocente computador e dá a descarga:
“Porra! Puta que pariu. A piranha da
internet caiu, Helena”.
Essa foi uma das tiradas do Apah que a
Ovídia tachou de péssimo gosto. Bião riu e argumentou:
- Pois, conquanto biqueiro em leitura,
ou talvez por isso, gostei do lance da porta, Ovídia. Quanto à verossimilhança,
embora seja beradeiro em assuntos literários, lembre-se de que estamos falando
de ficção. Se bem que manipular a internet não é coisa de outro mundo, minha
amiga. Veja. A internet foi pesquisada, planejada, elaborada. Feita, portanto.
E tudo que é feito pode ser desfeito. E refeito, naturalmente. Exceto o humano,
que se desfaz com a morte, embora muita gente acredite no refazer. O que você
acha?
Ovídia deu calado como resposta, mas o
sorriso irônico falou tudo. Mudaram de assunto, Ovídia olhou o relógio,
convidou o Bião para o protesto de dali a três horas, mostrou perspicácia e
cantou o Bião:
- Se é tudo que é feito pode ser
desfeito, então tudo começado pode ser terminado. Provemos a premissa em meu
apartamento, Bião?
Bião acatou a sugestão, é evidente.
Ovídia ligou a tevê - queria detalhes do protesto de logo mais -, pegou uma
garrafa de vinho. Sentaram-se no sofá e se encararam.
Pra resumir a coisa, mudaram de local,
tornaram-se febris, danaram-se a misturar salivas, puseram-se a ofegar na mesma
passada. Equipamentos checados e aprovados, aguardavam tão somente a sirene
libidinosa para explodirem. E explodiram. Um espetaculoso NOSSA!! saiu em
uníssono. E de olhos arregalados para a tevê. Calma, gente. Vou explicar.
A tela da tevê, pessoal.
O azul e o vermelho da tela são esplendorosos. Sugerem algo vivo. O
conjunto, de tão bonito, é apavorante. De cada canto da tela surge uma linha
vermelha em direção ao centro. Ao atingir o centro, as linhas transformam-se em
letras, palavras, frases. Bião e Ovídia soletram:
“Olá, galera. Sou a Internete. Desculpe estar invadindo a sua
privacidade. O lance é o seguinte. Estou me pintando para o cívico Protesto.
Daqui a 222 segundos sairei do ar para as ruas. Voltarei em 222 minutos. Apenas
a turma da imprensa terá acesso a mim. A senha é Felipão 30, beleza? Se não for
da imprensa, nem tente me enganar, bicho, porquanto receberá a mensagem de
‘político safado’, pois conheço todo mundo, meu. É isso aí! Que tal meus
cartazes?
Fui!”
Então, em letras de garrafas, a tevê mostrou:
FORA OS DÁBLIUS SUPERFATURADOS
ABAIXO OS PONTOS DE CORRUPÇÃO
CHEGA DAS ARROUBAS DE SACANAGENS
POR UMA BR COM PLACAS DE RESPEITO
Só restou ao Bião e à Ovídia o comentário:
“Vamos! Estamos atrasados”.
Também vou, meus nobres.
Tchau,
Tião Carneiro
Nenhum comentário:
Postar um comentário