O PAPA FRANCISCO E O PAPARICADO DAVI
Não! Não se trata de trocadilho o paparicado desse
título. Davi é tão paparicado quanto o papa. Davi mora pertinho de minha casa.
Se passar duas noites sem dar as caras por aqui, surge logo a queixa: “Menino,
Davi não apareceu mais. O que estará acontecendo?” Davi é extremamente
carismático, daquelas pessoas que nem bem o avistamos e já nos sentimos
cativados, a exemplo do Papa Francisco. Sem papas na língua, Davi é um
autêntico papagaio na tagarelice. Tal o xará bíblico, é astucioso, inteligente,
querido. Notadamente pela mulherada. Inquieto, bisbilhoteiro, perspicaz,
certamente será um grande cientista. Na área da zoologia, suponho, tamanho o
amor pelos animais. A propósito...
A propósito de
animais, um detalhe desse amor tem nos deixados apreensivos. Davi passa longos
minutos conversando com o gatinho daqui de casa. Acocora-se – sua posição
preferida quando quer estudar algo – e tome papo com o bichano. Acho até que
eles ficam analisando quem apresenta o olhar mais sincero. De quando em quando
Davi esboça um risinho, como a apontar empate na empírica empatia. Mas,
aprendemos com o próprio Davi, não nos metemos nesse inusitado comportamento.
Afinal, Davi não censura ninguém, grande acolhedor que é das diferenças.
Outro pormenor,
esse recentíssimo, também nos causa apreensão. Trata-se de peculiar
manifestação semântica. O homem deu pra se expressar assim: “X, é?” Xis, no
caso, é qualquer evento objeto da atenção dele. Exemplo. Estava ele acocorado
no jardim, a acompanhar algumas formigas transportando um fiapo de folha, então
fiquei a observá-los. A ele e as formiguinhas, é claro.
Nossos
pensamentos, excetos os das formigas, é evidente, convergiam para a lição de
solidariedade que as formigas estavam dando. Formigas são solidárias e bem
educadas: cumprimentam-se e se ajudam, de nada lhes importando o formigueiro de
origem. Isso para não citar o padrão fifa de organização. Pois bem, postei-me
às costas do Davi e me fiz de douto na matéria formiga:
“São
himenópteros, da família dos formicídeos. Belas formigas, não é, Davi?” O cara
nem se virou pra mim. Simplesmente devolveu:
- Formigas, é?
Temos
discutido essa locução daviniana, digamos assim. No meu entender, tal expressão
nada mais é do que tremenda ironia do mestre Davi. Como a nos dizer: “Seja
simples, estou sabendo, chega de burrice, preste a atenção, deixe-me em paz”.
Vejam se não estou na pista certa.
Estávamos na
cozinha, num blá-blá-blá de alegre aconchego, quando alguém grita da sala. “O
Papa Francisco já está falando, gente”. Corremos pro pé da tevê. Davi chegou
por último, deitou-se no piso frio e soltou:
- Papa, é?
Ao menos pra
mim, ficou claro que ele estava dizendo: “Quer dizer que o papa não falava não,
é? Tinha perdido a voz? Estava na UTI, por acaso? Será que nunca falou? Eu,
hein!” Passamos a assistir ao discurso
papal. Davi, concentradíssimo, ao menor de sinal de conversa, esticava o dedão
para o aparelho e rezava. Ou criticava?
- Papa, é?
Papa, é? Papa, é?
Interessante
como o Davi e o papa têm sotaques idênticos. Até nisso são parecidos. Mas cada
um na sua, naturalmente. O papa com aquele jeitão de quem está ensinando,
cerimonioso, contrito. Davi, jeitão de quem está aprendendo, jocoso, divertido.
Bom, no
finalzinho da homilia, a tevê apagou. Faltou energia. Comentários, decepções,
obviedades. “Faltou luz? É bom acender uma vela, não?” No meio da algazarra,
contudo, sobressai:
- Faltou luz,
é?
Agora, o gesto
definitivo da extrema comunicação do Davi ocorre quando a energia volta.
Retorna, mas sem o papa. A televisão mostra a receita de uma iguaria. O homem
usa então uma senhora metáfora para expor a contrariedade. Metáfora, sim,
conquanto mal cheirosa. Mal cheirosa, ainda que perfumada de eloquência. Foi
assim. Aplausos pelo retorno da luz, alguém, Suzana, acho, pede uma caneta a
fim de anotar a receita. Davi se expressa:
- Receita, é?
A meu juízo,
Davi quis dizer, simplesmente: “Que...”.
Aí, fechem as
narinas, por favor. Aí, pessoal, as meninas, ligadas na saborosa orientação
televisiva, começam a exclamar um sintomático “hum”. Exclamam, põem a mão no
nariz, olham pro Davi. Davi, rosto avermelhado, espremia-se.
Coube à mãe,
Fernanda, suspendê-lo pelos sovacos e levá-lo ao banheiro. Foi ou não foi uma
estupenda metafora?
Davi Augusto
tem um ano e sete meses. O sapeca é filho de Fernanda, sobrinha de minha
mulher, Tânia. Davi é primo de Maria Alice - da mesma idade dele -, filha de
Paulinho, também sobrinho de Tânia. Davi e Maria passam o dia juntos com a avó,
Kátia. Tornaram-se inseparáveis. Os dois fazem a festa com o “Cadê Maria, cadê
Davi”.
Neste momento,
18h45, o Papa Francisco na Canção Nova, Davi, já cheiroso, brincando,
responde-me assim quando lhe digo que estou escrevendo uma prosa em alusão a
ele:
- Prosa, é?
E você? Tá rindo de quê? Estará com vontade de
imitá-lo ou prefere:
- Besteira,
não?
Até outro dia
e sintam-se abraçados pelo Davi e Maria. E por mim. E pelo papa, por que não?
Tião Carneiro
(Neste dia
coruja, meus parabéns a todos os avós, especialmente a Kátia e a Everaldo, avós
da duplinha daqui de cima).
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