Oi, gente,
A fim de que se livrem de meus textos áridos, publico abaixo
uma lírica prosa da romancista potiguar Carmen Lobbo.
Carmen é autora de Vidinha Besta, à venda no https://www.clubedeautores.com.br/.
Obrigado
pela colaboração, Carmen.
Estou
esperando a colaboração de vocês, meus nobres. Não querem brincar de escritor,
não, é? Eu, hein!
Vejamos
então o interior da Carmen. Calma aí, galera! São Paulo do Potengi, Macaíba,
Bom Jesus, João Câmara são cidades pra lá de acolhedoras.
E
o seu interior como está? Chovendo de curiosidade ou seco de indiferença?
QUAL
É O SEU INTERIOR?
No final dos anos oitenta, eu uma
criança de aproximadamente sete anos de idade, chegava à sala de aula em uma
manhã de segunda feira na Escola Estadual 12 de Outubro (o nome da escola é a
data do meu aniversário) e ocupava o meu lugar em uma carteira qualquer. Tímida
a ponto de jamais se dirigir à professora, eu observava, com inveja, os
diálogos travados entre tia Ivaneide e algumas alunas.
- Onde
passou o seu final de semana? – indagava a professora a uma aluna que,
lembro-me bem, ostentava o penteado rabo de cavalo, ao que esta respondia:
- No
interior!
- Que bom!
E qual é o seu interior?
- João
Câmara – respondia a menina do rabo de cavalo.
- E você –
perguntava a Tia para outra aluna – onde passou o final de semana?
- No meu
interior – respondia a indagada, despertando o interesse da tia em saber qual
era o interior desta, ao que a menina gordinha respondia – São Paulo do
Potengi.
Ora vejam:
eu, pequena, tímida e assustada observava
a cena com os meus grandes olhos
(dizem que eu tenho olhos grandes, e para meu desespero meus irmãos e irmãs me
provocavam chamando-me de “oiuda” ou “Maria do olhão”), a inveja me atingindo de
duas formas. Primeiro porque eu jamais teria coragem de travar um diálogo com a
professora. Apenas respondia balançando a cabeça positiva ou negativamente;
Segundo porque aparentemente todas as minhas colegas tinham um interior para
chamar de seu. Mas, o que era um “interior”? Eu não sabia exatamente o que era
um “interior” nem muito menos quais interiores eram aqueles onde era possível
passar um final de semana... Como assim? Teria eu um interior? A palavra não me
era de todo estranha. Lembrava-me de tê-la ouvido na aula de matemática quando
da explicação da professora:
- Os
elementos que fazem parte do conjunto A, não pertencem ao conjunto B. Observem
também que existem elementos que não estão no “interior” nem do conjunto A e
nem do conjunto B, pois fazem parte do conjunto C! Vejam: os elementos estão no
interior do conjunto C.
Associei,
portanto, a palavra “interior” aos elementos dos conjuntos matemáticos. Mesmo
assim eu precisava ter um interior, fosse o que fosse um interior! Por isso
mesmo abordei a minha mãe em casa e perguntei para ela qual era o nosso
interior, ao que ela respondeu sorrindo frouxo:
- Mas nós
não temos um interior! Somos todos daqui de Natal.
- Mas as
pessoas têm um interior onde passam o final de semana – insistia eu, querendo a
todo custo um interior, sem ao menos saber exatamente o que era um interior!
Fato é que
os meus pais não costumavam visitar os poucos parentes que tinham no interior.
Meu pai era de Mangabeira, pertinho de Natal. Mesmo assim nunca visitávamos o
lugar.
Meu
sofrimento só acabou quando anos mais tarde minha mãe, já separada do meu pai,
passou a frequentar a cidade de Bom Jesus. Enfim, eu tinha um interior para
chamar de meu e quantos dias maravilhosos eu passei naquela cidade, solta no
meio da rua ou viajando de caminhão (um carro pipa, Mercedão vermelho) pelas
cidades adjacentes pegando água num poço na cidade de Macaíba e abastecendo
cisternas de prefeituras ou fazendas pelo interior afora. Para quem tanto
queria um interior, eis que durante aquelas maravilhosas férias aos dez anos de
idade eu tive tantos interiores eu pudesse alcançar a bordo do caminhão pipa
Mercedes-Benz, dirigido pelo meu padrasto.
Carmen Lobbo
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