JORNAL DO PORCO E
OS CACHORROS DE SANTA CRUZ DO ARARI
EDITORIAL, OU QUASE - LITERATURA (Escrito pelo aporcalhado
editor, Tião)
Sempre gostei
de redigir. Redigia alguns textos, julgava-os o sumo das tolices e,
envergonhado, amassava o papel e punha no lixo. Escrevia à mão, diga-se. Certo
dia, já no computador, engoli corda de uma amiga (Escreves bem, Tião, dizia
ela) e tentei sair do redigir para o escrever. Ainda hoje desconheço se fui
aprovado. Quiçá esteja tirando fino na redação e passando de raspão na escrita.
Desconheço, mas antevejo o monossílabo de julgamento. “Não”, deverá dizer o
inocente menino ao ler o papelzinho tirado da urna. Então você levanta o JÁ
SABIA e dana-se a rir, não é, meu?
Certo é que
passei a rediscrever e dei um chega pra lá na vergonha: comecei a enviar - por
imeio - as prosas para alguns colegas. Mais ou menos dez, no fim de 2011. A
turma lia, ria e me enaltecia. “Você é maluco, cara”. Adorava esse elogio.
Tanto adorava que fiz o seguinte. Para facilitar o envio dos textos e conquistar
leitores, cismei de criar um blogue. Os colegas aprovaram a ideia, falei com o
professor e amigo Google. Em dez minutos o danadão criou este blogue,
acreditam? Isso está fazendo vinte meses. Mas aí ocorreu
o inesperado. Perdi
leitores. Daqueles “mais ou menos dez” restam-me três. Trezinhos só, contados
nos dedos. Por quê? Cansaram de meu estilo, suponho. Se é que o tenho. Mas
permaneço com os mais ou menos dez leitores. Graças a você, é verdade.
Notadamente você do exterior. Engana-se, contudo, quem me imagina frustrado em
razão do abandono. Frustro-me, decepciono-me e me irrito por causa de
determinadas coisinhas.
Vejam o que é literatura. (Literatura, sinhá danada,
junho de 2012. O link não quer vir, desculpe). Não tenho carcaça teórica alguma
a respeito do tema, mas vou dizer o que penso sobre o fazer literário. O
escrevente é um ser frustrado por natureza. Mas nem sempre, sejamos justos, tal
frustração é maléfica. Tomo-me como padrão. Escrevo (escrevo?) ficção pela
necessidade de me comunicar, posicionar-me em relação a certos fatos. Acontece
que, no mais das vezes, a mensagem não chega ao leitor da forma que a imaginei.
Às vezes, acolhida numa variante melhor do que a imaginada, daí o sejamos
justos, mas com o visível cumprimento de frustração pela incapacidade de me
expressar adequadamente. A dubiedade interpretativa é inerente à escrita, seja
a informativa, seja a ficcional. Mais aqui do que lá, por óbvio, mas mais
perniciosa lá do que aqui. Abaixo, no Informativo do Porco, darei um exemplo
disso.
Analiso assim.
Ponho-me a teclar, na crença de estar jogando larvas de expectativas, cujos
filhotes haverão de ser pescados pelo leitor. O tucunaré, porém, e
constantemente, transforma-se em piaba. Ou vice-versa. Num extremo da vara
semântica, no riacho do computador, fica o autor. Noutro, no aconchego de
outro, ou no chiado das páginas, acomoda-se o leitor. No meio, senhor de si,
diverte-se o texto. Ambos, eu e você, na expectativa de a expectativa ser
alcançada. Expectativa de que, objetivamente? A minha, como dito, de ser
compreendido. A sua, e minha quando em seu lugar, de ser surpreendido.
E a decepção?
Minha decepção é com pseudoleitor. Como mente esse pessoal. Constatei, gente.
Contaste você: pegue dez pessoas que dizem gostar de ler e verá que somente
duas realmente gostam. Oito têm vergonha de falar a verdade. É fácil verificar.
“Adoro ler, mas tenho lido pouco. Ando sem tempo” diz logo o mentiroso. Essa é
a primeira pista. Aliás, essa história de sem tempo é de uma desfaçatez
descomunal. Não existe falta de tempo pra nada, amigo. Há desinteresse, isso
sim. Temos uma curva de interesse, um gráfico de prioridades em que a leitura
ou atividade diferente situa-se na interseção dos eixos. Conduta perfeitamente
normal. Desconheço o motivo de o falsário escondê-la.
Fenômeno
relativamente criança é a careta feita à prosa longa. Para muita gente, ler um
escrito de mais de meia página é tremendo martírio. Enraivece-me tal criancice.
Vejo-o cordato, leitor, por isso não o enxergo estirando-me a língua.
Também me
causa azucrinação a obsessão pelo texto conciso. Adjetivos e advérbios ardem na
infernal fogueira do pecado, constantemente avivada pelos gravetos de alguns
críticos literários. Advérbios e adjetivos ônibus devem ser condenados, é
evidente, mas o purgatório já estaria de bom tamanho. Apoiados na boa intenção,
busca-se a concisão, perde-se a precisão.
Raciocine
comigo. Você, leitora, tem o rosto bonito (muito bonito), é charmosa e linda.
Preciso então descrever seus atributos com todas as letras, não é isso? O autor
temente aos críticos apaga o bonito e a charmosa e dirá apenas que você é
linda. Mas alguém pode ter o rosto bonito, mas ser desprovida de charme e não
mostrar um pingo de lindeza. Charme é conjunto, é atitude, é feminilidade. E
beleza requer algo a mais que um rosto bem delineado. Linda é... Ah, linda é você.
Aliado dos
críticos, abraça-lhes ainda o estado mental de desconforto. Ouso adverti-las,
minhas nobres. Não leia se o momento mental não for de receptividade. Se assim
proceder, perceberá gordura num simples “fantástico”, e os partidários do
fogaréu soprarão logo um “eu não disse?” A decepção com o livro será tiro e
queda. Você pode estar abandonando prazerosa leitura. Alguém já disse que
acreditamos no que queremos. Atrevo-me a acrescentar: acreditamos no que o
estado mental pedir. A fim de ilustrar meu ponto de vista, vou terminar esta
prosa me mudando para outra linha.
Está exposto
no livro “QUÊ?!”: Galego, na cama, acompanha o espetáculo maior. Sandrinha, a
linda esposa, começa a se despir, pois tem o costume de dormir pelada. Galego
pensa alto: “Mas nem o diabo aparece para me ajudar a dar a ela uma vida
melhor”. Sandrinha o repreende, conversam sobre as dificuldades do dia a dia,
acalentam a filha, que dorme ao lado, na rede. Cedinho, a mulher varre a área e
encontra um pacote de cédulas. Dez mil cruéis, o dinheiro do lugar.
Galego vai
trabalhar, e o estado mental começa a lhe exigir ciúme. Um encontro de
Sandrinha com a prima Gorete, doida por dinheiro e sexo, o sorriso do
acompanhante de Gorete, tudo lhe diz: minha mulher não achou coisíssima nenhuma.
A grana é o adiantamento por uma noitada com aquele safado de sorriso sacana.
Sandrinha inventou esse achado. À noite, teremos uma conversinha.
Sandrinha
prepara o leite da filha, e o momento mental começa a lhe pedir desconfiança.
Galego tem um passado nebuloso, a amizade com o peste do Pedrão, um assalto
recentemente ocorrido na cidade, tudo lhe afirma: não achei coisíssima nenhuma.
A grana é o pagamento pela participação de meu marido naquele arrastão. Foi
Galego quem botou a mufufa lá. À noite, teremos uma conversinha.
Mais tarde,
marido e mulher descobrem que a cidade amanhecera repleta de dinheiro. Não era
nada do que haviam pensado. Agora o estado mental recomendava-lhes remorso.
Engraçado é
que a Sandrinha... Que?! Quer conhecer o desfecho da história? Então vá aqui em
cima, clique na guia e-book e compre o livro. Dez paus, apenas. Nem precisa dos
dispositivos de leitura. Basta-lhe somente salvar o bicho no computador.
É isso. Vejamos o Informativo do Porco.
O Pocilga está
quebrado, galera. Dispensou os repórteres. Daí me valerei de fontes alheias
para redigir este minúsculo noticiário. Dois tópicos, na verdade. Primeiro, a
dubiedade interpretativa a que me referi há pouco. Em seguida, irei me reportar
aos cachorros do título da postagem.
1. Vou
contextualizar o primeiro assunto, a imprecisão linguística. Sexta-feira, a
Câmara Municipal de Natal foi ocupada por manifestantes da Revolta do Bulsão,
movimento reivindicatório na área de transporte coletivo. Segundo a imprensa,
os manifestantes fizeram este acordo com a CMN. Encerrariam o protesto, desde
que a CM suspendesse certo procedimento regimental.
Pois bem, a CM
cumpriu o trato, mas os manifestantes não. Então o Jornal de Hoje,
de 19 de julho, estampou na capa: CÂMARA ATENDE OS MANIFESTANTES, QUE NÃO
RESPEITAM ACORDO.
O que está dito aí? Que tivemos dois tipos de
manifestantes. Os respeitadores e os não respeitadores do acordo. E somente os
manifestantes que não cumpriram o acordado foram atendidos. Bizarro, não? Para
os protestantes leais, os respeitadores do trato, nadica de nada de
atendimento. E se a chamada fosse esta? CÂMARA ATENDE OS MANIFESTANTES QUE NÃO
RESPEITAM ACORDO. Continuaria a bizarrice, pois agora todos os manifestantes
foram atendidos, embora ninguém tenha respeitado o acordo. Ou seja, quem
descumpre é premiado. Se tirássemos o “que”, a informação talvez chegasse mais
limpa. Algo assim, por exemplo. “Câmara atende os manifestantes, mas eles não
respeitam acordo. Câmara atende, mas os manifestantes não respeitam acordo”.
Entenda. Entendemos a intenção do repórter, mas que
a mensagem saiu truncada saiu. Isso num texto informativo, imagine numa ficção
de enes páginas. Daí eu ter falado na frustração do escritor por não conseguir
se expressar adequadamente.
2. E os cachorros do título da postagem? Bom, sou
frequentador do Clube de Autores. O Clube é tremendo sítio de apoio aos insanos
viciados em literatura, a exemplo de mim. Há poucos dias, passeando por lá,
conheci duas viciadas. A
Carmen Lobbo e a Juliana Telles. Carmen é dona do blogue http://carmenlobbo.blogspot.com.br/,
e a Juliana, do http://juliana-editions.blogspot.com.br/.
A Carmen é baita romancista natalense, autora de Vidinha Besta,
sabichona e encantadora prosa. A Juliana é tremenda romancista (esqueci do
lugar dela), autora de Memórias de Uma Revendedora de Cosméticos,
texto colorido da mais pura fascinação.
Pois bem, encontrei os cachorros no blogue da Juliana.
Ela me autorizou a expô-los aqui, mas prefiro que os contemple no blogue dela.
O título do texto é Demônios no Poder. Acesse-o. Prepare-se, tá?
Nossa!
Depois de visitar o blogue das meninas, visite o
Clube de Autores. Fale com o amigo Google que ele ensina o caminho. Entre com o
nosso crachá, dê um abraço na revendedora Luísa, da Juliana, beije a atendente
Ângela, da Carmem, e apaixone-se pela dona de casa Sandrinha (ou o Galego), do
Tião. Abrace, beije e apaixone-se, mas não saia de mãos abanando, viu, seu mão
boba? Pra não esquecer onde encontrar as moças, você pode utilizar esta
conexão. Que vidinha
besta só é a dessa revendedora de cosméticos!
Té logo, pessoal!
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