BABAQUICE
Discordo de
quem afirma ser imutável o comportamento humano. “Sou assim e ponto final”, diz
o partidário dessa tese. Penso desta forma. Somos poderosíssimos computador,
cuja programação interliga-se por estes vetores. Programação genética, programação
social e autoprogramação. Na primeira (intuitiva) não podemos mexer. Na segunda
(ambiente cultural, escola, amigos) mexemos parcialmente. Na autoprogramação -
o nome diz tudo – temos absoluto controle. Daí, porquanto tenho o domínio de
mim, posso me programar para me comportar assim e assado. E, no mais das vezes,
ajo assado e assim.
Agora, leitor,
no meio do caminho há uma pedra. Chama-se babaquice. Não consigo deixar de ser
babaca. Esforço-me, mas, quando menos espero, a babaquice já está na rua. Não
tenho respostas
para as ameninadas atitudes. Nem o Posto Ipiranga as tem,
suponho. Vou dar um exemplo no campo da literatura. Há três anos publiquei um
livro, o A Senhora 2. Vendi alguns exemplares, dei outros e botei
a sobra na dispensa. Então as traças começaram a estraçalhar as
mal traçadas linhas. Sabe o que fiz? Saí “perdendo” o desprezado em logradouros
públicos. Autografados, pode? Perceberam o tamanho da bobajada?
Recentemente
botei uma idiotice em cima da outra. Você já conhece o assunto, mas peço vênia
para reprisá-lo. Terminei um livro e dei-lhe o título de QUÊ?! Quer título mais
idiota? E sabe o porque do QUÊ?! Porque o bicho foi escrito sem o “que”. Quer
ineditismo mais babaca? Posso garantir que não tinha em mente tal
originalidade. Um personagem foi quem me deu a ideia, pois sou péssimo em
criação. Minha originalidade é morta nas calças. Quando muito transforma o
vulgar em banal. Façanha que muito me envaidece. Embora, sou forçado a dizer,
viva camuflando a vaidade na extrema modéstia. Você não imagina como me torno
vaidoso - às caladas - quando alguém me julga modesto e simples.
Voltando
ao livro, o acriançado título é café pequeno em relação à babaquice que ora lhe
revelo. Veja. Mantenho em favoritos alguns sítios de literatura, pessoal que
escreve bem pra burro. Amigos virtuais, digamos assim. Aqui acolá até trocamos
figurinhas. Então pensei: vou dar meu livro a quatro confrades desses. Escolhi
os quatros (de Natal, João Pessoa, São Paulo, Florianópolis), enviei-lhes
imeios, falei da vontade de presenteá-los e pedi um endereço a fim de mandar o
livro. O romance, avisei-lhes, sairia direto do Clube de Autores, onde vive
internado. Isso faz dois meses. Importante: não pedi resenha, opinião ou coisa
que valha. Cento e trinta paus custar-me-iam os quatros exemplares. Uma
farrinha legal, não? Usei a presunçosa mesóclise porque...
Bom,
o confrade de Florianópolis ficou ressabiado com a oferta, mas me deu um
endereço. O “Quê?!” acaba de chegar, respondeu depois, agradecendo-me. A dama
de Natal passou-me um endereço e afirmou que leria o livro com prazer.
Desconheço se o leu, ou está lendo. Só sei que foi entregue, segundo os
Correios, no endereço fornecido.
As blogueiras
de São Paulo e João Pessoa não me deram o endereço, ou um endereço. Até hoje
procuro o motivo. Meu imeio não voltou. Elas devem ter recebido, portanto.
Provável resposta delas não caiu em espam. Concluo, pois, que não me
responderam. Continuam escrevendo, o que me leva a acreditar que estão vivas.
Então...
A teoria mais
aceitável é que elas leram as primeiras páginas do livro (O Clube de Autores
mostra as quinze primeiras páginas), detestaram, chamaram-me de mané e acharam
por bem me livrar da despesa. Comentava o assunto com as minhas noras, aí fui
surpreendido com o ponto de vista das duas:
“Sei não. Há
tanta safadeza no meio do mundo que eu também não daria o endereço, não”.
“Mas como, se
eu me identifiquei por completo, inclusive com o número do celular? Temeriam o
quê? Vocês...”
“Mesmo assim!
Por que o senhor não tira a dúvida e manda outro imeio?”
Matutei,
liguei o computador, dei um copiar/colar no imeio original, aí a autoestima
estirou-me o dedão e desabafou:
Tudo de mais é muito. Babaquice tem limite, meu!
TC
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