O MUNDO DE GABILA
Claudionor,
Gabila para os amigos, amarrou Florinda num pé de arueira e foi despescar as
ratoeiras do paul. Saiu pensativo, pois não tivera sorte com os seis quixós da
croa: nenhum preá caíra nas esparrelas. Continuou sem sorte, o coitado. Das
doze ratoeiras, somente quatro haviam disparado. Ainda bem que os goiamuns eram
de tamanho razoável. Vou dar uma pescadinha, pensou.
Gabila passava
perto da arueira e ficou de orelha em pé com a venta acesa de Tupã. A jumenta,
Florinda, também de orelha em pé, encostava-se num barranquinho. A jumenta
tinha
aquele costume, o que dava margem a maldosos comentários dos colegas de
Gabila. Mas agora ela parecia mais ansiosa, excitada ao extremo. Gabila alisou
a testa de Florinda, olhou pra cima e viu uma cobra prestes a entrar num ninho
de passarinho. Só um caçador do nível de Gabila veria uma cobra naquele cipó. E
de baladeira acertaria a cabeça da peçonhenta.
Gabila
acordava cedinho, pegava Florinda e se mandava pra croa, Tupã, o vira-lata,
atrás deles. Gostava de animais, de pescar e de jogar bola. Oito horas e já
estava de volta, no Grupo São Miguel, onde a irmã, Cláudia, dava aula. Meio
dia, saía da escola, fazia um lanche e ia ajudar o pai na carvoaria. Sua tarefa
era ensacar o carvão. Duas horas da tarde, almoçava, tirava uma soneca. Às
quatro horas estava batendo bola. Jogava de meia direita. Às cinco, cinco e
meia, retornava ao paul e armava as ratoeiras para o dia seguinte.
Esse era o
mundo de Gabila.
Gabila tinha
quinze anos, de branco só os dentes. Era negro oficial. Por causa da cor,
aliás, quase brigava com um galego novato no lugarejo, o Araçá. Estavam no
campo, Galego acha de curtir com o negrão:
“Demoraram a
tirar tu, foi, negrão? Por isso saísse tostado, foi? Ou é o carvão que faz
isso?”
O negrão
trincou os dentes, levantou-se e rebateu:
“Não, porra!
Saí na hora. Tu foi que saísse antes do tempo. Por isso tem essa cor de
paludismo”.
Não brigaram
porque os mais velhos tomaram a frente. Mas ainda se agarraram.
Bom,
Gabila enterrou a cobra, botou a vara nas costas e foi pescar. Não andou dois
minutos, quando ouviu o tríplice “bem”. Aguardou o “te-vi”, mas esse, assim
como o completo “bem-te-vi”, não veio. Chegou à beira do rio acompanhado do
“bem, bem, bem”, mas nada de avistar o bem-te-vi. Pôs a minhoca no anzol,
esticou a vara e... E ele pousou. Gabila quase desmaia. Não bastasse o susto, o
bem-te-vi era simplesmente especial. O bem-te-vi era branco. De amarelo só
havia o cocuruto. Gabila pronunciou um “nossa!” e ficou imóvel. O bem-te-vi soltou
um “bem” e voou. Gabila não pescou. Foi pra casa, matutando. Quem acreditaria
nessa história? Não contaria a ninguém.
A turma já
tirava sarro quando ele dizia que matara de baladeira um nambu espanta boiada e
pegara um tucunaré de dez quilos, imagine agora com um bem-te-vi branco que
cantava somente o “bem”. Mas Gabila não resistiu e contou. À família e aos
colegas da pelada. Riram, apenas. A irmã, Cláudia, ainda perguntou se ele
estava com febre.
Encontraram-se
ainda quatro vezes, Gabila chamando o bem-te-vi de Gabriel. Os encontros foram
escasseando, até que passaram cinco meses sem se verem. O reencontro se deu
debaixo duma jaqueira. A um metro de distância do bem-te-vi, Gabila estirou a
mão. Aí, como se enciumada, Florinda relinchou e Gabriel voou.
À tardinha, na
pelada, aconteceu o pior. Galego deu um carrinho e quebrou a perna de Gabila.
Lamentos, revoltas, xingamentos, Gabila foi pro hospital. Voltou com quinze
dias, a galera o recebendo com salva de palmas.
“Tá
calor. Fique aqui na área um pouquinho, meu filho, conversando com seus amigos.
Vou preparar um refresco pra vocês, meninos”. Algazarra, assinaturas no gesso,
então... Queixos caídos, olhos esbugalhados, silêncio geral.
Gabila sorria,
enquanto Gabriel, o imponente bem-te-vi branco pousava na perna remendada do
amigo e cantava reconfortantes “bens”.
“Acreditam em
mim agora, seus safados?”, disse Gabila, antes de o bem-te-vi voar.
Adoro
bem-te-vi, gente.
TC
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