RECEITA PARA ESCREVER UMA PROSA CONFUSA
Pensa que é fácil? Baita tarefa, a menos que
deliberadamente a escrevamos confusa. Aí é moleza. Moleza, mas carente de
graça, porque o leitor logo perceberá o lé sem cré, o tomé sem bebé, o tanto
sem quanto, o quanto sem tanto, os pingos fora dos is. O texto indigesto a que
me refiro é aquele cujo tema fica roendo os miolos do autor, o infeliz lhe dá
os pertinentes paralelismos, mas do contexto acaba fugindo, seja por falta
de substância, seja por incompetência, seja por simples birra.
Exemplo.
Pensei em rascunhar alguma coisa sobre biografias não autorizadas, um dos
assuntos do momento. Matutei, matutei e peguei a veredinha da curiosidade.
Liberdade de expressão, privacidade, aspectos legais, disso não sairia sequer
uma linha. Meu foco seria descrever a vontade que sente o leitor em querer
acariciar as recônditas virtudes do biografado.
Peguemos um de
nossos políticos governantes. Aquele, por acaso. Então,
queremos que a
biografia diga como o misericordioso erradica da mente as tentações não
republicanas e qual a estratégia que utiliza para pôr em prática as inúmeras
ideias multiplicadoras do bem-estar coletivo. Veja. As realizações desse
político ficam o tempo todo na mídia, daí serem irrelevantes em termos de biografia,
concorda? Relevante é conhecer a diretriz usada pelo benfazejo a fim de que
seus planos se tornem reais, concorda de novo? Quantas consultas ao
travesseiro, quantos jantares meditativos, quão pesaroso ficou em ver
frustrados os anseios da população. Isso é o que conta.
Logo abandonei
a ideia, porquanto ter percebido que a modéstia do biografado impede que tais
pensamentos cheguem ao público, por mais competente que seja o biógrafo. Perde
tempo o escritor que se mete a biografar político, pensei.
E cantor? E
escritor? Aqui é outra praia. Pouca gente quer saber como o ídolo encontrou
inspiração para compor a canção Y, qual o tempo para escrever o romance X,
quanto ralou para atingir o estrelato. O que a galera quer saber é quem saiu
com quem, quem ficou com quem, quem preferiu ficar no meio do caminho, quem
fala mal de quem, quem passou a perna em quem. A vida privada do
escritor/cantor, a tomada de decisão, a posição íntima de cada um, digamos
assim, constituem o esfregar de mãos e os olhos arregalados dessa turma.
Emburrei nesse
ponto. Emburrei e fiquei irado com o pessoal que quer porque quer a bel prazer
escrever biografia dessa gente. São verdadeiros assassinos esses caçadores da
verdade. Querem esganar a fofoca, isso sim. Não sabem que a fofoca é o graveto
da verdade? Nunca ouviram dizer que onde há fumaça existe fogo? Por que fuçar a
fogueira, então? Pensam os anacoretas que todos vão acreditar neles? Os fãs dos
caras, por exemplo. O tiete, nobre biógrafo, procura esquisitíssima verdade,
visto só acreditar naquela que o satisfaz, embora as atitudes do ídolo vivam
a desmenti-lo.
Birrento todo,
abandonei o assunto biografia, mandei que minha mulher ligasse para a drogaria,
pedisse um medicamento que um médico me receitou e botei a mão no queixo a
procura de nova inspiração literária. Nisso escuto a empregada dizer que estava
faltando sal. Foi a dica. Escreveria sobre o campo de Libra, o leilão do
pré-sal.
Pensei e
desisti. Pré-sal é algo muito profundo. Falta-me fôlego para nadar nessa área.
De mais, a prosa já estava extremamente confusa, pois a receita da indefinição
contextual fora aviada.
Ia digitar o
“até mais ver”, quando Tânia chegou, telefone ao ouvido:
- Qual é o
nome desse comprimido, homem de Deus? A droga da receita é uma garrancheira só.
Cristão nenhum entende.
Diazepan de
5000 ml, mulher.
Diazepan. Diazepan, entendeu?
Até mais ver,
TC
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