LADRÃO DE SANTO
Zequinha teve a ideia na hora. Esperto todo,
maquinou, sorriu e agiu: botou dois reais na sacolinha da coleta. Zequinha é
brincalhão. E mente que é uma beleza. Também é cheio de safadeza. Até assaltar
já assaltou. Mas só três vezes, costuma repetir quando está tomando umas com a
galera. Conta assim, sem a menor reserva:
- Estava
escurecendo quando saí da obra, seiscentos e trinta reais no bolso, a quinzena
de servente de pedreiro. Então o cara emparelhou comigo, empurrou um treco nas
minhas costas e levou a grana. E ainda me chamou de vagabundo.
Chorei e
decidi recuperar a mufufa. Voltei pra obra, peguei um pedacinho de cano e
caminhei pra parada dos ônibus. No mesmo lugar onde fui assaltado ia uma
mulher. Enfiei o cano nas costelas dela, anunciei o assalto e tirei uma
bolsinha pequena que estava entre as regadas dos seios dela. Dei um choro e vi
uma nota de cem. Chamei ela de vagabunda e mandei ir embora. Quis só a
bolsinha. Parece mentira, mas tinha lá exatos seiscentos e trinta reais. Esse
foi o primeiro assalto. Depois de muito tempo assaltei mais duas vezes.
Assaltar é moleza. O povo morre de medo e a polícia não tá nem aí. Só deixei de
assaltar porque percebi que estava me acostumando.
Zequinha
deixou de assaltar, mas se der bobeira ele apronta uma safadezinha. Então,
com
três latinhas de pinga na cachola e oito cervejas no quengo, o chumbadão
vangloriava-se da última façanha. Dizia aos colegas, na calçada de um barzinho:
- Visto esta
camisa vermelha, pego uma bandeirinha e saio zanzando na procissão. Gente
saindo pelo ladrão, políticos também, xeleléus apertando a mão deles. Fico de
mutuca, escorado num poste, planejando tomar uma depois da procissão. Mas tinha
apenas quatro reais na carteira. Duas notas de dois. Nisso aparece uma moça da
coleta, a sacolinha rindo pra multidão. A moça esbarra noutro fiel, no momento
em que uma senhorinha botava cem reais na sacola. Cem reais! Caramba! Só pode
ser promessa, pensei.
Pensei,
maquinei, sorri, fui atrás da moça da coleta e botei dois reais na sacolinha,
uma nota novinha, dessas parecidas com as de cem. Viva São Sebastião, falei pra
distrair a moça. Falei, botei a nota e saí seguindo elas. A moça e a nota.
Estava pronto o primeiro ponto do plano.
- Como assim,
pronto?
- Escute,
homem!
Bom, dali a
cinco minutos eu me apresento à moça e invento uma verdade. Disse que tinha na
carteira uma nota de dois reais e uma de cem. Há pouquinho tempo eu havia
botado uma oferta na sacolinha dela, mas em vez da nota de dois reais eu tinha
colocado a de cem, pois as danadas eram bastante parecidas. Era o dinheiro de
comprar um remédio para minha filha e comer durante a semana, moça. Dá pra
senhora fazer a troca? Falei assim, quase chorando, amigos.
- E aí ela
trocou na hora, não foi, seu cabrinha sem futuro?
- Sem futuro,
mas tá bebendo a troca, né, meu? Trocou não, cara. Disse que oferta era oferta,
que era pecado se arrepender, que eu seria castigado e coisa e tal. Então eu
disse que ia falar com o padre, que São Sebastião não queria meu sofrimento e
coisa e tal também. Resumindo, ela sugeriu que quando terminasse a missa eu
fosse à tesouraria da igreja e procurasse um certo Luís, o responsável pelo
caixa da coleta. Ela ia falar com ele e dar ciência do ocorrido. Se o senhor
não me encontrar, meu nome é Solange e minha sacola é a 16.
E assim fiz.
Luís me cubou todinho, despejou a sacola 16 e apareceu a dinheirama. No meio a
nota de cem, doida por minha carteira. Só fiquei cabreiro quando ele comentou
que a nota de dois reais era muito pichototinha para confundir com a de cem.
Mas isso acontece, principalmente pela cor, disse, me entregando o dinheiro. Na
conversa, até esqueci de dar os dois reais, acreditam?
Zequinha
enxugava as lágrimas do riso, levantou a vista e deu de cara com a moça da
coleta, a Solange, que passava na calçada. Olharam-se. Ele fez cara de
paisagem, ela, de ironia. Solange desconfiou de tamanha alegria, nada podia
provar, porém soltou sonoro “Te desconjuro, infeliz”.
Solange não
deu dez passos e escutou o furdunço. O barzinho estava sofrendo um arrastão.
Levaram tudo
dos clientes da calçada.
Janeiro/14
TC
Nenhum comentário:
Postar um comentário