O TEMPO – E
ALGUNS APONTAMENTOS – DO DRUMMOND (II)
Na última postagem de 2013, referi-me ao Tempo, do
Drummond (veja post do dia 29, abaixo), e relatei certo arranco-rabo que tive
com o amigo José. A desavença ocorreu pelo fato de o José ter tachado de merda
os meus textos. Segundo ele, por excesso de toxinas, tipo cacófatos, e por
carência de tônicos, a exemplo de metáforas, minhas prosas lhe chegavam às
narinas com fetidez muito forte.
Fui embora e
deixei implícito que voltaria com algo mais cheiroso em 2014. Escreveria o
texto e falaria assim:
E agora, José?
Tentei, gente,
mas nada de aprazível me ocorria. É difícil mostrar-se perfumado quando o
entranhado estilo fica viciado no banho estragado da literatura. Tentava,
tentava e nada. Queria escrever, pagar a promessa, mas não podia. Olhei pra
cima, fechei os olhos, aí, aí... Aí aconteceu. Apareceu o Drummond. De carne e
osso, pessoal. Mais osso do que carne, é lógico. Certamente me confundindo com
o Alípio, Drummond apontou-me o dedo e foi logo dizendo:
– Seja mais tolerante com o cabotinismo de seu amigo;
quase sempre esconde uma deficiência, e só impressiona a outros cabotinos. (1)
– Procure ser justo com os outros; se
for muito difícil, bondoso; na pior eventualidade, omisso.
– Procure não mentir, a não ser nos
casos indicados pela polidez ou pela misericórdia. É arte que exige grande
refinamento, e você
será apanhado daqui a dez anos se ficar famoso; e se não
ficar não terá valido a pena.
Mas Seu
Drummond, seus conselhos vão...
“Não me interrompa”, disse ele,
limpando o piche que um imbecil lhe jogou na cara em Copacabana.
– Ao escrever, não pense que vai
arrombar as portas do mistério do mundo. Não arrombará nada. Os melhores
escritores conseguem apenas reforçá-lo, e não exija de si tamanha proeza.
– Não fique baboso se o amigo lhe
disser que seu novo texto é melhor do que o anterior. Quer dizer que o anterior
não era bom, o que todo o mundo já sabia.
Mas se ele disser que seu novo texto é pior do que o anterior, pode ser
que fale a verdade.
– Não cumprimente com humildade o
escritor glorioso, nem o escritor obscuro com soberba. Às vezes nenhum deles
vale nada, e na dúvida o melhor é ser atencioso para com o próximo, ainda que
se trate de um escritor.
Mas homem de
Deus, eu...
– Procure fazer com que seu
talento não melindre o de seus companheiros. Todos têm direito a presunção de
genialidade exclusiva.
– Evite disputar prêmios literários.
O pior que pode acontecer é você ganhá-los, conferidos por juízes que o seu
senso crítico jamais premiaria.
– Aplique-se a não sofrer com o
êxito de seu companheiro, admitindo embora que ele sofra com o de você. Por
egoísmo poupe-se qualquer espécie de sofrimento.
Mas homem, eu só
quero escrever um texto legal pro meu amigo. Mudar meu estilo. O senhor pode me
ajudar? O senhor só me deu lição de comportamento, Seu Drummond.
Estilo, sô! Você não tem estilo, tampouco escreve. Você
apenas redige. Seu estilo chama-se maneira de redigir. Mas não vou desanimá-lo.
Treine, treine muito. Leia muito e esqueça o mais que puder. Mas quando julgar
que atingiu o ponto de escrever, lembre-se disto:
– Só
escreva quando de todo não puder deixar de fazê-lo. E sempre se pode deixar.
Foi Drummond
dizer isso pra luz apagar, ele sumir e deixar-me sem discurso. Sozinho no escuro, qual bicho-do-mato,
sem teogonia e sem parede alguma para me encostar.
E agora, José, qual será
o meu destino literário? E o seu, José, leitor desgraçado? Vamos para onde,
José?
José, para onde?
Janeiro de 2014,
TC
(1) - Crônica a um jovem - Carlos Drummond de Andrade. Ed.
Rio de Janeiro. Editora do autor, 1962.
Nenhum comentário:
Postar um comentário