O TEMPO DO DRUMMOND
“Quem teve a
ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo
genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí,
entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para diante
vai ser diferente”.
As
aspas acima representam os ósculos do Drummond. Você sabia, não? Sabia também
que o picharam agora no Natal, em Copacabana, Rio de Janeiro, local onde o
poeta vive poetanto o mar?
Pois
é! O ano terminou mal para o nosso amigo Carlão. Pra mim também, conquanto
tenha começado bem. Comecei 2013 sob as águas da bem-aventurança. Em janeiro,
já publicava meu segundo livro. E levava a primeira bordoada: “Isso aqui pode
ser tudo, menos literatura”, escreveu um insensível literato. Por volta de
maio, junho, as visitas a este cocho literário começaram a pedir arrego. Em
setembro, outubro, abriram o bico e afundaram duma vez. A média diária caiu de
vinte e duas para nove fuçadas. Ontem, comentei o assunto com um amigo. Leitor
fiel – por vezes sincero, por vezes brincalhão – o cara mandou ver, embora com
um risinho sacana no canto esquerdo da boca, querendo mostrar-se sabido para a
namorada:
“É
que seu estilo era genial, meu, mas chegou ao limite da exaustão. Você cansou.
É melhor entregar os pontos”.
Bom,
pedi-lhe detalhes acerca da decadência. Então o peste disse que meus textos
estavam macilentos, saindo espremidos, como se eu estivesse fazendo supremo
esforço para expeli-los. “Qualquer leitor nota isso. Precisa ser espontâneo,
relaxar, regar suas entrelinhas, cuidar melhor de sua obra, rapaz. Do
contrário, é melhor parar de escrever”, concluiu o infeliz, liberando fedorenta
gargalhada.
Ri
por dentro e exigi que o azoreta fosse mais específico. Aí ele disse que eu
devia ser menos informal, usar o “aí e o pra” menos vezes, fugir dos cacófatos,
correr dos arcaísmos, evitar os clichês. Em compensação, continuou, eu podia me
fartar das metonímias, lambuzar-me de metáforas, esfregar-me em
intertextualidades. Só assim...
Aí
não deixei o frexado fechar com chave de ouro o rosário de censuras, pois havia
dado uma bruta vontade de fazer xixi. Saí a toda brida pro banheiro. Quer dizer
que ele achava que eu era bom de clichês, especialista em cacófatos, perito em
arcaísmo? Não sou nenhum Machado, por certo, mas também não sou tão insosso de
escrita. Retornei disposto a falar poucas e boas pro pervertido, mesmo na
frente do xaveco dele.
Diria
e daria um chute no blogue. Estava ficando cheio de certa gente. Escrevo para
driblar a mesmice, não para levar gols de estudiosos de zés-ninguém. Teria de
escrever só o que eles querem? Não posso ser original, então? Daria um tempo,
sim. Entregaria os pontos. Eu, hein!
Voltei
e encontrei o amigo e o xaveco xavecando. Aí desisti da reprimenda. Matutei,
dei-lhes boa-noite e vim embora, a pé, chutando pedras. As que encontrava no meio do caminho, é claro Cheguei em casa,
lembrei-me do Drummond e danei-me a rir. Afinal, aconselhava ele: “Não acredite
em originalidade, é claro. Mas não vá acreditar tampouco na banalidade, que é a
originalidade de todo o mundo”.
Aumentei
a risada e abarquei-me ao milagre da renovação. Novo número, começar outra vez
e acreditar de que daqui para adiante vai ser diferente.
É
isso. Voltarei em 2014. Espero encontrar aquele presunçoso amigo a fim de falar
assim:
E
agora, José?
O
Drummond é um danado. É atemporal, sem dúvida. Pense num indivíduo genial!
Dezembro
de 2013,
TC
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