A VARA DA MACIEIRA
Trata-se de Representação do MP. Numa bancada, acomodam-se Adão e cinco
companheiros. Noutra, Eva e cinco aliadas. Aguardam o magistrado. Respeitam o
ambiente, mas os olhares lânguidos mostram-se zombeteiros, como se a desavença
não lhes dissesse respeito.
Desconhecem por que o MP havia se metido
naquele assunto. Tudo indica que quer mostrar serviço. Até a imprensa estava o
tribunal!
O magistrado chega, acompanhado de risonho
assessor, cumprimenta-os com paternal sorriso e ordena:
Pode falar, Adão. Por que brigaram?
Eva e essas aí fizeram uma calda de maçã,
chamaram-na de paixão e jogaram a gororoba quente em cima de nós, Senhor.
E vocês não reagiram?
Como, Senhor? Presos pela chave de pernas,
imobilizados pelo mata-leão, sufocados pelos descomunais apertos? Só nos
restava gemer.
Mentira, senhor. Eles se imobilizaram, adormeceram e não
conseguiram levantar. Gemiam, sim, mas no ronco, de desgosto. Penalizadas,
apanhamos uma vara de macieira e ficamos passando de uma pra outra, cutucando eles.
Daí, levantaram e tentaram nos matar de arrocho. Comemos o pão que o diabo
amassou. Chegamos até a revirar os olhos, acredita, Senhor? Desculpe por ter
metido o Coisa Ruim na resposta, Senhor.
Está desculpada, Eva. Você é danada de autêntica. Agora me diga:
o
pão estava realmente amassado? Outra coisa. A vara que vocês usaram foi esta?,
perguntou o juiz, mostrando uma vara em forma de tê. Não um tesinho qualquer.
Mas um tê enorme de grandão e grandão de enorme.
Foi,
senhor. Foi essa bendita mesmo. Bom, pra ser sincera, o pão não estava amassado
não, mas que era dormido, velho, ah, isso era. Senão não estaria tão duro,
Senhor.
Fui eu
quem deixou o pão naquele estado, Eva, esclareceu o magistrado, desaprovando a
gargalhada do risonho auxiliar.
Muito bem,
só me compete agora seguir a orientação do MP e pedir que Pedro queime a vara,
disse o juiz, com discreto piscar de olhos para o ajudante.
Não! Por favor, Senhor!
Por favor, não, Senhor!
Sorrindo,
o meritíssimo comentou:
Ouçam, D.
Eva e Seu Adão. Esse arrocho que vocês levaram pertence ao livre-arbítrio.
Utilizem as regras, fujam da hipocrisia, busquem a harmonia e o pratiquem sem
parcimônia. Precisam da macieira, seja em forma de haste, seja em forma de
folha, a fim de que a estabilidade cósmica permaneça, meus filhos. Porém, como
se trata de livre-arbítrio, estará certo quem dela se abstiver.
Pedro,
arquive a Representação do Ministério do Pudor e o mande tratar de reais e
despudorados comportamentos. Há muitos por aí.
Está
encerrada a audiência. Peço aos litigantes que se cumprimentem.
Quê?!
Mandei-os
tão somente se cumprimentarem, pessoal.
Dezembro/13
TC
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