A DERROTA DA
FICÇÃO
Sentei-me na preguiçosa, empurrei pra perto a
mesinha de rodas, liguei o notebook, loguei-me à internet. Chane, o gatinho
branco daqui de casa, acomodou-se logo embaixo da mesinha. Certamente imaginava
que eu iria escrever alguma tolice.
Chane já foi
chefe político, cobrador de prestações, gerente de hotel, cambiteiro e
bibliotecário. Hoje, está na transição da sexta para a sétima vida, de mecânico
para crítico literário. Neneta corta-lhe as unhas, dá-lhe banho, deixa-o
branquinho, mas aí ele se soca debaixo do carro e vem todo oleado criticar meus
textos. A comunicação do danado se dá quando leio em voz alta cada parágrafo
que escrevo. Se gostar, ele esfrega o focinho em minhas pernas. Se apenas não
gostar, finge que está dormindo, antevendo, por certo, o real sono dos futuros
leitores. Agora se realmente detestar,
fica se coçando de reprovação e passa um
tempão com as boticas de olhos fixas em mim, na presunção, suponho, de que os
leitores cultivem o grau de exigência dele. É nesse estado, aliás, que o Chane
tem vivido ultimamente.
Bom, não
pretendia escrever. Queria somente me atualizar. Daí, dei uma viajada na Rede,
escarranchei-me na outra, peguei o Jornal de Hoje. De hoje, mas
de ontem, 4ª feira, 4 do 12. Li, página 10: Governo não paga e PM fica
com viatura bloqueada durante perseguição no RN. Lembrei-me de meu
primo Mião e soltei uma de suas expressões preferidas: “Quê?!” Pensei em
escrever sobre a manchete (e vou, vejam adiante), mas outra notícia desviou-me
a atenção. Esta da tevê. Dizia a bela repórter: Prefeita de Mossoró é
condenada pela décima primeira vez e sofre a terceira cassação.
Sapequei um “Porraé!” do Mião e fui jantar. Não gosto de jornal em cima da
mesa, mas a primeira página da Tribuna do Norte, de hoje,
estava lá. Não pude deixar de ler: PERMISSÃO DO CAOS. Como já
conhecia a história, limitei-me a um “pois diga!” Também do Mião, diga-se.
Jantei, voltei
pro computador, matutei. Veio-me à mente o conceito de ficção e transportei-me
para o livro o Intutor Bião – um Homem de Palavra. Nele,
revoltado com a indiferença como o poder público trata a população, o intuitor
retira do ar a internet (deixa ativo apenas os sistemas vitais) e avisa aos
governantes que só terão dela o completo funcionamento quando a Segurança, Saúde
e Educação estiverem realmente servindo ao povo carente.
Ficção? Até
onde vai a ficção?
É ficção
imaginar certo dispositivo eletrônico em que o prestador de serviços, a
quilômetros de distância, corte o combustível de uma viatura e a faça parar?
Pra mim não é. É tecnologia a serviço do prestador, pois do contrário ele
jamais receberá pelo serviço contratado, já que as vias da cobrança liberal
foram todas esgotadas. Ficção barata, porque inconcebível para o leitor de
ficção, é a autoridade administrativa deixar a situação chegar a esse nível.
Ridículo! Narre esse fato, e o romancista será tachado de quinta categoria.
Ficção
acriançada, e o romancista que escrever isto terá o livro jogado fora, é uma
governante ter sido condenada dez vezes, cassada duas, e a indefinição jurídica
permanecer na mente do leitor. No mínimo, o leitor chamará o escritor de
descuidado, porquanto julgar pasmoso tal saída ficcional, vez que a Justiça não
seria tão titubeante.
Imagine esta
cena. Por causa de brigas com companheiros, e por divergências com o poder
público, dez senhores jogam seus carros de lotação no meio de três movimentados
cruzamentos da cidade e transformam em inferno o bem-estar de parte da
população. Isso por cinco horas. Imaginou? Agora visualize a cara de amélia de
todo mundo. Principalmente dos poderosos. Não apareceu ninguém. A baderna ganhou por WO. Então! Digite o disparate e
verá seu texto no lixo, pois a inverdade fictícia tomará conta do leitor
(queria que vocês vissem o olhar de Chane pra mim). Escritor sem futuro, dirão
inclusive os menos exigentes.
Não sei até
onde suportaremos essas coisas, pensei, disposto a encerrar a prosa. Uma
descarga de fio de aço e um poço oceânico seriam insuficientes para tamanha
me... Aí Chane me deu tremenda cabeçada, deixou-me na reticência e saiu para o
jardim. Completei a reticência, escrevi mediocridade e procurei o Chane. Estava
enterrando algo.
Uma palavra
para meu leitor da Malásia. Tenho um leitor lá, sim. Estão pensando o quê?
O caso do
bloqueio da viatura aconteceu em São Miguel do Gostoso. Cidade situada na ponta
oeste do continente sul-americano, onde o vento faz a curva, a 110 quilômetros
de Natal. Mossoró, a cidade da prefeita cassada, localiza-se a 280 quilômetros
de Natal. E a doideira do trânsito se deu aqui mesmo, em Natal, na minha
cidade.
Salvei o texto
e vim aqui no Pocilga, pensando em determinados governantes, certamente em
sintonia com a atividade do Chane. Antes passei no UOL. A manchete do
informativo, numa tremenda ironia, escancarava:
MORRE NELSON
MANDELA AOS 95 ANOS.
Pena! Muita
pena!
Abraços cheios
de paz,
TC
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