DESCULPE, MÃE
Imaginei que daria certo. Por que
não daria? Por que a gestação não redundaria em sucesso? Mas sempre há risco. Risco
que precisaria ser enfrentado, pois não costumo me amedrontar com nada. Enfrentaria
possíveis ameaças em busca do fruto perfeito. Não temia que alguém achasse a
minha concepção troncha e feiosa. O que danado parece feio quando confrontado com
a altiva beleza? Nessas horas, feioso mesmo é o julgamento de feio. Não existe
motivo, porém, para condenar o parecer do contra. A crítica jamais deverá ficar
no presídio da mente.
Encontrava-me na cama, o sítio
ideal para a criação,
mas não necessariamente o único, haja vista rede e sofá
também quebrarem o galho. Fechei os olhos, impus-me um volver e me vi dez anos
atrás, quando tudo começara. Do namorico adveio o compromisso e daí a paixão.
Neste momento, no aconchego do colchão, esperaria o ápice dessa idolatria. Imaginava,
por assim dizer, o que em questão de minutos sairia de mim e ganharia o mundo.
Ou, à luz, como ensina a gramática para anunciar o momento em que a mulher pare,
torna-se mãe. Descansa, segundo o antigo linguajar de meu interior. “Fulana de
tal descansou”. Cansei de ouvir essa aliviada sentença.
Dei uma piscadela e vislumbrei
uma senhora de branco segurando um estojo. Pareceu-me Clarice Lispector. Não era. Agora era um homem. Era Flaubert. Mas
não segurava estojo. Segurava um livro. Arregalei os olhos a fim de tirar a
dúvida. Os dois haviam desaparecidos. Meiguice e ousadia deixavam-me sozinho.
Peguei o bloquinho de papel, rabisquei algumas maluquices e fiquei matutando
acerca das visitas fantasmas. Passei, sem exagero, mais de uma hora me
remexendo na cama e nada de o mote aparecer, mesmo com a aparição da Clarice e
do Flaubert. De repente comecei a sentir uma dorzinha na região lombar,
acompanhada de cólicas. Mas não passaram três minutos e o desconforto foi
embora.
Fiquei preocupado. Sem dúvida, as
dores nasciam do empenho em eu gestar algo primoroso. Começava a antever o
fracasso nesses sintomas. É o sinal de que o mote que germinará o texto sobre o
Dia das Mães não virá. O literário fruto perfeito é tão somente um sonho.
Pensava assim, então escutei a algazarra da turma que preparava um
churrasquinho no quintal de casa. Não contei conversa e pulei da cama. Tomaria generosa
lapada de uma caninha de primeira cabeçada. A última tentativa, pensei. Se o mote
não surgir por força da aguardente está mais do que na hora de desistir.
Jamais sentira tamanha lerdeza
para redigir uma prosa. Como disse, sou apaixonado pela literatura. Idolatria
total. Escrevo, espero ser lido, é evidente, mas a minha avaliação está em
primeiro lugar. Se alguém achar o texto troncho ou feioso é problema dele,
embora acate o julgamento numa boa.
Meu método de escrever começa com
um mote, a ideia central do texto. Com ele em mente, escolho uma frase de
abertura e dois dos dedos – Bião e Mião - encarregam-se de tocar a obra. Não
planejo nada para dali até o fim do texto. Uma palavra puxa outra, que sorri
pra outra e assim, de conversa em conversa, vão até o ponto final. Minha
preocupação é que o contexto apresente a ideia predeterminada, o mote, ou o
norte do que imagino. Era essa imagem que fugia de mim ontem à noite, quando
imaginei escrever sobre o Dia das Mães, a ser comemorado domingo, onze deste
maio de 2014.
Escreveria sobre as mães, mas distante da
pieguice do dia de festa. O mote era escriturar o Dia das Mães sob a ótica
delas e não a dos filhos que as presenteiam. Porque iguais - diferente só o
endereço -, sabem elas que a data é simbólica e que as mensagens midiáticas,
conquanto bem intencionadas, são artificiais. Perseguia eu o mote do sublime,
do celestial, do encantador, do supremo, do magnífico. Imaginava chegar ao
íntimo da alma materna e fazer aflorar tais sentimentos neste textinho. Cada um
com a correspondente emoção.
O que sente a mãe ao contemplar o
filho? Pensava que ao ler meu escrito as mães dissessem algo assim: Minha
nossa! Mas que prosa mais verdadeira. Esse rapaz acertou em cheio. É desse
jeitinho que vejo meus filhos. Então elas se juntariam, ririam, chorariam e
diriam pro mundo. Viram o que sente uma mãe?
Mas fracassei. Já ia na sexta
emborcada, no terceiro espetinho e nadica de nada da alma materna. Meio tonto,
peguei o notebook e passei a registrar a frustração que hora você lê. Qual a
explicação para a descomunal incompetência?, perguntei-me, esvaziando a nona
lapada.
Há sentimentos só explicáveis
pelo dono, meu caro, falou alguém, a voz parecidíssima com a do Freud. E
continuou: sabes, por acaso, o que sente a criança quando lhe tiram um
brinquedo? E o condenado à morte que vê passando os minutos finais? Então! Como
queres conhecer o sentimento da responsável por botar no mundo esses
personagens? Da mesma forma que a mãe de nada tem culpa, culpa não deves ter
por não conseguir descrever os sentimentos dela. A coisa é complexa, meu caro.
A humanidade é cruel e inconsistente, entendeste?
Deve ser, sim, falei pra mim,
aliviado pela fala do além. Escutei essas coisas ou tudo não passa do efeito da
branquinha? Lembrei-me de mãe. Se ainda conosco, diria: “Tá bom. Vai beber mais
não. Esse menino quando começa.... Pois não é que ia tomar a décima bicada, mas
desisti?
Desculpe, mãe. Não deu certo.
Mas aproveito o embalo para
mandar um forte abraço e um beijo no coração.
Ah, essas rosas vermelhas são pra
você.
Cuide-se, tá?
Maio/14
TC
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