PROPOSTA INDECENTE
Assisti à entrevista do
presidenciável Eduardo Campos, segunda-feira, pela Roda Viva, TV Cultura. Vi
tudo da cama. Três aspectos chamaram-me a atenção. O apreço que o candidato nutre
pelo ex-presidente Lula, a vontade de ter certas figuras como oposição ao
Governo dele, a exemplo de Sarney e Calheiros, e a intenção de extinguir metade
dos ministérios. Esses tópicos ficaram-me na memória.
Fui tomar banho matutando. Ah, as
conveniências...
Retornei e dei uma circuladinha
pela sky. Procurava um filme novo. A sensação era de que o da TV Cultura eu já
assistira várias vezes, embora com atores diferentes. E não gostara de nenhuma
das versões.
Saí apertando o controle. Parei
no canal 43. Estava passando um filme de exorcismo, cujo título me foge no
momento. Sei que nunca assistira a ele. Sei ainda que a personagem Maria Rossi
havia matado três religiosos, e a filha dela procurava a todo custo entender
aquilo, descobrir a verdade da mãe. Deixava o futuro em segundo plano. Abandonei
a fita por causa da violência. Mas a tenacidade da jovem ficou na memória.
Fui tomar água matutando. Ah, as
circunstâncias...
Volto e torno a aperrear o
controle. Estaciono no canal 70 e dou de cara com nada mais nada menos que a
Demi Moore. O canal passava Proposta Indecente, produção de 1993. A Demi, então
com 30 anos, no auge, contracena com Robert Redford. No auge da forma
artística, diga-se, a fim de evitar tendenciosas especulações. Diga-se, também,
que Proposta Indecente já assisti a umas quinhentas vezes. Tornei-me tão íntimo
da Demi que me sinto à vontade para pôr o artigo antes do nome dela. Reporto-me
a ela como a Demi sem a menor cerimônia.
Sintonizo o 70 e dali a minutos John
Gage (Redford) oferece um milhão de dólares a David (Harrelson) para que este
permita que sua mulher, Diana (Demi), passe uma noitada com ele, John Gage. Nesse
ponto congelo a cena e vou ao banheiro. Vou com a pouca vergonha na memória.
Fui derramar água matutando. Ah,
o sexo...
Retornei, mas, pensativo, deixei
a cena parada, John prestes a dar uma encaçapada. John e David estavam jogando
sinuca, lembram-se? Certo é que o casal aceitou a proposta, sabem vocês. Mas John foi tão sacana que quis saber da
Diana de quem tinha sido a decisão. Grandessíssimo fdp.
Bom, não assisti mais ao filme.
Espreguicei-me e levantei-me da cama para dar uma olhadela nas portas, pois um
alarmezinho mental aconselhava-me tal vistoria.
Fui matutando. Ah, a
comunicação...
Quão poderosa é a nossa mente.
Veio-me então à memória a mente de Eduardo Campos querendo injetar na nossa a ideia
de melhor candidato. Só fiquei em dúvida se a mente injetora era substantivo ou
verbo. Em dúvida, mas... Mas dei uma checadinha na porta da sala.
Olhei a porta da cozinha, vi o
sangueiro na cozinha de Maria Rossi e comecei a pensar no que a mente dela havia
pensado naquela hora. Pensei, antevi as agitações mentais da filha e concluí:
mentes adjetivadas. De ódio e de amor, por certo.
Terminada a ronda, voltei para a
cama. O que teria passado pela mente de John, Diana e David? Posse, indecisão,
ciúme? Certamente que sim. E tudo com os
mais fidedignos dos advérbios. Em especial os terminados em mente. Já estava
cochilando quando me lembrei de coincidente detalhe. Os olhos, gente. Eduardo
cunha, Demi Moore e Maria Rossi têm olhos verdes (ou são azuis?). Mas o olhar é
diferente. O de Eduardo é errante, o da Demi é encanto, o de Maria é espanto.
Adormeci com a televisão na
cabeça. Quer dizer, conveniências, circunstâncias e sexo, evidentemente.
Despertei com a ideia de jogar essas três coisinhas numa panela de barro, botar
num fogo de lenha, mexer, coar, pôr a substância numas cumbunquinhas de cabaço
e sair mundo a fora gritando: “Comunicação da melhor qualidade. Quem vai
querer? Cem cruéis a cabaça. Sabendo usar nada lhe faltará”. Acho que logo,
logo arrumarei um milhão de dólares. O que você acha?
Estava rindo dessa doidice quando
recebi uma mensagem pelo zapzap. Diga de quem era? Aposto que está pensando na
Demi Moore. No Eduardo Campos? Vou digitar um “leia mais” a fim de matar sua
curiosidade. O leia mais só vai ter o tal nome, ok? Proponho que tecle e leia.
Ninguém enviou mensagem pra mim
não, meu? Isto é ficção, sô! Você sabe disso, mas a comunicação mental mandou-o
clicar. Tá vendo só?
Proposta Indecente, é?
Maio/14
TC
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