COISAS DE MALUCO
Sou
cultivador de palavras. Não na acepção de escrevê-las e sim na de curti-las. Curtir
não exclusivamente por gostar delas. Algumas são curtidas por despertarem em
mim a sensação de bani-las do dicionário.
Coisa
de maluco, não?
Coerência
é uma delas. Já viram palavra mais gilete? Quando o sujeito conserva particular
opinião está sendo coerente, verdadeiro. Mas quando muda de opinião é sinal de
mente aberta, evolução. E, no mais das vezes, a inversão se dá só pela
conveniência. Agora, apavorante mesmo é a esquisita multifacetada. Pense numa palavrinha
cheia de nhenhenhém.
Algumas
palavras são supimpas. Interesse, circunstância, risco. Essas são doze em
reflexão. Mas profunda e linda ao extremo é PERPLEXO. Pronuncie e veja o sabor.
Os beiços se unem, depois se abrem, em seguida fazem um biquinho. Uma delícia.
Aliás, palavras com esse tipo de xis são sobretudo agregativas. Nexo, anexo,
plexo mostram essa união.
E
sexo?
Quer palavrinha mais agregadora? A propósito, conquanto o “plexo” depois
do “per” seja um termo anatômico, cujo significado é interconexão de nervuras,
perplexo não tem nada a ver com sexo em pé. É simples espanto.
Coisa
de maluco, não?
Perplexo
é como me sinto com a postura (palavra feia, né não?) de muitos candidatos da
próxima eleição. Os caras ou as caras são amigos, parceiros até ontem, mas
botam quente na adjetivação do adversário. Ficam cuspindo excrementos nas caras
dos outros. Nas caras, sim, posto só agir assim quem tem caras a torto e a
direito. Ou a esquerda ou a direita.
Coisa
de maluco, não?
Pois
então. Perplexo todo, perguntei ao Dr.Gugo quanto ganhará um carinha desses na
hipótese de ser eleito. Simples curiosidade, haja vista montante algum
justificar a corriqueira profanação de caráter. Como simplificação, quis saber
apenas a remuneração de deputado federal. “27 mil reais por mês, meu nobre”,
disse-me o atencioso. E quanto o pretendente gasta para se eleger? “Por baixo,
em torno de 5 milhões de reais. Onde você quer chegar, meu nobre? Olhe lá. Não
faça julgamento precipitado”.
Não
fiz julgamento, mas fiz as contas: 27 mil vezes 12 vezes 4 dá 1,3 milhão. 1,3
contra 5. Não bate. Mas os candidatos não estão nem aí pra essa continha.
Querem é ganhar a eleição.
Coisa
de maluco, não?
Fui atrás da diferença e encontrei um tal de
cotão mensal. O cotão varia de estado para estado. O do elefante é de 34 mil.
Mas essa grana é para as despesas parlamentares. Então não conta para aquela
conta.
Virei-me
para o doutor: E aí, doutor? “Pesquise doações”, respondeu, caindo na risada,
eu morrendo de vergonha por causa da ignorância. Pesquisei. Tá na lei,
bonitinha, bonitinha. Pessoas físicas e jurídicas podem doar, sim. Doação
mesmo. Tudo de mão beijada. Nestas eleições, já doaram mais de 400 milhões de
reais. Entre as 10 mais volumosas doações 5 são de empreiteiras.
Cacilda!
Botei a vergonha de lado e voltei ao doutor: tudo bem, doutor. As doações podem
cobrir o rombo, mas... Mas essas doações, o doutor não acha... “Não acho nada,
meu nobre. Quem acha é você. Procure. Aliás, você é muito desconfiado. Procure
altruísmo”.
Bati
na porta do Dr. Houaiss. Ele me explicou. Altruísmo: inclinação de natureza
instintiva para o bem. Preocupação com o outro. Amor desinteressado ao próximo;
abnegação.
Ah,
bom. Tá tudo explicadinho.
Coisa
de filantropo, não?
Altruísmo
do lado de lá é devolvido com altruísmo do lado de cá. Mas matuto é bicho
besta. Se fosse assim, pensei, o país não teria tanta miséria. Esse altruísmo é
o nome do fumo entrando em certos lados da gente.
Isso
é vaidade, concluí. Esse pessoal se descabela para ser eleito somente por
vaidade. Nem procurei o Dr. Gugo. Vaidade,
a exemplo de perplexo, é uma de minhas palavras favoritas. Ser chamado de governador, senador, deputado,
prefeito, vereador. Taí o supra sumo do orgulho. E presidenta? É a glória. Mas
hei de admitir. A vaidade é bem-vinda.
Sem fumo, é evidente. O não vaidoso é bunda mole, morno, apalermado.
A vaidade soberana ocorre quando o indivíduo é
adjetivado de modesto, simples, humilde. Nossa! O envaidecimento desse
indivíduo é orgástico. Mas nem sempre é orgástico, admito de novo. O problema
da vaidade é o nome. Para o indivíduo há pouco citado, por exemplo, a vaidade
vai com a idade. Dou-me como modelo. De vaidoso. Não de vaidade. Quer a prova?
Escrevi
sem o “que”, por ter me lembrado de meu romance “QUÊ?!, este mostrengo de
texto.
Coisa
de maluco vaidoso, não?
Setembro/14
TC
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