A SEGUNDA-FEIRA
Não
duvido de nada neste mundo velho. Principalmente quando a informação chega acomodada
na boleia da ciência, a exemplo desta aqui. Hoje é o dia mais triste do ano.
A crença nessa melancólica oração (Acabo de lê-la no UOL) é do psicólogo Cliff
Arnal, da Universidade de Cardiff, do País de Gales. Segundo a reportagem, o
colega – também sou psicólogo. Só que de barzinho – “chegou a tal conclusão
após resolver uma complicada equação matemática que analisa a meteorologia, as
dívidas realizadas no Natal, a queda da motivação e uma crescente cobrança para
realizar coisas”.
Equação
estruturadinha, a la Einstein, tome um enter e pimba: o dia mais triste do ano é a terceira
segunda-feira de janeiro. A 19 do 1, neste 15 do 2000.
O
não duvido ali de cima é apenas um chamativo contextual, pois concordo com o
ilustre cientista, embora dissinta da semântica “triste”. Aliás (sou fã do
estratégico aliás), a respeito desse assunto, meus alunos do MPBar tiraram dez na prova final de temas
aleatórios, último domingo de 2014. Quem me diz qual é o dia mais borocoxô?
Levantaram os copos e gaguejaram: a segunda-feira, professor.
Como
deve ter percebido, usei borocoxô em vez de triste – daí a divergência com o
mestre Cliff – e trabalhei com o período semanal. Prefiro borocoxô,
sorumbático, trombudo, macambúzio, jururu, mocoronha, amuado, soturno porque
são termos fidedignos ao estado mental da segunda-feira. São passageiros. Na
terça-feira, o indivíduo já está pronto pra outras. Outras variantes mentais, entenda-me.
E, a princípio, de euforia. Já a tristeza é, por definição, duradoura. Não definitiva,
porém.
O
borocoxô sofre por leves disfunções na moral, com reflexos no moral. O triste sofre
por graves cicatrizes na alma, com profundas sequelas no emocional. O borocoxô
está. O triste é. O borocoxô merece perdão. O triste carece de compaixão. O
perdão é pedido e concedido. A compaixão é dada e enjeitada. O borocoxô está
por causas diversas. O triste é por causa exclusiva. A causa da tristeza é a indiferença
à paixão amorosa. Mal diagnosticado pelo lamento do coração. Daí o triste
rejeitar a compaixão. Quem quer ser amado por compaixão? Somente a segunda
paixão cura o abandono da primeira. Cura, mas... Mas cura. Mas, enquanto, fica
o ferro do olhar sombrio, a marca da distração, a mancha do passado presente.
O
dia do triste é infinitamente maior do que o do jururu, se é que você está
entendendo uma de minhas aulas no MPBar. A rigor (acho feio o em
rigor), a segunda-feira não é triste. É tão somente mais um dia. São os estados
mentais ou a tristeza que a rotula de triste. Por isso julguei inadequado o
“triste” do confrade galês. Mas isso é o de menos. Arnal sabe disso. Problema
de tradução, imagino. Não entendeu? Prefere um desenho? Tá você e alguns de
meus alunos. Zé Alves e Sávio, por exemplo. Só depois da terceira é que mostram
o sorriso da compreensão. Terceira explicação, por óbvio. Vamos ao desenho,
pois.
Borocruxura
é sensação. Tristeza é essência. É como se estivéssemos falando de sensação
prazerosa e prazer. Quando morre um ente querido, sente-se a sensação de perda.
Quando se bebe uma taça de vinho, sente-se a sensação de prazer. Mas aquela não
é tristeza, tampouco esta é prazer. Tristeza é única, nasce, repito, da paixão.
Prazer também é único, nasce do sexo. Que tal o desenho? Tá vendo uma besteira,
é? Pois diga!
Por
vezes, a tristeza é momentânea, pois nova paixão pode estar batendo à porta. Também,
por vezes, a borocruxura pode estar abrindo a porta da tristeza. É evidente que
vai passar a segunda-feira sorumbático o sujeito que chega à casa da sogra com
a cantoria dos galos e a esposa o recebe com um “isso é hora, bonitinho? Vai
dormir no sofá, infeliz”. Mas o infeliz está somente borocoxô, não está triste.
À noite, um papinho leve, uma sopinha quente, e a camaradagem pode voltar dali
a instantes. Agora, se o sem-noção (tem hífen?) ficar fazendo rotina disso (tem
pleonasmo aqui?), a tromba das segundas-feiras fatalmente virará tristeza,
porquanto alguém haverá de lhe bater a porta. Dou como exemplo o meu primo
Bião.
O
alegre Bião tornou-se um homem triste. Tornou-se, não. Ficou. Ficou, não. Sentiu-se.
Explico. Vião, a esposa, cansou-se das domingueiras presepadas e separou-se
dele. Assisti ao pé na bunda dado pela Vião. Amigavelmente, mas pé na bunda é
pé na bunda:
“Vá
com Deus, criatura” desejou ela, Bião na porta do carro, a cara de choro (do
Bião, é lógico) avermelhando-me os olhos. Sou muito sensível, gente. Bião não
tinha voz. Acenou e balançou a cabeça.
“Espere”,
pediu Vião e caminhou até ele. Fez menção de beijá-lo na testa, mas desistiu.
Preferiu a cabeça. Tentou. Bião esquivou-se. Esquivou-se, abriu a porta do
carro, apanhou um punhal, tirou-o da bainha e o entregou a ela:
“Beijo
na cabeça não, por favor! Não preciso de esmola. Pegue. Dê-me uma punhalada no
coração”, disse ele, aos prantos, tirando a camisa, abrindo os braços,
estufando os peitos, entregando-lhe o punhal.
Isso
aconteceu numa segunda-feira, a terceira do ano, à tardinha, seis horas em
ponto.
Foram
minutos de danação. Mão direita de Bião estirada, olhar sangrando de paixão, a
lâmina pontiaguda em conluio com o mal. Doeu, gente. Bião era um homem triste. Era,
não. Sentia-se.
A frieza
de Vião esquentou, a beleza expandiu-se, a indiferença trabalhou. Delicadamente,
Vião recebeu o punhal, entregou-me, abraçou Bião e desmanchou-se em lágrimas. Ficaram
mais de cinco minutos abraçados.
Só
saí do estado de estupefação quando tomei uma. Eu, Bião e Vião. Os dois abraçadinhos.
Hoje,
dezenove do um, nenhum ano depois, revejo a cena e choro.
Desculpem.
Eu... eu... Acho que... Desculpem, a postagem fica pra amanhã ou pra quarta-feira.
Jan/15
TC
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