PODE SER ASSIM?
Podia
ficar simulando uma pose de gestos indefinidos para me manifestar. A indefinição
seria o pedido de cumplicidade, o início da construção de algo íntimo. Ela
deveria entender. Confiaria em sua intuição. Naquele instante, meu corpo
desenharia uma flecha cupideira, num rasgar de segredos, cuja essência seria a crase
de perdão com culpa. Incabível se culpar por essas coisas, por isso também
imperdoável a clemência. Mas é assim que funciona. Minha salvação é o pecado.
Mesmo sem razão de sê-lo.
Sinto
nos teus olhos a possibilidade de me salvar. Menos por seres pecadora ou uma
segunda pessoa. Não és uma segunda
pessoa, podes acreditar. Mas sinto no teu segundo ser a minha salvação. Por que
não te conto a verdade, exponho-te as maldades, descortino-te os defeitos, revelo-te
as mentiras? Ora, ora. Assim não me acharias sedutor. Ou não me achas?
Não
entendeste? Então por que corres? Espera mais um pouco.
Espere!
Estou tão nervoso quanto você. Veja como agarro as mãos e roo as unhas. Há tempo
tenho-as roídas. Meu verniz está velho, faz
muito merece uma camada. Entenda camada como quiser. A imagem de velho é a que você
tem de mim, confesse. Mas imagem nem sempre corresponde à verdade, assim como o
mapa não significa território. Ser velho é uma coisa. Exibir-se velho é outra
coisa. E bem diferente, viu? Quando lhe contar tudo, mostro-lhe meu corpo. Não
pense que só por imaginá-lo o conhece. E
o despreza. Ou não? Eu não. Imagino-a segundo a segundo. No caso de seu corpo,
imaginar e visualizar dá no mesmo. E adoro as duas abstrações.
Agora
veja. Agarrar-me e fazer-me de depósito de seus suores animalescos não lhe dá
qualquer poder sobre mim. Apenas sobre o meu sexo. E o meu corpo é muito mais
do que sexo. É um labirinto. Se quiser, faço-lhe um gráfico. Se aceitar,
provo-lhe as mudanças. Tudo na hora, é claro. Aquilo se mudando, as cicatrizes se
riscando, os sinais se formatando. E a ferida mais dolorosa. Dolorosa, não
dolorida, entenda.
A
ferida é essencial. Todo grande amor – ou paixão, para todo não rimar com amor
- passa pela virulência da dor. Se não passar não foi um grande amor, com
licença do poeta. Não é impossível disfarçá-la, porém. Tanto é que vivo disfarçando.
Vivia, para ser mais claro. Agora não. Estou aqui, ajoelhado, embora você não
me veja. Vê-me, aliás, mas olha pra cima. Ou é um olhar enviesado?
Quando
és uma presença ausente é fácil suportar. Difícil é quando te tornas uma ausente
presente. Num exercício acriançado prometo-te: conto tudo se chegares exausta,
se disseres olá, se trouxeres o sorriso do sim. Ou o da dúvida, pelo menos.
Tens
medo? Também, tenho. Não devíamos ter, é certo. Medo de amar é o cúmulo. Cúmulo
de quê? Sei lá! Só sei que é o cúmulo. Então se é assim, amemo-nos assim mesmo,
então.
Pode
ser assim?
Janeiro/15
TC
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