Olá, gente,
Deixem-me contextualizar este sem-futuro aqui
debaixo. Seguinte. Papo de Homem é um porreta saite de leitura. Só tem texto matador.
Lá tem uma página com Drummond, sentado, pensativo, e a reprodução de dez
conselhos literários dados a um escritor iniciante. Esse escritor chama-se
Alípio. O texto faz parte de A Bolsa e a Vida, coletânea de crônicas escritas
pelo Drummond entre 1953 e 1962.
Bom, estava relendo as instruções do mestre, então
me deu vontade de fazer uma brincadeira com elas. Fi-las, como dizia o Jânio
Quadros, e enviei pro Papo de Homem. Sabia que seria reprovado, é evidente.
É evidente que fui. A brincadeira não foi publicada.
Agora estou postando o bicho pra vocês.
Serei reprovado de novo?
Um abraço e boa leitura,
Tião
PASSANDO A LIMPO OS
CONSELHOS DO DRUMMOND
De quando em quando me vejo remetendo umas
dedadinhas (sou dedógrafo) de prosa pra vocês, mas as severas orientações do
PdH me fazem recolher o dedo. O médio, normalmente. Temo algum editor, o JP,
por exemplo, tachar de merda o meu texto: “Excesso de toxinas, tipo cacófatos,
e carência de tônicos, a exemplo de metáforas, dão à prosa desse rapaz uma
fetidez muito forte”. Não me disponho a imaginar alguém dizendo semelhante
verdade, ainda que dita pelos phd em boa prosa.
Matutava assim enquanto passeava por aqui, quando me
deparei com o Drummond. Fiquei tão pensativo quanto o danado, então, então... Então
aconteceu. De carne e osso, mas mais osso do que carne, o Drummond gesticulou
pra mim, certamente me confundindo com o Alípio.
- Há quanto
tempo, meu ex-jovem! Só mesmo você para fazer me levantar. Estou sentadinho
aqui há três anos. Três anos ouvindo o papo desses meninos e aprendendo com
eles. Um papo maneiro, cara. Uma delícia o tempero linguístico deles. A cada expressão
porreta eu me lembro que fui pedrado pelos puristas por proclamar tinha - no
lugar de havia – para um poema de pedras que publiquei. Aqueles críticos, meu ex-jovem,
não sabiam o que era aliteração e desconheciam o sabor das palavras.
Mas me diz, meu
rapaz. O que faz aqui? Está sondando o ambiente? Desculpe a tagarelice, mas...
Enfim, está seguindo a tolice de escrever? Espere. O Michel largou-me nos pés um
papelzinho com dez daquelas instruções que lhe há anos lhe dei. Então faremos o
seguinte. Vou lê-las uma a uma e uma a uma você me diz o que aproveitou delas.
Só tem uma coisa, meu filho. E se o chamo de filho, perdoe: é balda de gente
madura. Poderia chamar-lhe irmão, de tal maneira somos semelhantes, sem embargo
do tempo e do pormenor físico: cultivamos ambos o real ilusório, que é um bem e
um mal para a alma.
Mas, com eu dizia,
só tem uma coisa, meu filho. Espero três negocinhos de seu uma a uma de
aproveitamento: sinceridade, sinceridade, sinceridade.
O Drummond transpirava
satisfação em reencontrar o Alípio. Não quis desapontá-lo:
- Tá legal,
seu Drummond. Estou seguindo a carreira de escritor, sim. Bom, é um enorme prazer
reencontrá-lo e bater papo com o senhor.
- Então vamos
lá, meu ex-jovem. Diga-me o que aproveitou da instrução um.
1. Não acredite em originalidade, é claro. Mas não
vá acreditar tampouco na banalidade, que é a originalidade de todo mundo.
Não levei isso
ao pé da letra. Às vezes levo,
mas termino pondo na cabeça tão somente as
exceções. Pondo não, procurando-as, pois elas permanecem virgens de olhos e
ouvidos. Até a banalidade deixou de ser original, seu Drummond. Provei tal tese
quando respondi processo por plágio. Ganhei em todas as instâncias. Arquive-se
a suposta criatividade no gavetão da genialidade, proferiu o juízo final.
- Sério? Não
brinca!
2.
Não fique baboso se o amigo lhe disser que seu novo texto é melhor do que o
anterior. Quer dizer que o anterior não era bom, o que todo o mundo já
sabia. Mas se ele disser que seu novo
texto é pior do que o anterior, pode ser que fale a verdade.
Não sigo seu
conselho. Fico baboso, sim, mesmo sabendo que o amigo está mentindo. Afinal,
espero que ele também fique baboso no instante em que minto pra ele. Divirto-me
bastante com essas trocas de figurinhas.
3. Procure fazer com que seu talento não melindre o de seus
companheiros. Todos têm direito a presunção de genialidade exclusiva.
Essa regra eu
sigo numa boa, seu Drummond. Inexperiente, quebrei a cara quando a quebrei. Mas
me refiz e saí juntando os cacos da panelinha.
- Fez muito
bem. Vejamos a sugestão quatro.
4.
Aplique-se a não sofrer com o êxito de seu companheiro, admitindo embora que
ele sofra com o de você. Por egoísmo poupe-se qualquer espécie de sofrimento.
O
senhor vai me desculpar pelo o que vou falar, seu Drummond. Não sei onde diabo
andava a sua cabeça quando escreveu esse “por egoísmo”. Egoísmo é...
- Agora quem pede desculpa sou eu. Também desconheço, ex-jovem
Alípio. Fui imprudente. Nem brincando o escritor deve ser egoísta. Desconsidere
essa expressão, tá? Aproveito para de lambuja lhe dar um conselho. Se pensa em
ser um autor tope de linha, fuja destes arvoredos: egoísmo e vaidade. Formam
cada fogueira que você nem imagina. Corra e suba no desprendimento e na
modéstia. São nos galhos dessas virtudes que se acomodam os autores de sucesso.
Já viu, por acaso, soberba ou arrogância nos feirantes literários, nos campeões
de vendas? Pois!
A propósito, o conselho cinco vai nessa direção.
Escute:
5. Sua vaidade assume formas tão sutis que chega a
confundir-se com modéstia. Faça um teste: proceda conscientemente como vaidoso,
e verá como se sente à vontade.
Fiz o teste.
Dez na cabeça. Aprovadíssimo, seu Drummond. Obrigado!
- De nada.
6. Opinião duradoura é a que se mantém válida por
três meses. Não exija maior coerência dos outros nem se sinta obrigado
intelectualmente a tanto.
Três meses
naquele tempo, Mestre. Opinião, hoje, não raro, morre entre duas e três
semanas. Às vezes, dura o tempo duma edição jornalística. A coerência corta dos
dois lados, seu Drummond. É gilete. Quando, por conveniência, o sujeito mantém a
opinião, ele diz que a manteve por princípios. Quando muda, também por
oportunidade, o dito sujeito apressa-se a dizer que refletiu melhor e que só o
burro não muda. Porque burro é.
- Não é isso!
7.
Procure não mentir, a não ser nos casos indicados pela polidez ou pela
misericórdia. É arte que exige grande refinamento, e você será apanhado daqui a
dez anos se ficar famoso; e se não ficar não terá valido a pena.
Sabe, seu
Drummond, esse conselho, o sete da mentira, é a minha cara. Embora seja
ficcionista, não minto. Mentira. Minto apenas quando a vaca tosse. E, é
verdade, ela sempre tosse quando recebo certos elogios. Não era, seu Drummond,
mas foi só começar a escrever para eu ficar polido e misericordioso. Tornei-me
refinadíssimo. Verdadeiro bundão.
- É verdade. Já percebi, ex-jovem Alípio. Está seguindo este conselho?
8. Se sentir propensão para o gang literário,
instale-se no seio de uma geração e ataque. Não há polícia para esse gênero de
atividade. O castigo são os companheiros e depois o tédio.
Nunca senti tal propensão. Mas não
posso garantir que não vá deixar alguns companheiros chateados.
- Você me parece bastante sincero,
meu rapaz.
9.
Evite disputar prêmios literários. O pior que pode acontecer é você ganhá-los,
conferidos por juízes que o seu senso crítico jamais premiaria.
Tenho
evitado, sim. Mas já fui juiz uma vez. E acho que fiz justiça, seu Drummond. Dei
nota máxima a todos os quesitos. Embora, por princípio moral, tivesse votado diferente
se o texto em avaliação tivesse sido escrito por mim. Ou escrito por um
desafeto. Nesse caso, o princípio seria outro, é evidente.
Pois diga!
Vejamos o
último e mais importante conselho. Ou melhor, anticonselho. Já que disse que
está escrevendo, este, por óbvio, você não seguiu.
10.
Leia muito e esqueça o mais que puder. Só escreva quando de todo
não puder deixar de fazê-lo. E sempre se pode deixar.
Não só não segui, como também
discordei. Como diria aquele famoso serial, vamos por partes, seu Drummond.
Esquartejemos
o primeiro período: “Leia muito e esqueça o mais que puder”. Para escrever, não
é preciso ler esse muito todo não, seu Drummond. Disseram isso, a citação foi
sendo repetida e terminou pegando. O senhor caiu nessa, desculpe a sinceridade,
seu Drummond. Leia o suficiente é suficiente. Ponto final. Agora são cabíveis
duas perguntinhas. O que é ler muito? O que é ler o suficiente?
Leia muito
dá a ideia de ler o dia todo, ler todo o dia e ler mais, mais e mais. Loucura
total. E desperdício de raciocínio, pois grande parte das informações cairá no
esquecimento. De mais a mais, é grande o risco de o leitor ficar pensando pela
cabeça dos autores, já que não teve tempo de “tratar” o conteúdo lido. E a
crítica é fundamental. Concorda, seu Drummond?
Já leia o suficiente embute a ideia
de limite. Leia o suficiente – ou o que lhe basta - abrange absorção, crítica e
variantes do gênero. Suas sugestões são anticonselhos, entendo. No “esqueça o
mais que puder” o senhor foi macarrônico, compreendo. Mas, mas... Mas prefiro
algo assim: leia o suficiente e aproveite o mais que puder.
Espostejemos seu segundo período: “Só escreva quando de todo não puder
deixar de fazê-lo”. Com o devido respeito, e repetindo o feio macarrônico, essa foi outra
recomendação infeliz, seu Drummond. Fez-me lembrar Rainer Rilke, pois vai ao
encontro da desventura aconselhada pelo festejadíssimo poeta alemão. Rilke...
Engraçado,
seu Drummond. Assim como o senhor, Rilke dava respostas sobre literatura a um
jovem. No caso, o jovem Kappus.
Disse Rilke ao Kappus: “Confesse a si mesmo:
morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo
na hora mais tranquila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?"
Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder
contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então
construa a sua vida de acordo esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais
indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal
pressão”.
Retórica
e tudo mais à parte, uma montanha de bobagens esses dizeres do sr. Rilke.
Escritos em 1903, o senhor deve saber, seu Drummond. Coisa de quem achava, e
acha, literatura a arte das artes. Menos, sr. Rilke. Dá pra fazer mais em
conta, não dá, seu Drummond? Literatura é manifestação artística, é certo, mas
tão somente isso. A literatura não põe espada no pescoço de ninguém. Escrevamos
quando quisermos e paremos quando nos der na telha. Então deixemos de lado
essas, essas, essas... Bom, o senhor sabe.
Retalhemos seu último período: “E
sempre se pode deixar”. E esse o salva, seu Drummond. Bom é que entre mortos e
feridos escaparam todos, posto salvar ser a essência da literatura. Perdoe-me
se passei do ponto. Na ênfase e na extensão, tá?
- Como
ousa ir de encontro ao Rilke, meu rapaz. Você desconhece o que é linguagem
expressiva. Mas não há por que pedir perdão, ex-jovem Alípio. Ponte de vista é
ponto de vista. Deu com força, hein! Agora me diga. De onde tirou esse tal de
“macarrônico”? Outra coisinha. Como ficou bom da gagueira?
-
Gagueira? Nunca fui gago, seu Drummond.
- Bem que
eu vinha desconfiando. O senhor não é o gago e ex-jovem Alípio. Por que me
enganou, senhor, senhor...
- Tião.
Tião Carneiro. Desculpe, seu Drummond. Eu...
- Ah,
então o senhor é o tal que escreve numa famigerada Pocilga de Ouro e que agora
em março achou por bem postar um texto alterando um conto meu, o A
Opinião em Palácio. A Cecília me falou desse mostrengo. Não vai longe
com esse nome, sr. Carneiro. Fosse ao menos Tião Coelho? Os leitores de sua
Pocilga devem... Devem... Bom, o senhor sabe.
Mas
teste-se, sr. Carneiro. Mande um texto pra cá. Se os meninos aprovarem já é um
bom sinal. Mas tenha
cuidado com o quanto e com o que vai escrever, tá ligado? Esses guris só soltam
textos matadores. Pense oito, oitenta, oitocentas vezes antes de mandar alguma
coisa pra cá.
Boa sorte.
Fiquei
pensando, pensando, pensando. Mandei quando cheguei na vez setecentos e noventa
e nove.
Mas fui
reprovado.
Abril/2015,
TC
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