BOLO COM TEXTO
“Fulano de tal, o que é a vida.”
Essa é a última pergunta do excelente programa de entrevista PROVOCAÇÕES, apresentado pelo ator Antônio
Abujamra. Meia noite das terças-feiras, TV Cultura, e lá está ele encarando
alguém com tal pergunta. O entrevistado responde algo, nisso o Abujamra
sapeca-lhe: “O que é a vida.” Outro algo de resposta e mais um “O que é a vida.”
Na primeira “O que é a vida” já se
percebe certa coisinha engraçada: a leve inibição de alguns entrevistados. Mostram-se
levemente embaraçados, embora, e isto é que é instigante, estejam sabendo que a
desconcertante pergunta virá. E virá três vezes. Pergunta tão simples, de
resposta também simples, posto qualquer uma satisfazer à indagação, sugere
recepção amistosa. Por que, então, o jeitão desconfortável do inquirido? Arte
da comunicação, certamente.
Feita com olhos nos olhos,
expressão corporal convincente, entonação perfeita, a pergunta “O que é a vida”
chega devastadora ao último “round” e acaba nocauteando parte dos entrevistados.
Na verdade, todos sentem o golpe comunicativo, mas alguns disfarçam que é uma
beleza. É com tal avaliação que desligo a tevê e fico a matutar. Se o Abujamra
me formulasse essas perguntas, eu riria e o responderia assim.
A vida, seu Abujamra, é
comunicação, comunicação, comunicação. E acrescentaria. Comunicação
representada por seus vassalos, tais como circunstância, conveniência,
interesse... Caso ele quebrasse as regras do Programa e partisse pra cima com
um “como assim vassalo”, eu me livraria com este contexto:
Ora como assim! Vassalos são os paus-mandados
da comunicação, senhor. Peguemos um deles. Circunstância serve. Peguemos, adicionemos
a ela uma pitada de atenção, um quanto de empenho, um tanto de acaso
(comunicação cósmica), mais uns tantos e quantos de outros temperos
comunicativos e o contexto estará pronto para nos servir. Ou para dele nos servirmos.
Contexto é danado de prestativo, senhor Abujamra. Sugira-lhe qualquer estado
mental e ele já se põe aos seus pés. Ignorância e desinteresse, por exemplo.
Esse casal forma baita contexto de apatia. Qual o mais nocivo? A ignorância ou
o desinteresse? Não sei nem me interessa, costuma responder o apático.
Contexto, gente, é o xodó das
atitudes mentais. Às vezes, vemo-nos em movimento. Noutras, na maioria, ele já
está pronto para dar o bote. Querem ver?
Focado em determinado interesse, o
sr. Abujamra bolou certas perguntas, deu-lhes um quê provocativo e... E estava
pronto o prazeroso PROVOCAÇÕES. Contexto pronto, está à disposição de todos.
Há muito tempo, numa eleição
qualquer, um candidato pegou a conveniência, juntou-lhe uma porrada de
dissimulação, misturou com enganadores quês e... Estava eleito o tendencioso
candidato. Contexto pronto, continua sendo utilizado.
Atualmente, assistimos à gestação de
econômico e político contexto: a regulamentação do projeto de lei da
terceirização. Todos os temperos da comunicação estão sendo usados. Dum lado, a
panaceia da segurança jurídica. Doutro, o vírus da precarização. Qual contexto
nascerá dos debates?
Quanta babaquice, dirá alguém sobre
este texto. Não precisamos saber o que é contexto para entender que a vida é assim.
É verdade. Mas entendê-lo pode fazer a diferença nos nossos apressados
julgamentos. E, entenda, seu Alguém, a vida também é assim, cheia de julgamento.
Entender, por óbvio, é diferente de concordar.
Já tentou entender o contexto
criado pelo protagonista dum crime passional? E o contexto do suicida? Em algum
momento, parou para pensar no contexto do casamento? Como exercício, pense no
seu. Já imaginou que, nas três hipóteses, um adicional temperinho da
comunicação – ou a ausência de um dos temperinhos usados - poderia ter mudado o
rumo da história de alguém, ou de sua história?
Agora aceite uma sugestão. Esqueça
essa tolice de contexto. Sugestão desnecessário, é? Pois diga! Falei de
contexto tão somente para justificar o cabeçalho do texto. Uma senhora
enrolação. Passei-lhe um quinal, dei-lhe tremendo bolo, não foi? Desculpe aí,
tá?
Bolo, aliás, é ótima resposta para “O
que é a vida” do Abujamra. O que é a vida, senão um gigantesco bolo preparado
pela atitude, cujos recheios encontram-se na prateleira mental do ser humano.
Abril/15
TC
Obs 1. Antônio Abujamra morreu
hoje, 28/04/15. Eu estava no meio do texto quando o UOL me deu a notícia.
Obs 2. Acerca do atrapalhado título
Bolo Com Texto, devo explicar o seguinte. Aqui
acolá, levo bolo de batata para os colegas de trabalho. Também aqui acolá ponho
de cobertura um texto brincalhão. Só come do bolo quem ler, costumo brincar. Aí
os danados e as danadas passam (passam, entenderam?) os olhos no papel e afiam
os dentes no bolo. E hoje é dia dum aqui, acolá. Entenderam a razão do confuso
título?
O bolo de batata de hoje é
especial, pois simboliza meu aniversário e minha aposentadoria. Esperadíssimo,
portanto. Se não o trouxesse, correria o risco de meu pedido de impeachment estar
logo nas primeiras horas da segunda-feira na mesa do delegado.
E a primeira assinatura começaria
com o “M” da chefe. E parece que tô vendo lá embaixo a ruma de OK, OK, OK do
delegado.
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