SANSÃO,
DALILA E O ACHADO DAS BOTAS DO JUDAS NOS CAFUNDÓS DUM GRANDE RIO DO NORTE- BRASIL
(Quinto conto surreal
do TC)
O
primeiro personagem desta história (história, sim) chega a pé aos arredores de
certo povoado. Pingo do meio dia, arreia o matulão, coça a cabeça, dá uma
assuntada e aproveita a sombrinha dum pé de araçá para tirar um cochilo. Acorda,
faz alongamentos e fica olhando o lugarejo lá embaixo.
Não
mais de cinquenta casas, supõe.
Que
energia é esta que está me empurrando para o cafundó do mundo, amado Senhor,
pergunta-se o andarilho.
O
nome dele é Sansão.
Sansão
tem um quezinho religioso e anatomia atlética. Está longe, porém, da descomunal
força do bíblico juiz de Israel. Já no equilibrismo, certamente superaria o
xará matador de leão, já que fora artista de circo. Era especialista em trapézio
e saltos mortais. Abandonou a profissão para fugir do assédio feminino: caixão
de músculos, negro de cabelo esvoaçante, olhos verdes de olhar intenso,
simpático, brincalhão, a mulherada vivia pegando no pé dele. Daí ele ter posto
os pés na direção do anonimato. Havia anos Sansão vivia a vida velha de
viajante.
Sansão
passava a poucos quilômetros do que estava chamando de cafundó do mundo quando a
potente energia o fez parar em certa encruzilhada e o mandou seguir pela
estradinha a direita. Agora coçava a barbicha e avaliava se valia a pena descer
para o lugarejo. A intuição dizia sim, desça; a razão respondia não, volte. Sansão
sentia-se meio aperreado, algo semelhante à excitação sentida nas luas grandes,
o que não era o caso: a lua só estaria cheia no sábado, dali a quatro dias.
Seja
o que Deus quiser, falou alto o aluado Sansão, e começou a descer a ladeirinha
que o levaria ao vilarejo.
O
nome do vilarejo
é Araçá.
Não
mais de cem cinquenta casas, como havia suposto Sansão, mas cheio de picadas,
sítios e fazendas nas cercanias. Araçá, e aqui - para desespero de meu crítico
e inimigo íntimo JB - abro uma vereda informativa: Araçá é conhecido pelo bom
humor de sua gente, cujos sorrisos aparecem na inventividade de apelidos,
gírias e afins.
Rapaz
bonito, por exemplo, as meninas chamam de Pão. Tudo porque o pão da padaria de
seu Zuza é o mais gostoso da região. Tão gostoso quanto o pão é a broa. Por
isso os garotos chamam as meninas de Broa. Pão ganha o país, mas Broa só pega
após briguentos debates. Mesmo assim deformada.
Havia
debates, sim. Os caras começavam a beber e terminavam discutindo sobre o
relevante tema. Como o simples Broa não colou, a rapaziada se pôs a chamar as
bonitonas de Broa Zuza, em alusão ao dono da padaria. O epíteto também morreu, conquanto
alguns estudiosos digam que o conhecido “Boazuda” de hoje foi parido naquele
tempo. Mas o que surgiu da broa e andou mundo a fora mesmo foi “Broto”,
sugestão de Chico da Serra, na época, o supervisor das reuniões.
Aposto
como o JB abandonou a leitura deste texto. Alguém lhe disse que o conto deve
ser seco, direto e outras coisitas, então o aloprado JB passou a levar essas falas
ao pé da letra. Só falta infartar com as divagações deste transgressor. Mas não
é porque estou descrevendo fatos atípicos, cujos detalhes tomam feição de conto
surreal, que vou desprezar as reais sutilezas do ambiente.
Bom,
depois de breve sondagem no vilarejo, Sansão entendeu que se tivesse de
encontrar alguma coisa para comer seria naquela venda da esquina. Entrou, balançou
a cabeça para dois cambaleantes de cachaça e ficou assistindo a uma briga de casal.
Os donos do estabelecimento, pelo visto:
-
Mas eu disse que ia trazer o peixe e que você chamasse o Joca das Correias pra
tirar o coco. Cação só presta no coco, mulher. Você sabe disso. Se não achou o Joca,
por que não foi ver se os vizinhos empestavam um coco?
- Fui,
homem de Deus, mas ninguém tinha. O que você queria que eu fizesse?
-
Que desse seus pulinhos e... e...
Diga,
moço. Quer alguma coisa, marrento?
-
Quero. Primeiro, que o senhor me informe onde eu posso fazer uma refeição.
Segundo, um caldo de cana com pão doce, caso não exista esse lugar. Agora, desculpe
a brincadeira, mas essa história de peixe no coco deixou-me de boca cheia
d’água.
-
Lugar pra comer não existe aqui não. Tá doido? Tá querendo demais, marrento. Aqui
foi onde o Judas perdeu as botas. Desculpe a brincadeira também, mas se o marrento
tirar um coco no coqueiro daqui do quintal, não vai precisar do caldo de cana
com pão doce.
-
Ótimo. Vamos almoçar peixe, então.
- O
marrento tem correias pra subir?
-
Não. Não, mas adoro peixe. Vou subir. Vou dar os pulinhos que a sua senhora não
deu.
O
bodegueiro caiu na risada. A mulher e os biriteiros fizeram coro. Sansão também
riu:
- Mostre-me
o coqueiro, seu...seu.
“Davi,
seu criado. O coqueiro é aquele tortão ali, ó. Tem mais de trinta metros. Pode arriar
um cacho”, respondeu, dobrando a risada.
Sansão
cubou o coqueiro, fez uns alongamentos e pimba! Em segundos, estava no olho do
coqueiro, rindo pra baixo, torcendo os talos dos cocos.
Embaixo,
os aboticados olhos da pequena plateia não saíam do olho do coqueiro. Imobilizadas,
as testemunhas só se mexiam para juntar coco. Mas, de queixos caídos, oficial mesmo,
ficaram, quando, na descida, no meio do coqueiro, Sansão fez finca pé, rodopiou
e caiu em pé nos pés dos apalermados.
Trazia
nos dentes um par de botas do tempo do ronca.
Almoçaram
peixe no mais solene respeito por parte dos anfitriões, como se envergonhados
da zombaria do coqueiro. Acabado o almoço, Davi quis saber o nome do novo amigo.
Em seguida, perdeu para a curiosidade:
-
Que mal pergunto, o que o amigo Sansão faz por estas bandas?
Sansão
disse que vivia fazendo bico no meio do mundo e que estava ali empurrado por
uma força do além. Aproveitou o embalo e perguntou se o amigo não conhecia
alguém que precisasse de seus serviços:
- Só
conheço uma pessoa que pode arrumar uma ocupação pra vosmecê. É a princesa. Mas
ela viajou agorinha pra capital, volta no sábado, assim me falou um vaqueiro
dela. Isso aqui pra nós, a princesa é a mulher...
Davi
brecou a informação, porquanto a esposa o chamava do balcão da bodega.
A
princesa viajante, posso antecipar, tem uma fazenda a cinco quilômetros do
povoado. Herdou-a dos pais, aos dezenove anos. Pai, mãe e dois irmãos morreram envenenados.
Veneno no almoço. Dizem até que foi a princesa quem pôs o veneno. Baseiam-se no
fato de ela não ter provado do almoço, já que estava caçando. Certo é que a
princesa está se revelando excelente administradora, passados três anos da
morte da família.
A
exemplo de Sansão, a princesa sofre de terríveis excitações nos períodos de
luas grandes. Sempre sofreu, mas os filhos da Candinha dizem que as mensais palpitações
não passam de remorsos advindos da tragédia familiar.
-
Como eu ia dizendo, amigo Sansão, a princesa é a mulher mais gostosa deste fim
de mundo. Minha nossa Senhora. A ruiva é uma jumenta. Passa o tempo dando coice
nas mãos da molecada. Até em mim ela já deu coice, amigo Sansão.
O
exagero erótico de Davi tem nome. É a segunda personagem central desta história.
O
nome dela é Dalila.
Já
desconfiava, não? Sabe como o Sansão e ela vão terminar? Não? Mas homem! Para
que serviu, então, o monte de pistas espalhadas no texto?
Bem,
Sansão agradeceu a acolhida e, encabulado, foi conhecer o vilarejo. Encabulado,
posto o formigamento ter desaparecido na subida do coqueiro. À noite, Sansão
dormiu na capela. No dia seguinte, quinta-feira, perambulou pelos arredores,
almoçou numa granja e pernoitou no cemitério. Na sexta-feira, na calçada da
capela, mal conseguia cochilar, porquanto as meninas ficavam olhando pra ele,
como a reverenciá-lo.
Embora
tenha ficado curioso com a tal princesa, Sansão decide ir embora no sábado. Prefere
trabalhar numa cidade. Mesmo porque a excitação intempestiva o abandonara.
Pensava assim, até Davi o arrancar da madorna:
-
Sabe, amigo Sansão, você precisa me tirar duma enrascada. O Araçá todo tá chamando
a gente de mentiroso. É uma mangoça só. Ninguém acredita no que você aprontou
no coqueiro. Quero que faça aquilo na frente do povo. A gente cobra uma mufunfinha,
você sobe no coqueiro, desce daquele jeito e pronto. O que me diz?
- Aquilo
é muito simples, homem de Deus. Faremos assim, Davi. Consiga três paus de sete
metros, faça uma trave na frente da bodega e diga ao povo que amanhã, oito
horas da noite, eu ficarei meia hora me apresentando na trave. Arrume uma
maneira de cobrar. O apurado a gente racha. O que me diz?
Davi
só faz abrir sorridente balançado de cabeça. Acertados os detalhes, sete horas,
e o terreiro da mercearia já está coalhado de gente. Sansão se dirige à bodega
quando sente a extrema excitação. Normal, pensa, pois se dá conta da lua cheia.
Sete
e meia, Sansão checa a trave, aprova e se alonga. Músculos à mostra e calça
justinha exibem avantajada anatomia e faz a mulherada gemer. Sansão se retira e
espera a regressiva contagem de Davi. Dali a minutos:
-
10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, já.
Feito
uma flecha, Sansão aparece e fica fazendo acrobacia no improvisado trapézio. Uma
manobra, um urro de delírio. Estatelada é pouco para exprimir o estado de
espírito da assistência. Nem sequer escutam o barulho dum jipe. O jipe de
Dalila. Alvoroçadíssima, Dalila não sente dificuldade em acomodar-se na frente
de todo o mundo. Acomoda-se no momento em que Sansão fica em pé na trave.
Sansão
a viu, mirou-a e começou a cair de costas, como se estivesse desmaiando. O “oh”
de aflição cedeu lugar ao “ah” de alívio quando um duplo mortal deixou Sansão frente
a frente com Dalila:
-
Uau!
-
Uau!
“Uau”,
tornou a articular Dalila.
“Uau”,
respondeu Sansão.
“Uau”,
aprovou a ruivona de olhos azuis.
“Uau”,
concordou o negrão de olhos verdes.
Os
eloquentes uaus emudeciam a plateia. A lua iluminava a cena histórica. Uma
chuvinha se aprontava.
Uau,
um passinho, olhar fixo no parceiro, um encurvado de submissão. E assim, a
sequência se repetindo, foram se envergando e se aproximando. E o povo se
aperreando. Já se percebia o balbuciar de rezas. Terços nas mãos, lágrimas nos
olhos e tremores nos lábios dominavam o ambiente quando o casal ficou do
tamanho de um menino de cinco anos.
Até
que, atingido o limite de envergamento, ouviram-se os clamorosos “sangue de
Cristo tem poder”. O ápice ocorreu quando a dupla ficou de quatro pé, os pelos
se levantaram e Dalila escancarou a paixão:
MIAU!
Miou,
pulou no trapézio e dali alcançou o telhado da bodega.
Sansão
triplicou o MIAU e fez o trajeto de Dalila.
Ficaram
miando e quebrando telhas até o sol nascer. Na rua, população desperta, quem
comia solta era a resenha do episódio.
A missa
dominical enche a capela. Terminada a missa, a galera jovem se cumprimenta:
E
aí, gato, tudo bem?
Beleza,
gata!
Pense
num povo criativo. Já lhe chamaram de gata?
É
isso. Até outro dia.
Miau,
gata.
Maio/15
TC.
Ou melhor, TG
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