E AÍ?
Olá, nobreza,
Vou colar três trechinhos de Toinho, seu Danado,
romance que será publicado SÓ DEUS SABE QUANDO. O primeiro é um desabafo de furiosa
leitora. Os outros são fragmentos do que ela tacha de perversão. Leiam e julguem.
E aí?
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... deixei de postar em razão de um comentário de
certa leitora. Declarou ela que eu financiava a desagregação familiar, promovia
a indecência sexual, bancava a poligamia. Disse ainda que dava graças por não conhecer
tão desprezível verme. Terminou afirmando que meus escritos eram puros
excrementos e que fediam tal qual a lombriga da traição. Pior viria na
assinatura. Escreveu ela: até nunca mais, seu pervertido tarado. Num acesso de fúria,
explodi o blogue e fui beber cachaça. Isso aconteceu num domingo. Até hoje tenho
o costume de me embriagar no último domingo do mês.
Recebi a maior aprovação que um autor pode receber. Só
que a fúria me impediu de entender o louvor. Passados alguns dias, fiquei certo
de que as crônicas arranhavam o espírito da leitora e deixavam-na inquieta. Ela
lia e ficava remoendo as palavras. Precisamente o que autor espera de leitor.
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... a terrível suspeita foi me invadindo, mas sob
controle durante as ações preliminares. Por fim, o bicho subiu feito um
foguete. Subiu, tentou se estabilizar, deu uma sacudida e passou uns cinco segundos
descendo. Em seguida aprumou-se. Aprumou-se, mas ficou balançando, na maior
oscilação. Nossa, Mirainha, era só o que eu sabia falar.
- Tenha calma. Relaxe. Isso é normal. Vai passar,
homem. É a primeira vez que fica assim, seu danado?
Não tive coragem de fitá-la. Simplesmente balancei o
sim. Sentia um nó na garganta, estava impotente pra tudo. Não suportava tamanha
turbulência. Morria de vergonha de Mirainha. Até que ás lágrimas me murcharam
de vez. Voltara a ser criança. Tão criança, que Mirainha julgou necessário
aninhar-me nos peitos, ficar massageando-me o cabelo lourinho e repetir o
“tenha calma, vai passar”. Mas não havia massagem que fizesse minha moral
sorrir.
“Amarelasse legal, Toinho”, brincou mais tarde a
Mirainha.
Foi no aconchego mamário daquelas asas que fui indo,
fui indo e terminei pegando uma madorna.
O destrave do trem de pouso pôs-me em alerta. A
aeronave voava baixinho. Estávamos chegando a Cristal, o pressentimento estava
indo embora. Nunca tive tanto medo de morrer.
O avião aterrissou, descemos. Pedi desculpa a Mirainha
pelo contratempo e implorei compreensão a fim de que ela guardasse segredo de
tudo. Já imaginaram se os colegas soubessem que, com medo de o avião cair, eu
havia chorado nos peitos dela?
- Essa foi a última vez que viajei de avião, Mirainha.
- Nossa, Toinho. Pois adorei a tua fobia. Não existe
nada mais lindo para uma mulher do que ver um homem chorar nos seios dela. Teus
uis e ais deixaram-me encharcada do mais primitivo prazer e lembraram-me antiga
promessa: ser aviadora.
Achas, seu danado, que serei capaz de fazer subir um
avião?
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... bom, para resumir a
história, caro Toinho, estamos no apartamento dela, horizontalmente febris,
salivas misturadas, ofegando na mesma passada, equipamentos testados e
aprovados, aguardando tão somente a sirene do Ovídio para explodirmos, e eis
que a poetisa se levanta e começa a declamar, não sem antes dizer que os versos
seriam dela:
“Um delírio divino, uma dança sagrada, conduzida num fluir tranquilo e
suave, uma ondulação interminável através do qual os corpos fazem apenas o que
deve ser feito um para ou outro, levando-os
além da fronteira do êxtase na
direção do plano sutil da multifacetada experiência mística.”
Pulei da cama, Toinho. A esperada explosão
surgiu em forma de desaforo. Fiquei vestindo a calça, tirando o terno da
civilidade e lavando a roupa suja:
- Sabe de uma coisa, D. Ovídia, pegue
o seu enviesado através, cubra a multifacetada de sua multifaceta, fique se
multifacetando sozinha, pois o Ovídio vai embora.
E fui. Com dois minutos estava arrependido, é
certo, mas...
Implico demais com o infeliz do através e com a droga da multifacetada. Ô duas palavrinhas
chatas. Tenho de me livrar dessa besteira, amigo. Outra coisa. Esse poema é do
Platão, Toinho. Aí chega a poeta, apropria-se da obra e ainda joga os palavrões
na boca do cara. Platão jamais pronunciaria as duas indecências, seu danado.
Junho/15
TC
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