NA CADEIRA DA DENTISTA
Atenta
e meiga. Além de linda. Ela tem o poder de me transformar. De destemido em
receoso, de prosador em introvertido. Não me deixa falar, verdade seja dita. Mas
adora a minha boca. E eu adoro a dela. Adoro é pouco. Amo tudo dela. E ela tudo
de mim. Somos casados. Eu com ela e ela comigo, que fique claro.
Como
fez especialização na Alemanha, e para me humilhar, é normal a Dra. Tânia me
receber assim:
“Hallo
herr Silva!”. E completa, com o olhar castanho vermelho de ironia: “Wie geht es
dir?”.
Saúda
e começa o ritual: dispensa a auxiliar, pede que eu me deite na horrorosa
cadeira, prende meus braços com fita adesiva, beija-me na boca, tranca o
consultório e dar início a escavação dentária.
O
cerimonial nos excita, confesso. Sempre termina ela tirando a brancura da bata e
vestindo a baita candura.
Tânia
sabe que tenho medo de dentista. Sou policial, estou acostumado com barulhos de
bala, mas morro de medo dos barulhinhos de dentistas. Naquele dia, acabávamos
de almoçar, Tânia não mais consentiu a protelação. Faz sete meses, amor. Seus
dentes estão reclamando uma limpeza. Marquei para as três horas, viu?
Cheguei
na hora. A atendente, a Gilvanete, brincou:
-
Pode entrar. Hoje é dia, hein! Fazer o quê?
Falou
e sorriu, o olhar na maior mangoça. Achei até que a zombaria não provinha
apenas de meu jeitão de preocupado. Estirei a língua pra ela e entrei.
A doutora me cumprimentou em
português. Em português, mas o castanho e o vermelho presentes:
-
Olá, Sr. Silva. Como está? Deite-se, por favor. Abra a boca, por gentileza.
Receoso
e taciturno, rasgo a boca, fecho os olhos, acendo as narinas. E escancaro a
libido. A mangação chegou na gargalhada dela. Decorridos vinte minutos, a luz
lá em cima guiando-lhe os instrumentos na minha boca, ela diz:
-
Esse paciente ama a sua dentista?
Meus
olhos disseram sim. Também o disseram as mãos tamborilando na cadeira.
Estranhava, porém, Tânia ter me
cumprimentado em português, ter deixado livre as minhas mãos, preferido não me
beijar e esquecido de fechar a porta. Ela desprezara parte da cerimônia. Mas permanecia
a pressa em se desfazer da bata. Desfazia-se e fazia-se luxuriosa. Levantou-me
com um beijo e foi fechar a porta.
Não
fechou: um marginal a empurrou com uma pistola 380.
Abstenho-me
de transcrever
os palavrões do menino – 16 pra 17 anos. Certo é que ficamos
deitados no chão enquanto ele vasculhava gavetas e arrancava as tomadas do notebook
de Tânia. Como não conseguia abrir a bolsa dela, pôs a pistola ao lado a fim de
facilitar a tarefa. Facilitou a minha: agora uma ponto 40 mirava-lhe a testa.
Não
vou repetir as minhas palavras. Verdade é que a cara de assombro do cara era
assombrosa. Como imaginar alguém com uma ponto 40 numa cadeira de dentista? Mas
quem disse que o espichado numa cadeira de dentista está seguro? O assaltante diz:
Amordacei-o e o estendi na cadeira. Prendia-o e bolava a maneira de segurar o sócio,
já que certamente um parceiro estaria na antessala assaltando os pacientes.
Dei
uma brechadinha na porta e lá está o cúmplice, sentado, mexendo no celular, um
revólver entre as pernas, Gilvanete e quatro pacientes de rosto pro chão. Não
tive trabalho em trazê-lo para o consultório e amarrá-lo, a exemplo do companheiro.
Pedi
que Tânia saísse, vesti a bata dela e passei a separar os instrumentos de trabalho:
pinça, sonda, fórceps, brocas, cortantes, aplicador de cimentos. Separava e
fazia questão que os dois pacientes vissem. Estava me apropriando dos métodos
de Tânia, já que, aqui, acolá ela me amedrontava daquela maneira: broca, amor. Fórceps,
querido. Ela não ia usar nada daquilo, mas se entretinha com o dissimulado
pavor. Agora eu me comprazia com o terror da dupla:
“Primeiro
você. Tem a boca muito suja, meu jovem”, anunciei, dirigindo-me ao assaltante
estirado na cadeira, tirando-lhe o adesivo da boca.
“Quero
meus direitos”, gaguejou ele.
-
É claro. Todos têm direito à assistência odontológica. Abra bem a boca.
Não
abriu. Abriu outra coisa.
Retrocedi,
engulhando.
Haverá
de nascer a criatura para aguentar semelhante fedor.
Julho/15
TC
2 comentários:
Gran trabajo para publicar un artículo tan bonito. Su artículo no solo es útil sino que además es realmente informativo. Gracias porque has estado dispuesto a compartir información con nosotros. Dentistas en Juriquilla
Olá, amigo,
Obrigado pela leitura. Deixou-me sorridente. Ainda bem que os dentes estão limpos. Bom fim de semana.
Tião Carneiro
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