Sugiro, antes, a leitura do post anterior, MINHAS IMPLICÂNCIAS.
A CULPA É DO DOCE-DE-LEITE
Você já deve
ter sentido no lombo as chicotadas oriundas da desorganização pelo qual está
passando o nosso país. Acordamos na decadência e vamos dormir no descalabro.
Desorganização, decadência e descalabro, sim! Esses três dezinhos não convivem
conosco por acaso. São descendentes de outro demoníaco “d”. O “d” de
doce-de-leite. O doce-de-leite – grafado assim mesmo, com iniciais minúsculas e
todo pegadinho, pra ficar mais feio e, a partir deste ponto, chamado de o Tal –
mexeu com tudo e com todos da cena brasileira. Sabem como teve início a nossa
ruína?
Foi assim, ó!
Em janeiro de 2003,
numa tarde de domingo, no sertão de Pernambuco, uma jovem muito bonita botou
uma panela de leite no fogo. Botou, foi namorar e acabou esquecendo a bichinha.
Na volta, desorientada, em vez de sal, tacou açúcar no pastoso em que o leite
havia se transformado. Tacho devidamente frio, os admiradores da namoradeira
provaram a guloseima.
“Que coisa
boa! Excelente! Sensacional! Belíssima idéia, Cacilda.”
Conclusão:
gostosa que só ela, Cacilda, não a pasta de leite, todos procuravam agradá-la. Cacilda!,
a exclamação, surgiu naquela tarde, dos puxa-sacos de Cacilda.
Pois bem. Passados
dois dias, Bião, sentado num banquinho, debaixo duma barraquinha, tirava leite
de Helena,
a mais charmosa e valente das vacas de seu Mião. No meio da ordenha,
todo enfatiotado para mais uma viagem de exibição num rodeio internacional,
chega o touro Luluca. Acaciano, deslumbrado, fofoqueiro e desafeto de Helena,
foi logo mugindo:
- E aí, camarada
Helena! Tudo bem? Sabes da maior?
- Tudo mais ou
menos. Não sei da menor, muito menos da maior. Vieste fofocar? Desembucha logo
o que tens em mente, Luluca.
- Sabes o que
estão a fazer com teu delicioso leite?
- Manteiga ou
queijo, naturalmente. Que pergunta mais idiota, Luluca.
- Nada disso,
companheira, digo, camarada Helena. Estão fazendo doce!
- O quê??!!
Doce!!?? Não é possível! Doce de... do... meu...
Sucedeu,
amigos, que Helena ficou tão irada que tossiu, chorou, chutou o pau da
barraquinha e deu uma patada na balde do leite. Nasciam naquele momento as
popularíssimas expressões: “nem que a vaca tussa”, “chorar o leite derramado”,
“chutou o balde” e “chutou o pau da barraca”.
Gozador,
Luluca ainda alfinetou: “É, camarada Helena, estou convencido de que a senhora
está sendo avacalhada.”
Helena
abalou-se tanto com aquela notícia que até hoje vive deprimida. Aliás, a
depressão, antes uma perturbação da alma, em face de tão nefasto evento,
transformou-se num mal da carne. O maior índice de indivíduos desesperançados
encontra-se nos apreciadores do Tal. Dizem até que quem com o Tal se delicia,
mais dias, menos dias, ficará mentalmente desiludido. Eu, por vias das
dúvidas...
Verdade,
colegas, é que a partir daquele domingo de 2003, com a criação da Cacilda, a
desordem tomava conta desta nação. Estava aberta a dinastia dos “dês”. Desonestidade,
desdém, desrespeito, desconsideração, desobediência... Bom, deu no que deu.
Hoje ninguém respeita nada, meus camaradas. A sociedade contaminou-se com o
vírus do Tal.
Também pudera.
O Tal da tal Cacilda estava quebrando a ordem natural das coisas. Jogava pro
espaço o que considerávamos essência, inerente, intrínseco, honesto, ético. Pensem
bem! Doce é essência e próprio de certas frutas, não de leite. De leite se faz queijo, coalhada, manteiga. O Tal estava destravando as portas para o acesso da anarquia e mancomunando-se com a artificialidade. As
pessoas já podiam fazer o que bem entendessem, tinham liberdade para falar o
que lhes dessem na telha e as regras da decência quedavam-se mortas. Enfim, os
limites sumiram.
Na culinária,
inventaram todo o tipo de bijungaria. Doce disso, doce daquilo, bolo daquilo,
bolo disso. Um dia desses, as meninas de minha sala me perguntaram se eu não
queria provar do bolo de banana que uma delas havia comprado. Bolo de banana,
bolo de maracujá, bolo de laranja, pizza de carne-de-sol. E sorvete de tapioca?
Quem já viu! É o fim do mundo, pessoal. Mas a Cacilda não inventou o Tal?
E no esporte?
Barrichello se arvora de automobilista, e Dunga pousa de treinador de futebol.
“Não fizeram de leite, o doce, por que não posso fazer-me treinador?”, disse
Dunga, na TV. Um desportista daqui usou o mesmo argumento para dizer que o
América era um time de futebol. Daí vocês vêem o malefício do Tal.
A linguagem é
outra vítima do Tal. Antes do Tal, a semântica era imponente. Ficar era permanecer
num lugar. Hoje é transar. Acontecer era ocorrer de repente. Aconteceu um
acidente. O que aconteceu? Hoje, até as pessoas acontecem?
Estrago mesmo
o Tal fez foi na política. Políticos há que vivem se corrompendo, juram que não
sabiam o que a torcida do Fluminense toda já conhecia e dizem, ironicamente,
que são parceiros das vacas. Usam-nas como justificativas para atos escusos. Princípios
partidários? Promessas? “Grande besteira”, dizem eles. Depois do Tal, liberou
geral, amigos.
Eu estava no
MPbar, domingo, pensando na força descomunal do precedente, quando a vizinha de
mesa pediu uma cerveja sem álcool, pode? Claro que existe. Não existe o Tal?
Então...?
Estou vendo a
hora algum demente meter os pés pelas mãos e cismar de escrever sobre as
deformações causadas pelo Tal. Depois da criação do doce-de-leite, parceiros,
as pessoas se julgam inocentes de tudo que causam de ruim, andam de nariz
empinado e se acham no direito, imaginem, de aborrecer os colegas com textos
amargos, insípidos, sem sentido.
Afinal, a
culpa é Dele. A responsabilidade é do Tal. Doce de Leite! Eu, hein!
De 2007 pra 2008
(o pen-drive apagou a data)
TC
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