Olá, meus nobres,
Permitam-me a ousadia de postar um
texto diferente. Trata-se de algo íntimo, dos cem anos de meu pai.
PALMAS
PRO SENHOR, PAI
Qual é a receita para chegar a sua
idade, Seu Euclides? Tem algum segredo? Benza Deus!
Nos últimos anos, tem sido frequente
tal pergunta na vida de pai. Ele dá como resposta apenas um risinho. Mas se a
conversa prosseguir, faz uma revelação acerca da crescida idade. Que revelação
é essa? Direi no final deste textinho, embora não seja novidade para boa parte
dos presentes.
Mas para quem acompanha a vida de
pai, o risinho da resposta esconde princípios de condutas. O primeiro reside na
saudação. Como vai você, fulano. É dessa forma que pai costuma devolver um
cumprimento. E qual é o som mais cativante aos nossos ouvidos, senão o do
próprio nome? Com a benfazeja cortesia, pai já seduz o interlocutor e pavimenta
o caminho da boa conversa.
É difícil se segurar e não falar
certas coisas, até porque comunicar é preciso. Mas quem disse que é fácil se
conter e ouvir calado?
Não é
fácil, realmente. Mas pai habituou-se a ouvir antes de se pronunciar. Não
interrompe ninguém. Assim, ele filtra a informação, reduz os mal-entendidos, elimina
o estresse, eleva as defesas orgânicas e aumenta a sensação de paz. Tradução:
saúde. Quantos anos a mais? Não sei. Dez dos cem?
Pai
utiliza outras atitudes mentais no sentido de angariar saúde, mas para não me
tornar enfadonho, peço-lhes licença a fim de enumerar apenas uma, com a
seguinte historinha como ilustração:
Pai
tomava conta de um sítio em Vila de Fátima. Seu João era o dono do sítio. Certo
dia, uma senhora passava com uma bacia de roupa e pediu uma jaca a Seu João. O
chão da jaqueira estava repleto de jacas. Umas emprestáveis, outras mais ou
menos, algumas melhores. Seu João andou dum lado pro outro, avaliou os frutos e
deu a melhor jaca à mulher.
Pai não esquece o nobre gesto de
Seu João, e chama-se sensibilidade o fato de ele não o ter esquecido. A pessoa sensível
não esquece essas coisas, gente. Daí, por ter sensibilidade, é incapaz de fazer
com o semelhante o que não quer que o semelhante faça com ela. Assim se
comportando, pai peneira o bem-querer, extingue o possível remorso, fortalece o
organismo e alarga a percepção de paz. Tradução: saúde. Quantos anos a mais?
Não sei. Dez dos cem?
Esses costumes mentais não tornam pai
melhor do que ninguém, menos ainda imortal. Oferece, porém, uma escolha
comportamental digna de experimentação. Optar por ela são outros quinhentos.
Afinal, viver é escolher. Pergunte-se e responda se vale a pena. Mas lembre-se
de que a vida é presepeira. Quando imaginamos que temos as respostas, ela dá
uma gargalhada e muda as perguntas.
Bom, a revelação de pai sobre a
idade. Trata-se do médico dele, pessoal. Meu médico vem de longe e não cobra
nada, costuma dizer pai. E acrescenta, dando força na última palavra. Meu médico
vem de Nazaré.
Falar nisso, pai, estou vendo seu
médico ali no portão. Acaba de chegar. Carrega uma coroa na cabeça com a
inscrição Euclides Centenário. Caramba! Vem de braços com uma mulher. É mãe,
pai. É mãe! D. Minervina. Vem ele e mãe. Olha só! Mãe está mandando o senhor
ajeitar o boné. Ajeite esse boné, Euclides. Ô hômi ajé! Ela falou e começou a
rir, pai. O médico também.
Estão beijando todo o mundo. Estão
vindo pra cá.
Agora estão batendo palmas pro
senhor, pai.
Palmas pro senhor, pai.
29 de agosto de 2015, nos cem anos
de pai,
Tião Carneiro
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