MINHAS IMPLICÂNCIAS
Colecionar
anos traz muita vantagem. Além da óbvia, por óbvio. Traz algumas desvantagens,
também por óbvio. Mas... Fazer o quê? Dou-me como exemplo. Nas vantagens, né, pessoal!
Implicante e ranzinza: era assim até me aposentar e de me dá conta de que me tornara
colecionador. Ficava birrento com a Mônica, minha chefe, na reunião de começo
do ano. Ela mirava a gente e soltava:
“Este
ano não vamos colocar metas. Vamos deixar a meta aberta. Mas quando atingirmos
a meta, vamos dobrar a meta”.
Terminada
a reunião, um colega, cabeção porreta, sempre desabafava:
“Que
meta é essa!”
Mas
nunca deixamos de atingir a meta. Em todos os anus a meta nova era coberta com
novas metas.
Agora,
aguador do tempo e livre do estresse metal, sou tão somente implicante. Mas implicância
acriançada, cujo remédio está a oito metros de mim. Minha implicância é com os
informativos on-line. A maioria faz da língua portuguesa gato e sapato na casa
da mãe joana. O que tem de frase falsa, semântica manca e gramática apática não
constam no gibi de seu ninguém.
Vejam
o que acabo de ler na Tribuna do Norte, às 23 e 23 de hoje, 4 do 8 do 15: “Delator
diz que pagou R$ 532 mil para o PT de propina de Belo Monte”. Confuso, não? PT
de propina? Fica parecendo ser o PT um Pacotão Titânico, colossal, feito de material
radioativo de nome propina e extraído dum Belo Monte. Bastava unir “de propina”
ao PT para a confusão se desfazer: “... Pagou 532 mil de propina para o PT de
...” Simples, assim.
Outro
negocinho que me deixa irritado é o emprego da palavra “jovem”. Dois carinhas
botam o revólver na cabeça de alguém
, levam tudo do infeliz, então o redator
escreve: dois jovens assaltaram... (às vezes escrevem assaltou). Se a polícia
os prenderem – o que é raríssimo –, o repórter emenda: os suspeitos foram... Noutras
vezes, os caras trocam tiros com os policiais, e o jornalista escreve: os
supostos assaltantes trocaram... Isso quando não usam “teriam trocado”.
Jovens,
suspeitos, supostos, teriam um cacete. Bandidos, isso sim. Os assaltantes podem
ser jovens, sei disso. Mas... Porra!
Certo
é que avacalharam a língua. O prazer de manuseá-la e a gostosa e recíproca
sensação do bem servir foram para o beleléu. A semântica brasileira é estuprada
minuto a minuto, gente. O topless da última flor do Lácio mostra pelanca pura. Propina
é entendida como algo pró Pina, a nobre praia do Recife. Corrupção é vista como
ingênua corruptela de corrupião, a bela ave, o nosso imponente concriz. Exemplos
não faltam. Daí que passo o tempo implicando com essas coisas.
Agora,
não é pra me gabar não, mas cantei essa pedra faz um tempão, quando escrevi um
texto sobre a criação do doce de leite. Começou dele, do doce de leite, o
descalabro brasileiro. Doce de Leite é o título do texto. Para que não digam
que estou mentindo, vou até publicá-lo abaixo desta postagem. Mas, entendam, por
causa do tempo, certos fatos podem parecer desfocados.
Implico
igualmente com certas notícias. Sabem o que o UOL publicou hoje, 4 do 8 do 15?
Vejam. Um vereador de Campinas-SP protocolou o projeto de lei nº 229/2015, cujo
objetivo é lembrar o 8 do 7, como o dia em que o Brasil levou a chapoletada de
7 a 1 da Alemanha. O projeto do edil (edil é bom) diz que doravante (também
bom) o oito de julho será conhecido como o dia do “É gol da Alemanha”. Sacanagem
não, pessoal. Vá ao Google, então? O nome do nobre edil do PSB é Jota Silva.
Bom,
não aguentei a pressão dos 7 a 1, desliguei o computador, apanhei um celular de
barzinho e fui tomar o remédio para a implicância, a oito metros de minha casa:
a cervejinha da Vanessa e o papo com o cambista do jogo do bicho, Seu Antônio.
Duas cervejas e dois dedos de prosa com a galera do bicho são suficientes para transformar
implicância em encanto. Mas hoje eu ia me ferrando.
O
Pedrão, meio bicado, chegou e foi logo me perguntando:
-
Diga aí, Bastião. Sonhei contigo. Qual é o bicho que dá?
-
Ah, amigo velho. Quem sonha comigo é viado, Pedrão.
O
bicho pegou. Certamente achando que eu o estava chamando de viado, o Pedrão
aboticou os olhos, deu uma coçadinha na cintura, a fim de checar a peixeira, e
foi se achegando. Nisso apareceu a vantagem do colecionador de anos:
-
Já ganhei não sei quantas vezes, Pedrão. Sonhando comigo dá viado na cabeça. É
batata. Pode jogar sem medo. Se não der viado, eu devolvo o dinheiro. Bote pra
mim, Seu Antônio, cinquenta reais no viado.
É
evidente que tudo terminou em paz.
Tomei
mais algumas cervejas, mandei a Vanessa passar a régua na conta, recebi o troco
– dez reais -, despedi-me de Seu Antônio e...
Não
cheguei a me levantar: uma moto riscou na calçada, e o carona já veio pra cima
de mim. De cara limpa e se caqueando. Não contei conversa:
-
Tomem, meus jovens. Só tenho esses dez. Se tivessem chegado mais cedo...
Falei,
entreguei o troco e o celular de barzinho. O da frente ainda zombou:
-
O bicho vai ser burro, coroa.
Não
deu burro. Deu viado. Mas deu a semântica correta: “coroa”.
Agosto/15
TC
Obs.
O doce de leite está aqui embaixo, www.pocilgadeouro.com. Experimentem.
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