O
Pocilga tá de sacanagem comigo. Aqui, acolá ele exclui uma postagem sem eu
mandar. Esta da sobrancelha, por exemplo. Postei-a no 11 do 11. Vou postar de
novo e ficar de olho na sobrancelha. Agora, o texto de baixo, o AP39, é mais
cheiroso. Vá por mim!
A SOBRANCELHA DIREITA
Arriamos as bicicletas.
Mal livrou-se do capacete, a trêmula
Fatinha foi logo me beijando:
- Caramba, amor. Que fino o idiota
tirou em você. Numa ciclovia, Fernando! Como é que um país deste pode ir pra
frente se simples norma de trânsito não é respeitada?
- O de sempre?
Consultei a Fatinha. Ela apenas
balançou o sim de cabeça, pois algo no celular exigia-lhe concentração.
- O de sempre, Eduardo.
Eduardo logo nos atendeu. Começamos
a tomar os de sempre. O meu, suco de caju. O de Fatinha, suco de acerola. Eu pensava
no invasor da ciclovia. Tinha o olhar distante. Ela, pertinho. O olhar e o dedo indicador.
Ambos colavam no celular. Dei uma chupada no canudo:
- Suquinho sem gosto, este, viu?
Fatinha olhou pra mim e voltou a escorregar
o dedo no celular. Não disse duas nem três. Passados uns três minutos, sugeriu:
- Ué! Peça outro, tchê? O meu está
ótimo.
Diz a Fatinha que arqueei a
sobrancelhinha direita. Agora, que demorei um pouquinho para comentar, ah, isso
foi:
- Sorte a sua, querida.
Novas dedadas, novo silêncio, velhos
minutos:
- E azar o seu, meu querido.
Detesto seus arqueadinhos de sobrancelhas, Fernando. Ainda mais a nojenta da direita
e, por cima, olhando-me de lado. Pura mangoça. Querida? Bah!
Eu devia ter sacado que a Fatinha trocara
o momento mental de ternura pelo de frustração. E a causa era a leitura no
celular. Seu “ótimo” do suco já saiu péssimo. Sinalizava intriga. E ué, tchê,
bah? Vige, parecia até que a Fatinha não estava em Natal.
A verdade é que
me faltou
discernimento - e sobrou insensatez - na sentença “sorte a sua, querida”. Outra
verdade: a Fatinha estava enxergando pouco. Ou enxergando muito. Ou não queria
enxergar. Se estávamos frente a frente, como diabos a sobrancelha direita
estava olhando a Fatinha de lado? Que loucura. Fiquei na minha e fiz de tudo
para que a sobrancelha direita ficasse na dela, pois dizem que é involuntário o
gesto de franzir as sobrancelhas.
A Fatinha terminou o suco e puxou
conversa, embora evitasse me olhar. Estava com a trezembina, como dizem no meu
interior. Falou trincando os dentes.
- Você é muito é do conservador, Fernando.
- Eu? Se praticamente não falei
nada, Fatinha?
- Con-ser-va-dor, Fernando. Falei
conservador e não conversador, entendeu?
- Entendi. Entendi, Fatinha.
- E aí?
- Como assim e aí?
- É ou não é conservador?
- Sou. É claro que sou, Fatinha.
Assumo.
- Deixe de ser irônico, rapaz. Odeio
ironia, você sabe disso, Fernando. Quer uma prova de seu conservadorismo? Entra
ano e sai ano e você só toma esse suco velho e amarelado de caju. Nunca sequer
provou o moderno e avermelhado de acerola.
Nessas alturas, e vendo o fogaréu
nas ventas da encrenqueira Fatinha, o incendiário Eduardo colocou-se... Eduardo
é ex-cunhado da Fatinha. Conhece-a razoavelmente bem. Bom, o incendiário
colocou-se fora da visão da Fatinha, comprimiu os dedos da mão esquerda,
formando um circulito, e se pôs a bater nele com a mão direita espalmada. Expresso
em palavras, ele dizia que eu estava fodido. Batia e ria, o safado.
Não aguentei e caí na risada. Como
o suco de caju estava sem gosto, achei de fazer uma média com a Fatinha.
Pediria um de acerola:
- Faz um suco de acerola pra mim,
Eduardo.
Não gosto de suco de acerola, é vero.
Então, para enganá-lo, pedi:
- E faz um sanduíche desse seu
enlatado.
- O enlatado acabou, Fernando.
Perdeu a validade.
- Então traz uma coxinha.
Nisso a Fatinha perdeu a compostura:
- Tá rindo de quê? Vai te foder,
Fernando.
Falou e saiu estirando o dedão pelas
costas. Gesto reprovadíssimo para uma educadora.
- Fatinha, espere. E a sua
bicicleta? Não posso sair pedalando as duas.
Então a Fatinha renunciou de vez à
civilidade:
- Vai tomar no cu, cara.
Tempos nervosos de novembro/15,
TC
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