Leitura da mão
Oi, gente,
Vou postar
a prosa dominical de François. Porreta, como de costume. Só que Bião entende...
Bião, vocês conhecem, não? O azoreta que vive mexendo nos escritos alheios. Já mexeu
com Machado, Veríssimo, Sabino. Agora cismou com François. Segundo ele, o
episódio da Leitura da mão não terminou como narrado. François teria encurtado o
texto em virtude da publicação no Novo Jornal. Aconselhei-o a não se meter com
o cara, mas o peste do Bião não deu bola.
Bom, leiam
a prosa de François. Em seguida vejam a versão do Bião.
Boa leitura.
Ao menos da primeira, né, gente?
Na Coluna Plural do Novo Jornal.
Leitura
da mão.
(Para
Naide Rosado e Carlos Santos)
Tudo
começou na feira do Patu. E estendeu-se para as outras feiras, numa romaria
desassossegada. E tensa. Intensa. Assim foi a paixão de Samuel.
Os
ciganos chegavam às cidades e procuravam as fazendas mais conhecidas para pedir
arrancho. O Cangaíra, de Messias Targino. O Manuê, de Antônio Suassuna. O Açude
Novo, de Chagas. Os Cajuais, de Quinquim Gomes. A Bola, de Silvestre Veras. A
Jurema, de Pedro Regalado. Lages, de Oliveira Rocha. Os Campos, de Zenon de
Souza. Timbaúba, de Osório Fernandes. A Lagoa, de Manoel Onofre.
E
muitas outras. Os bandos liderados por um chefe conversador e convincente,
geralmente deixavam marcas de suas paragens não muito recomendáveis. Zé Garcia
era o mais famoso deles.
Mesmo
assim, sempre conseguiam autorização para novas pousadas. Ninguém sabia a razão
dessa leniência dos fazendeiros. Ou se alguém sabia, fazia-se ao desentendido.
A
verdade de mesmo, motivadora dessa relação, onde as fazendas quase sempre
sofriam prejuízos, não era outra senão a quantidade de ciganas jovens e
bonitas. Belas e acessíveis.
“Num
sei o que é que fulano tem com esses ciganos. No inverno do ano passado, eles
roubaram três burros de carga e venderam armas com defeitos. E ele ainda
hospeda essa gente”. Dizia a mulher de um desses fazendeiros.
Ocorre
que não era para os ciganos e sim para as ciganas que o marido dela dava
arrancho. Os prejuízos faziam parte da artimanha.
Os
cabarés, das cidades pequenas, assustavam os fazendeiros. Não por doenças ou
custos, mas por medo da falação. O bando arranchado de ciganos era uma mão na
roda.
Foi
num dia de feira, em Patu, que Samuel conheceu Honoralina, filha de Coralina
com o cigano Honorato. Paixão que desceu feito balão incendiado. Quentura sem
rumo.
Aproximou-se
e pediu leitura da mão. Ao toque com os dedos suaves da jovem cigana, Samuel
nem ouviu as previsões. A vista embaçada e o corpo trêmulo. Quando a cigana
fechou a mão, o ganjão Samuel pediu quase chorando: “Leia mais”.
Na
emoção, deixou de ouvir as previsões sombrias. E não deixou mais de seguir o
grupo de Honorato, dissidente do grupo maior de Zé Garcia. Os dois brigaram e o
grupo dividiu-se.
Estivesse
Honorato em Umarizal, lá estaria Samuel. Sempre de mão mendiga a pedir leitura
de Honoralina. Em Caraúbas, Pau dos Ferros, Apodi, Brejo do Cruz.
Por
não ouvir as previsões de Honoralina, dada a emoção que dominava o corpo,
fechando os ouvidos, Samuel não tomou as precauções que a cigana sugeria. “Uma
desgraça lhe segue as veredas, ganjão. Desgraça de sangue de faca. Não fique na
feira da chapada”.
Naquele
Sábado, a discussão no bar de Apodi e três facadas no bucho. Tripas expostas,
Samuel agoniza. A dona do boteco aproxima-se. Ele diz a última palavra, com a
mão aberta: “Leia”. Té mais.
Não
foi a última palavra, segundo Bião. Samuel respirava, sim.
Ocorre
que a dona do boteco, D. Socorro, tinha conhecimento hospitalar. Daí ter preparado
um soro caseiro, asseada as tripas de Samuel e as acomodadas nos respectivos ambientes.
A ambulância demorou, é certo, mas providencial vaquinha pro combustível fê-la (epa!)
sair cantando o melancólico sai da frente.
Samuel
passou 3 dias entre a vida e a morte, café pequeno para quem tinha passado
10950 entre a morte e a vida - Samuel estava completando 30 anos no dia das
facadas, sabia, François?
Foram
em vão as súplicas de Honoralina para que o pai a permitisse visitar o gajô. Nonô
era a carrancuda resposta. Até que com uma semana de hospital, Honorato soube
que Samuel era filho único de ancião fazendeiro:
- Já que você insiste, vá, Honoralina. Vá e
seja amorosa com ele, viu?
“Como
vai, ganjão?”, indagou Honoralina, arrepiando-se de cima a baixo ao ver o
tronco nu
do paciente. Honoralina costumava se
perguntar para que servia peito de homem. Agora tinha a resposta,
porquanto os peludos de
Samuel estavam servindo para arrepiar as suas penugens. Arrepiamenta
paixão que desceu feito balão
incendiado. Quentura com rumo certo.
Samuel não respondeu. A resposta veio no olhar e no gesto
de segurar as mãos de Honoralina. Segurou e pediu: “Deixe-me ler as suas mãos”.
Honoralina
deu o sim de cabeça e
tornou a se arrepiar. Nem ouviu as amorosas previsões. A
vista embaçada e o corpo trêmulo. Quando os quinze minutos da visita esgotaram,
Samuel falou quase chorando: “Quero ler mais”.
Mas
só leu na visita
seguinte, e na seguinte, e na seguinte. Por não ouvir as previsões de Samuel,
dada a emoção que dominava o corpo, fechando os ouvidos, Honoralina não se
preveniu para o que Samuel lhe falava. “Uma bem-aventurança lhe segue as
veredas, Honoralina. Bem-aventurança de amor de homem. Vá à feira da chapada”.
Naquele
sábado, a confissão defronte da barraca de Silvestre e três beijos na bochecha.
Coração exposto, Samuel sobe num tamborete e grita: “Cigano Honorato, amo a sua
filha Honoralina. Estou lhe pedindo a mão dela em casamento. Quer casar comigo,
amor”?
O
sorriso de Honoralina a faz desmaiar. Mas deu tempo de todos
ouvirem as primeiras
palavras de aceitação: “Quero, ganjão. Quero ser lida o dia todo e todo o dia”.
Té
mais.
Dezembro/15
TC
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