Senhor
Toinho:
O
senhor ficcionou as nossas intimidades. Tem vergonha, não, moço? Soube da
sacanagem por intermédio de minha irmã. Disse ela:
“Sabe,
Ki, o cabra de peia do Toinho transformou em romance barato a nossa aventura na
praia. Acabei de ler o peste. Comprei o ebuque no Amazon”, avisou-me a Ké.
Li
também a porcaria. Reles escrevente de vazios folhetins é o que o senhor é.
Não
esperava tamanha vilania de sua parte, senhor escrevente. Veja. Passamos trinta
dias juntos, intimidades anatômicas a recitarem Platão, aí chega o senhor e
joga esta pérola no ralo:
“Um
delírio divino, uma dança sagrada, conduzida num fluir tranquilo e suave, uma
ondulação interminável através do qual os corpos fazem apenas o que deve ser
feito um para ou outro, levando-os além da fronteira do êxtase na direção do
plano sutil da experiência mística.”
Esse
delírio divino, Sr. Toinho, é hoje um pesadelo satânico. Não apenas o delírio. Outros
sentimentos o senhor sujou com a linguagem chula, camuflada por paupérrimas
metáforas.
Precisava
escrever “enxurrada íntima e berro de cama”, Sr. Toinho? A verdade é que a sua
seborreia financia a
desagregação doméstica, promove a indecência sexual, propõe a poligamia.
Dê-lhe o meu melhor, Sr. Toinho, e o
senhor me deu o seu pior.
Meu consolo é que o excremento não será
lido. Contratei cinco catimbozeiros a fim de deixar fechada a sua apostilha
pornográfica. Ninguém o lerá, moço. Daí que fique conformado quando seu
computador travar, ou os imeios voltarem com delivery to the e a
expectativa de leituras cair por terra. A indiferença literária vai bater
palmas pro senhor. Aguarde!
Ah, antes que eu me esqueça. O moço do
prefácio também é safadinho, viu? Um tremendo “prefacista”.
Vá se ferrar, Seu Toinho!
O senhor é um bucéfalo.
RESPOSTAS
DO TOINHO
Senhor
Toinho:
O
senhor ficcionou as nossas intimidades. Tem vergonha, não, moço? Soube da
sacanagem por intermédio de minha irmã. Disse ela:
“Sabe,
Ki, o cabra de peia do Toinho transformou em romance barato a nossa aventura.
Acabei de ler o peste. Comprei o ebuque no Amazon”, avisou-me a Ké.
- Data vênia, mas é mentira da senhora. Todos
ali sabiam que
eu estava romanceando a nossa convivência e que iria publicá-lo.
Li
também a porcaria. Reles escrevente de vazios folhetins é o que o senhor é.
- Tem certeza de que leu? Muita gente
diz que leu livro tal, porém do tal passou longe. Como a senhora mentiu
antes... Com respeito ao “reles escrevente”, respeito a sua opinião, senhora.
Discordo do vazio. O best-seller está cheio de filosofia, humor, metáfora e
coisa e tal.
Não
esperava tamanha vilania de sua parte, senhor escrevente. Veja. Passamos trinta
dias juntos, intimidades anatômicas a recitarem Platão, aí chega o senhor e
joga esta pérola no ralo.:
“Um
delírio divino, uma dança sagrada, conduzida num fluir tranquilo e suave, uma
ondulação interminável através do qual os corpos fazem apenas o que deve ser
feito um para ou outro, levando-os além da fronteira do êxtase na direção do
plano sutil da experiência mística.”
- Não joguei o Platão no ralo, Sra.
Kílvia. Fui tão somente fiel aos fatos. Outra coisinha. A senhora trocou a
ordem das sílabas do ralo.
Esse
delírio divino, Sr. Toinho, é hoje um pesadelo satânico. Não apenas o delírio. Outros
sentimentos o senhor sujou com a linguagem chula, camuflada por paupérrimas
metáforas.
- Recita bem, Sra. Kílvia. E, pra ser
sincero, a senhora tem um quezinho satânico, viu? E não é pesada de pesadelo,
verdade seja dita. Desculpe-me se sujei algo. Sou desastrado, confesso.
Precisava
escrever “enxurrada íntima”, Sr. Toinho? A verdade é que a sua seborreia financia a desagregação doméstica,
promove a indecência sexual, propõe a poligamia.
- Precisava, sim. Faltou a senhora citar
outras expressões de seu linguajar libidinoso. Gosta muito de esguicho carnal e
berro de cama, lembra-se?
Dê-lhe o meu melhor, Sr. Toinho, e o
senhor me deu o seu pior.
- Data vênia de novo, senhora, mas o
último período é falacioso. Sempre lhe dei o meu melhor. À senhora e à sua
irmã, a Ké. Não seja injusta.
Meu consolo é que o excremento, o tal Toinho,
Seu Danado! não será lido. Contratei cinco catimbozeiros a fim de deixar
fechada a sua apostilha pornográfica. Ninguém o lerá, moço. Daí que fique
conformado quando seu computador travar, ou os imeios voltarem com delivery
to the, e a expectativa de leituras cair por terra. A indiferença
literária vai bater palmas pro senhor. Aguarde!
Ah, antes que eu me esqueça. O moço do
prefácio também é safadinho, viu? Um tremendo “prefacista”.
Vá se ferrar, Seu Toinho!
O senhor é um bucéfalo.
-
Vou chorar se ninguém me
ler! A senhora e a irmã terem me lido já está de bom tamanho. Reviveram as
emoções, não reviveram? A senhora é muito sonsa, sabia?
Ah, antes que eu me esqueça. Bucéfalo,
não, Sra. Kílvia.
Bucelário, sim. Escudeiro, sem dúvida.
A senhora sabe o que bucelário?
A senhora, sim, é uma grande bucéfala.
A gente se vê.
Beijos de
seu autor preferido,
Toinho
Silva
Obs. Adquira Toinho, Seu Danado!
(tcarneirosilva@gmail.com)
Março/16
TC
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