Boa
leitura.
OPERAÇÃO ALETHEIA - ORIGEM DO DIA INTERNACIONAL DA
MULHER (MULHER, ADJETIVO FEMININO PLURAL)
Podem me dar dois
dedinhos de atenção? Quero me congratular com as mulheres pelo festivo oito de
março, o Internacional Dia Delas. Mas, para o tributo ser autêntico, preciso a
elas revelar um velho segredo nosso. Peço-lhes vênia para falar a respeito do milenar
e mesquinho acordo instituído pelo companheiro Adão.
Serei tachado de traíra
pelo homem de vocês, minhas nobres, mas já passou do tempo de conhecerem a
verdade. Pouco me importam que me chamem de delator. Meu prêmio é a verdade. Daí
viver vasculhando as versões noticiosas. Aqui, acolá as pego de calças curtas.
Bom, sabiam que o Dia
Internacional da Mulher se originou de vergonhosa baixaria? A baixaria tem
nome: inveja. Inveja, eis a palavrinha símbolo do pacto milenar. Vejam:
O presidente de nossa
confraria, o Adão, convocou uma assembleia para discutir absurdo prenúncio de
independência organizado pelas mulheres. Após exaustiva avaliação de
conjuntura, Adão anunciou a safadeza:
- Sabem, colegas, tenho
como modelo a líder delas, a minha senhora, a Eva. A Eva é danada de
inteligente. Ontem, enquanto conversávamos, ela fazia a relação das compras,
divertia-se com as brincadeiras da sobrinha e encantava-se com o cabelo de uma
caminhante. Alguém aqui consegue fazer três coisas ao mesmo tempo? Ninguém,
companheiros. Dar cordas a pessoas desse tipo é pedir que das cordas elas se
apropriem e aprisionem o nosso braço-de-ferro.
O modo de vida da Eva é
distinto do nosso. A Eva sente as coisas, compromete-se, apaixona-se. Alguém
aqui age assim? Ninguém, companheiros. Devemos sentir inveja da Eva, pessoal.
Precisamos puni-la. Punição que sirva de exemplo às possíveis lideradas.
O plano é este. Na
próxima terça-feira, oito de março, internaremos a Eva no manicômio do Dr.
Frankenstein. A missão é sua, Enoque. Tome a ordem de coerção. Primeiro você a
convida a ir ao consultório. Caso ela se mostre uma jararaca raivosa, você apresenta
a carta coercitiva, ok? Já acertei tudo com o Fran. Só lhes peço, companheiros,
que a visitem pelo menos uma vez ao ano. Não se esqueçam de levar flores
vermelhas. A Eva adora flores. Terça-feira, cada homem terá de levar um buquê,
certo? Podem apanhá-lo na secretaria.
É isso, gente! Está
encerrada a assembleia. Amanhã, Matusalém, você prega a ata na portaria.
Viram a que ponto chegou
a inveja dos homens? Mas Eva passou longe do hospital. Aconteceu o seguinte,
minhas nobres:
Matusalém, com infeliz
ressaca, confiou a missão de fazer a ata ao companheiro Noé. Noé pegou o
rascunho de Matusalém e leu este garrancho: terça-feira, oito de março, dia
da internação da mulher de Adão. O desastrado Noé, igualmente ressacado,
passou o garrancho a limpo, prendeu a ata na portaria da associação e destacou
a principal deliberação dos associados: Terça-feira, oito de março, Dia
Internacional da Mulher de Adão.
Eva, grata a Noé pela
homenagem, chama as colegas para festejar o dia dela. Os homens também são
convidados, é lógico. Vão, putos da vida com Noé, mas vão. Por sugestão da
esposa de Noé, D. Noéma, conhecida por Noêmia, vão fazer a festança na casa de
praia da família (presente do Enoque, diga-se). Começam a tomar vinho (presente
do velho Baco, diga-se também), então, minhas nobres, vocês sabem o que é
bebida, não sabem? Lá pras tantas, todo mundo melado, D. Noêmia faz a cabeça do
marido, Noé, no sentido de que ele denomine aquela data como o dia de todas as
mulheres. Noé, à revelia de Adão, sobe num tamborete e proclama o Dia
Internacional da Mulher. Sem saída, Adão manda pegar as flores e dá um buquê a
cada mulher.
Vou aproveitar o contexto
e relatar profano episódio ocorrido na comemoração. A molecagem ocorre quando
chegam o Sem, o Cam (filhos do Noé), o Caim e a irmã gêmea, a Avan (filhos do
Adão), que também é mulher do Caim. Embriagados,
a Avan cisma de tomar banho de
mar e aproveita para conhecer a barca do Noé. A Avan volta e faz um comentário
a respeito da embarcação:
“Bacana a nau do Noé”,
Caim. Caim, que não era flor que se cheirasse, junta bacana com nau e convida a
turma para o bacanau do Noé. A festa termina na bacana nau. Na nau e nus.
Foi assim - da confusão
vocabular do Noé - que surgiu o Dia Internacional da Mulher.
Mas inadequações
vocabulares acontecem. Algumas resultam benéficas; outras, maléficas. Enquanto
da displicência do Noé adveio a alegria, da gramática nasceu a disfunção. É
clamoroso erro a gramática ter classificado “mulher” de substantivo, embora
substantivadas e substanciosas sejam. Mulher é adjetivo de primeira linhagem.
Adjetivo é algo acrescentador, modificador, qualificador. Carinhosa é
acrescentador de carinho, beleza é modificador de bela, elegância é
qualificador de atitude. E quem é carinhosa, bela e elegante?
Homem algum elogia as
mulheres com apenas um adjetivo. Usa, no mínimo, dois: bela e capaz, elegante e
competente, linda e sensual. Portanto, a mulher é uma criatura pluralizada.
Corrija-se a gramática. Mulher é adjetivo plural, sim.
Março/16
TC
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