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O LEILÃO DO EUGÊNIO
Não estava entendendo por que ainda
não havia feito a coisa certa. Dez anos de empresa, funcionário exemplar,
deveria, tão logo detectada a disfunção, tê-la levado ao conhecimento do
diretor da área. Mas algo lhe roubava a ação, como se disposto a jogar por
terra a sua integridade e a provar o dito de que a ocasião faz o ladrão.
Pensava assim, apreciava a chuvinha, balançava a terceira dose de uísque.
Nem percebia a dama que se
aproximava da mesa dele.
Estou a falar de Eugênio, supervisor
do setor financeiro de famosa construtora brasileira. Ocorre que havia um mês, desastrada
reforma no sistema contábil/administrativo da empresa deixara tentadora brecha
para a chavinha da ladroagem. Por que mexeram num sistema que funcionava tão
bem? Eugênio não atinava com a resposta, embora um risinho matreiro desse
pistas de que atinava, sim. Eles são eles, eu sou eu. Farei o que me compete,
decidiu o íntegro e precavido Eugênio, assim que descobriu a brecha. Em minutos
elaborou um relatório mostrando a disfunção e dirigiu-se ao gabinete do
diretor. Esperava ser atendido pela secretária quando dos cafundós da mente ia desembarcando
a pergunta: por que tanta pressa?
A agenda do Dr. Marcelo está cheia
hoje, Dr. Eugênio. Se o doutor...
“Entendo. Virei depois, Marina”,
interrompeu Eugênio, lendo o crachá da secretária, afastando-se pensativo. Como
a empresa mudara. Mudavam a secretária sem avisar aos mais próximos. Pior. Secretária
sem a menor compostura, pois nem aí para os olhares dirigidos ao perdulário
decote, que mais parece a casa da mãe Joana. Mas que tem seios apetitosos, ah,
isso tem, sorriu, abrindo a sala.
Eugênio sentou-se
e junto com ele
acomodou-se uma ideia: para faturar belíssima grana no fim de certas obras
tinha apenas que cadastrar uma empresa no sistema. Só ele e o “dono” da firma
cadastrada saberiam do negócio. Mão na roda, assim como roda na mão seria
encontrar esse “dono”. Ganhava bem, mas... Por que não? E se fosse descoberto? Seria
capaz de suicidar-se. Não, não faria aquilo. Sempre fora íntegro, não cairia na
arapuca da ambição. Agora, pelo gosto da mulher...
A mulher em questão é Regina, há
dez anos a esposa de Eugênio. Regina trabalha no Tribunal de Justiça, no setor
de precatório. Ela, explosiva; ele, ponderador; ela, esbanjadora; ele, econômico,
aqui acolá essas diferenças somam discórdias no dia a dia do casal. Mas Eugênio
consegue equacionar tais probleminhas numa boa. Ou conseguia:
Bolsa de dois mil reais, Regina?
Outra coisa, seu carro era praticamente zero. Aí você chega com um quase do
mesmo modelo.
Deixe. O dinheiro é meu.
Mas somos um casal, querida.
Casal cujo homem é bundão. Saia da
frente.
O “saia da frente” saiu acompanhado
de raivoso empurrão/tapa. Mas mais tapa. Eugênio reagiu com furioso
tapa/empurrão. Mas mais empurrão. Regina caiu no choro, ameaçou o arrependido
com a Lei Maria da Penha, contudo desistiu. Desistiu, mas pediu um tempo.
Naquela noite mesmo foi com os dois filhos para a residência da mãe. Essa
discussão aconteceu há quinze dias, num jantar a sós, uma semana depois de
Eugênio ter falado a Regina a respeito da “brecha” da empresa e do temor de
usá-la.
Agora falam-se diariamente, Eugênio
visita os filhos e tudo mais. Eugênio tem certeza de que certa atitude dele
fará Regina mudar de atitude.
Não vou me dobrar à ganância, falou
baixinho Eugênio, dando uma golada no uísque e assustando-se com a dama ao
lado:
Posso?
Como dar um não a inusitado pedido?
Principalmente quando a voz exibe amazônica pousada peitoral e o interlocutor
hospeda três uísques no quengo? O inebriado sim saiu cambaleante:
Sim, é claro. Pode sentar-se. Fique
à vontade.
Obrigada. Sou a Mara.
Muito prazer, Eugênio.
Sua esposa deve ter lhe falado de
mim.
Não. Não me falou nada.
Mara mostrou uma cara de decepção:
A Regina me garantiu que lhe
contaria tudo. Assim fica complicado.
Mas você pode descomplicar e contar.
É advogada dela? A Regina quer o divórcio? Toma alguma coisa, Mara? Uísque?
Não. Não sou advogada. Não sou, mas
sou. Informalmente, sou um bocado de coisas. Como exemplo, vejo que o uísque
que está bebendo é pirata. Vou tomar cerveja.
Pirata? Mesmo? Nossa! De onde você conhece
a Regina?
Do Tribunal. Ela estava meio assim,
então me aproximei e dei um empurrãozinho. Ficava tentado ela, coçando-lhe as
ouças. Então aconteceu. É da natureza da Regina, entende? Adoro sua esposa,
Eugênio. Hoje somos íntimas, uma só, por assim dizer. A Pina, sua mulher, Eugênio,
me ajuda bastante. Da confraria, é uma...
Eugênio pressentiu a tragédia. Nem escutou
a sentença de Mara. Era isso, então. Sua mulher o traia com outra mulher. Ele era
corno de mulher. Regina ganhara até apelido. Pina. Por que Pina? Dentes
trincados, voz trêmula, Eugênio falou aparentando frieza. Queria minúcias.
Onde vocês se conheceram? A
iniciativa foi dela?
Já não disse que foi no Tribunal,
criatura? A iniciativa... Escute, Eugênio, conhece aquela moça? Não tira o
olhar da gente. Só falta comê-lo com os olhos. Não vê que estamos num processo
de aproximação?
Realmente, a quatro mesas deles,
elegante mulher os espreitava. Elegante e linda, dava de dez a zero na Mara. A
beleza da Mara, na verdade, resumia-se aos seios. Seios, agora, praticamente ao
deus-dará. Mesmo a distância, a desconhecida parecia autêntica, enquanto a Mara
transmitia falsidade. Eugênio fez essa avaliação assim que captou o olhar da
moça pregado neles. Se não fosse os peitos da Mara, ele já a teria mandado
embora e ido à mesa da moça. Mas aquelas mamas o tiravam do sério. Relevava até
que viviam sendo acariciados pela esposa.
Não conheço a moça não, Mara. Por
que o apelido de Pina? Dez anos de casado e... Escute, você se engana. Não
estamos em processo de porra nenhuma. Fala aí, Mara. Vocês se pegavam onde?
Motel? Na sua casa? Na minha? Onde?
Calma, criatura. O olhar dessa moça
me deixa nervosa, Eugênio. Vamos sair daqui. Peça a conta. Vejo que está
excitado, então ficaremos a sós. Vou lhe explicar tudo, vou mostrar o caminho
das pedras.
Pois não é que Eugênio pediu a
saideira e a conta? Mas a moça chegou primeiro. Chegou alternando olhar. De
ódio dirigido a Mara e de ternura para o Eugênio. Pediu licença, sentou-se e
sentou a pua na Mara:
O Eugênio é meu, Cutaia. Não o
perderei pra você, sua infame.
Infame é você. Não vem que não tem,
sua metida. O Eugênio será meu.
Barraco chegando, Eugênio
interveio:
Isso é loucura, moças. Não conheço
as duas e... Vão me leiloar, é?
Ah, quer saber, Eugênio, não fico
com essa aí aqui nem mais um minuto. A gente se vê. Tchau!
Mara piscou para Eugênio e saiu
rebolando. O apalermado, nessas alturas no quinto uísque, não titubeou:
Nossa, você é linda. Conhece a Mara
de muito tempo? Ela tem um caso com a minha mulher, sabia?
Obrigada, Eugênio. Você é um amor. A
Cutaia? Conheço-a há séculos. Vivemos brigando. Sossegue, homem, sua mulher é
desonesta, mas não no campo sexual. Não rolou nada entre as duas.
Ah, é? E como você sabe, se a
própria Mara disse que a safadeza começou no TJ? E em que campo a minha mulher
é desonesta? E por que você chama aquela infeliz de Cutaia? E por que a Mara
chama a Regina de Pina? E qual é seu nome?
Ah, meu pai. Quantas perguntas,
Eugênio. Responderei a todas. E debulhou:
Cutaia era tão somente o sobrenome
de Mara Cutaia de Nascimento. Tribunal porque era onde a Regina trabalhava. Estava
em curso um conluio milionário naquela instituição e Regina, peça chave, ainda
não decidira participar. Então a Mara Cutaia ficava soprando-lhe as ouças no
sentido de fazê-la entrar na trama. Esse, portanto, era o campo da
desonestidade da Regina. A Regina não só entrara, como também convencera outros
indivíduos a entrarem. Daí a Mara Cutaia adorar a Regina, a ponto de chamá-la de
confrade e, de tão íntimas, confundir-se numa só. O apelido, Pina, redução de
propina, era dado à pessoa, não importando o sexo, que atingia a perfeição na
arte da tramoia.
A Mara Cutaia queria seduzir o
Eugênio, pois a Regina lhe dissera que algo fraudulento se apresentava ao
marido. Como ele titubeava, a Regina pediu que a Mara o convencesse.
Entenda, querido Eugênio. A Regina
é boa, mas é apenas operadora. A Mara Cutaia é operadora e mentora. Somente ela
tem o poder de assumir personalidades e o de invadir a mente dos incautos. O
plano era levar você a um motel, pois lá o convencimento seria mais fácil. Apreciou
os peitões dela? Pois? Pois os peitões ao
léu significavam este subliminar imperativo. “Venha mamar nas tetas da Mara
Cutaia, Eugênio”.
Então, a Mara Cutaia bolou a
conversa pra cima de você, mas não contava com a minha intervenção. Fui clara, meu
querido?
O pobre do Eugênio ficou de queixo
no chão com as porradas semânticas da moça. Mas recuperou-se:
Falta seu nome.
Meu nome é Ética, Eugênio.
Meu Deus do céu. Tirou-me um
chifrão da testa, Érica. Muito obrigado.
Érica não, Eugênio. Ética. Ética
Morales. Desculpe, mas preciso ir, do contrário perco meu voo. Vou trabalhar em
Brasília. Se a Cutaia aparecer, diga que ela não faz o seu tipo e pronto. Quero
um beijo, Eugênio.
Levantaram-se. Beijaram-se.
Te cuida, Eugênio.
Boa viagem, linda. E boa sorte,
viu?
Foi isso.
No dia seguinte, dizem, o Eugênio foi
visto de papo com a Mara. Dizem, também,
que flagraram o Eugênio beijando os seios daquela secretária. Detalhe: na sala
dele, na construtora.
Dizem! Mas dizem não diz nada, não é certo?
Dizem! Mas dizem não diz nada, não é certo?
Certo é que o Eugênio continua tomando seu uísque naquele boteco. Detalhe: mostra-se pensativo, jeitão de aluado.
Também é certo que a mulher, regina, voltou
pra casa. Detalhe: vive sorrindo.
A nota triste vem de Brasília. Curraram a Sra. Ética Morales em plena Praça dos Três Poderes. Detalhe: os estupradores estavam de paletó.
Março/17,
Março/17,
TC
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