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A LIÇÃO DE JL
(Duas mil e cem palavras, doze
minutos de leitura. Vai? Então vamos. Se não for, a amizade é a mesma),
Ainda bem que eram aparas de grama.
Algo mais sólido teria machucado o pé e adeus o joguinho de futsal.
Idiota. Se enxergue, menino. Nunca viu
mulher não, moleque?
Desculpe, moça. É que...
O humilhado travou a explicação, já
que a deseducada não o ouvia: mal calçou a arrogância e já saiu pisando a urbanidade,
como se o gesto de encantamento do moleque fosse fugitivo de uma mente maligna.
Que anta é uma, avaliava o moleque,
despejando as sobras do jardim numa carroça de entulhos e dirigindo-se para a Sede
dos Campeões. Idiota! Idiota se a sacola tivesse caído nos pés dela. Mas seria compreensível,
pois dava para ela imaginar que eu não tinha tido a intenção. Foi meu olhar
bater nela e a sacola cair junto com o queixo. Fazer o quê? Mas fui idiota por
ter pedido desculpa sem necessidade. Mulher ignorante da bexiga. Quem será?
Conheço
todo o mundo daqui e... Ah, é ela. É isso. É a filha dos donos da fazenda, a
tal da JL. Gostosa e linda, mas cu doce, costumam dizer meus colegas. Rica e
famosa, mas ingrata. Passa um tempão sem visitar os pais. E nem é tão bonita.
Não sabemos o que vocês veem que ficam virando a cabeça para o rabo daquela coroa,
reforçam as meninas.
O moleque Bião - moleque de dezoito
anos - chegou à Sede dos Campeões pensando na insultuosa coroa - coroa de
trinta anos. A Sede dos Campeões abriga tudo. Exceto troféus disputados na
região. Mas há que se reconhecer o esforço da rapaziada do futsal. E o da
mulherada do vôlei.
Bião cortava as frutas do pós-jogo,
lembrava-se da moça e bolava uma brincadeira para o quadro de aviso. Escreveu
“HÁ UMA ANTA PASTANDO POR AQUI”, mas apagou em seguida, pois temia perguntas e
chacotas. As gozações seriam alimentadas entre talhadas de mamão e rodelas de
abacaxi. Melhor deixar o assunto só entre ele e a anta. Riu, escreveu algo numa
folha de papel e saiu. Daria um jeito de se encontrar com a anta. Diria umas
verdades e entregaria o papel. Estava se lixando para a perda do emprego, senão
naquela tarde/noite, mas certamente na manhã seguinte, sábado. Jardim na região
é que não lhe faltaria para cuidar.
Bião saiu e foi logo vendo a moça caminhando
na área das piscinas. É agora. Contornou a quadra de vôlei e, em minutos,
estava na frente dela:
Sabe, doutora, a doutora mandou eu
me enxergar e me chamou de idiota. Idiota é a doutora. A senhora pensa que é
rica e doutora, mas é pobre e analfabeta. A senhora é uma anta. Mas não se
preocupe, doutora. Esse papo fica entre nós. Não sou fofoqueiro. Agora tome
esse papel e pregue nos peitos.
Bião pintou o desabafo e saiu descolorindo
o cavalheirismo. Mesmo assim se controlou e não respondeu com o dedão estirado
à pergunta como se chama, moleque?
É PROIBIDO FICAR OLHANDO PRA MIM, esse era
o escrito do Bião.
Que garoto insolente! Mas mereci a censura,
reconheço. O pestinha ergueu o olhar, passou segundos no meu decote e o sinal
de homem já me acenava. Agradeci-lhe a distinção com bofetão, essa é a verdade.
E estrategista. Esse papo fica entre nós. Quer dizer que se eu não espalhar o
desaforo dele, o meu igualmente não se espalhará. Estrategista de
personalidade. Que danado! Deixa pra lá.
A moça deixou o assunto pra lá e,
na tarde seguinte, a do sábado, deixou a fazenda, segundo uma das serviçais
numa roda de colegas:
Agora vocês sossegam o facho. A não
me toque saiu agorinha para o Aeroporto Leite Lopes. Foi pegar o avião para São
Paulo. Conhecesse ela, Bi? Ontem à noite ela estava perguntando à mãe como era
o nome do jardineiro. Eu, hein!
Bião ficou preocupado,
naturalmente. Despreocupada estava a “não me toque”, no apartamento dela, ao
ferver o leite da janta. Esperava o leite subir, e as conexões mentais, doidas
para se amostrarem, submergiram:
Está fresquinho. Tome, minha filha.
É de cabra.
Ah, mãe. Ainda vou à fazenda em
virtude de meus pais. Os parentes, ave! Ridículos! Só querem saber de rir,
comer e beber. Falam errado que é uma beleza. É gíria que dá nojo. Não fazem um
curso de especialização, não ligam para estudar outra língua, nada. E as
moçoilas? Metidinhas! E os homens? Sem futuro é o mínimo? Enxeridinhos! O
marido de minha irmã, então! É Doutora Joelma pra lá, minha cunhada pra cá.
Irrita! Tão irritante e acomodado quanto o meu ex-marido. Por isso que me
separei com cinco meses de casada. Mas tem hora que sinto falta dele, admito. Principalmente
na cama, embora ele tenha me decepcionado. Não sentira nada de espetacular nos
dois homens que tinha conhecido e julgava que com ele seria diferente. Era bom,
mas não era lá essas coisas. Vai ver que a culpa é minha. O consolo é que não me
vejo fria. Se fosse, como explicar os momentos de mormaço? Mas logo o calor
passa. Vou ao banheiro e pronto. Tomo banho e volto levinha, levinha para a
cama.
Subido o leite, recolhidas as
conexões, descida a janta, dentes escovados, Joelma se deita. Precisa dormir
bem, pois na tarde seguinte, a do domingo, viaja para Londres. Para acariciar o
sono, liga a tevê e escolhe a BBC de Londres. Logo adormece.
Dormiu feito criança.
E como criança acordou.
Que é isso? Xixi? Fiz xixi na cama?
Vasculha a memória, rir, gesto
raro, e pensa em se banhar. Pega o controle da tevê a fim de desligá-la e se
assusta: não entende o linguajar do repórter, tampouco sabe ler as letrinhas
passando na tela. Fecha os olhos, suspira e torna a olhar: tudo na mesma. Muda
de canal. Alemão, francês, inglês: a mesma coisa. Esfrega os olhos, dá um tapa
no rosto e sintoniza a Globonews: entende o português da repórter, mas não
consegue ler o rodapé da tela. Enche os olhos de lágrimas e vai tomar banho.
Banho de ensopar cabelo.
Deita-se despida, toda molhada, olhos
no teto. Procurava uma prece. Não poderia achar. Jamais deu valor a essas
banalidades. Repete os procedimentos da tevê: nada mudou. Vai confiante ao
terraço: letreiros da rua são garranchos. Dá-se conta de que está nua e retorna
com a desconfiança: enlouquecera? Descabela-se. Grita. Esperneia. Precisa de
ajuda. Ah, o smartphone. Mandar uma mensagem de socorro. Agora as lágrimas
transbordam de certeza: estava louca. Não sabe escrever. Como escrever se não
sabe ler? Ainda bem que distingue os números. Puxa pela memória o celular de
alguém. Ah, a Cláudia, sua secretária na empresa. Liga aos prantos. Parecia um
bebê a pedir os peitos da mãe. Conversam por dez minutos. Cláudia chega dali a
quarenta minutos. E dali a meia hora ficava ciente de tudo.
Cláudia é daquelas pessoas que não
sabem estocar palavras. Brincalhona, distribui verdades, mesmo sabendo que, em
demasia, verdades podem matar. Cláudia não mede as consequências e saca a métrica
íntima:
Vou ajudá-la, Dra. JL. Antes...
Joelma, Claudinha. Por favor,
amiga, me chame de Joelma.
Meu “antes” era sobre isso. Escute.
Sou sua secretária há cinco anos. Aí o que acontece. Conversamos agora por
cerca de meia hora. Ouvi e vi nesse tempinho o que jamais vi e ouvi nesse tempão,
Joelma.
Só restou à assustada Joelma, tal
qual uma guria como medo das chineladas da mãe, encolher-se e ouvir o toque-toque
das pedras da sinceridade caindo.
Você não se mistura, Joelma. Nunca
me abraçou, nunca me deu beijinhos, nunca me tratou por Claudinha, nunca me
chamou de amiga, nunca rejeitou a horrorosa Dra. JL, nunca implorou por Deus,
nunca liberou um gracejo, nunca falou uma gíria. Nunca a vi rindo ou chorando.
Nunca a vi com alguém, apesar de homens - e de algumas mulheres - viverem
virando a cabeça pra você. Nunca...
Está bom, Claudinha. Pára, mulher.
Misericórdia! Você tem razão. Desculpe, interrompeu Joelma, abraçando a nova
amiga.
Só mais uma coisinha, Joelma. Por
viverem ociosos, seus sentimentos se revoltaram, decidiram lhe dar uma lição e
pediram a cumplicidade do intelecto. Embora orgulhoso de você, o intelecto
aderiu aos planos dos amigos e comentou: vocês têm razão. Já estava apreensivo
com o estilo de vida dessa moça. Não quero um aparelho sem vida. Essa moça
precisa aprender a viver. Faremos o seguinte.
E o seguinte, Joelma, é o desaprender,
é o que você agora está vivendo. Resta-lhe aprender a lição, Joelma.
Mas entendo a sua angústia. Veja. Vivemos
no mundo do conhecimento. Ler e escrever é a nossa rotina. Então, em bela manhã,
a pessoa acorda analfabeta. É enlouquecedor, amiga. Seu caso é estarrecedor, já
que executiva de renome e falante em várias línguas. Ainda bem que só perdeu a
memória da escrita e a da leitura. Sabe, Joelma, a certas coisas a gente só dá
valor quando perde, compreende? Como não sabe o que está perdendo, ou nunca
perdeu, o analfabeto vive numa boa, não é isso? O mundo deles é outro, entende,
Joelma? E é nesse mundo que você está entrando. Mas vai sair, se Deus quiser.
Bom, vou ligar para um amigo neurologista. Ele está fora, mas deve nos dar um
norte.
Claudinha passou uns vinte minutos
conversando com o amigo, passou o celular para Joelma e começou a mexer noutro.
Joelma repetia a história e ouvia
as recomendações. Terminada a ligação, parecia mais calma. Até sorrir, sorriu.
Então é isso, Joelma. Vamos
repassar as instruções do Murilo. Você vai voltar para Ribeirão Preto, certo? Encontrei
um voo para as três horas da tarde. Já comprei a passagem, ok? Vá e faça tudo
para esquecer o problema. Aja naturalmente e tente se divertir, tá? Na
terça-feira você vem se consultar com o Murilo, ok? Não fale do distúrbio a
ninguém. Nem à sua mãe. Apenas eu, o Murilo e o presidente... Sim, você vai
gravar uma mensagem para o presidente da empresa. Amanhã, entrego a ele e peço
sigilo, compreendeu? Tome o celular. Fale logo.
Agora ligue para os seus pais, diga
que cancelaram a reunião de Londres, que vai ficar mais uns dias com eles,
que... Ah, você sabe. Depois arrume a mala. Vou deixá-la em Congonhas. Só saio
de lá quando embarcar você.
Bença, mãe. Você está sendo uma mãezona,
Claudinha.
Deus te abençoe, filha desmiolada.
Agora se arrume e arrume a mala. Vamos! Cuide, menina! Vai treinar soletração
daqui para Congonhas, viu? Vai precisar duma carta de ABC se o Murilo não
alinhar seu quengo.
Claudinha foi soletrando e pedindo que Joelma
concluísse: B com Ó, BÓ. P com I, PI. C com É, CE. C com A, CA. T com U, TU. T
com A, TA. E nessa toada chegaram a Congonhas. E a toada não continuou no avião
porque Joelma só se lembrava do P com I, PI.
Certo é que às quatro e meia Joelma
estava nos aposentos dela batendo papo com a mãe:
Sabe, mãe, acho que vou dar umas
mergulhadas na piscina.
Acredito não. Sério!? Também vou.
Vamos matar os homens do coração, Jó.
Então vá se trocar, mulher. Espero
a senhora lá.
De biquíni e canga, Joelma vai à
piscina. Mas a mãe chega primeiro, pois a filha fica parando no caminho:
Ih, pelo visto vai rolar um
churrasquinho. Tem picanha, não tem? Tô dentro.
É claro que o pessoal que preparava
o churrasco apenas balançou a cabeça. Seria mesmo a tal da JL?
Carregando um cacho de coco,
manquejando, camisa nas costas, cabelo caindo na testa, Bião ia chegando à Sede
dos Campeões quando Joelma o avista:
Ei, moleque. Espera. Ah, meu pai! Que
foi isso? Machucou-se, foi? Coitado. Bote gelo. Quero um coco desses, moleque.
Entre, vou abrir um dos gelados. Sou
o goleiro do time. Levei um pisão. Disseram que a senhora tinha ido pra São
Paulo.
Fui. Mas só pegar uns trecos. Vou
passar uns dias com vocês aqui.
Evitando encarar Joelma, porém
impulsionado pela simpatia dela, Bião achou por bem se desculpar?
Desculpe por ontem. Aquela frase...
Águas passadas não movem moinho, criatura.
Olhe pra mim, homem de Deus. Está com medo de meus peitos, é? Que coisa! Abre o
coco, vai.
Peixeira na mão direita, coco na
esquerda, Bião ia passando ao lado dela a fim de encontrar um ponto de apoio para
abrir o coco:
Me dê essa faca, pediu Joelma,
tirando a peixeira da mão do atônito Bião. Mirava-o sem pestanejar. O corpo
falava. Estava transtornada, trêmula, lábios se mexendo. Arrepiada, nariz
aceso, certamente captava o suor do atleta Bião.
A simpatia era somente ilusão. Ela
quer se vingar. Vai me esfaquear. Minha Nossa Senhora. Prestes a correr, o
medroso Bião esbugalha os olhos, após a fora de si espetar a peixeira na mesa:
Vou beijar você, meu lindo.
Joelma anuncia a tragédia e cai de
boca na boca do apalermado Bião. O machucado do pé agrava-se, porquanto o coco
ter caído exatamente no pisão do infeliz feliz. A Sede dos Campeões faz jus ao
nome e transforma-se em ringue. Campeã e campeão atendem os gritos das auxiliares libidos (levem a luta pro solo, levem a luta pro solo) e saem aos empurrões em busca do encaixe perfeito. Tamanho
agarra-agarra haveria de dar no que deu: canga, biquíni e calção rasgados. Em alguns
momentos, o combate mais parece um delírio divino, uma dança sagrada, tal a
incrível ondulação dos corpos. Corpos que fazem apenas o que deve ser feito um
para o outro. Corpos que querem ir além da fronteira do êxtase. Corpos que querem
embarcar no plano sutil da experiência mística.
Querem e conseguem. Quedam-se
exaustos. Luta empatada.
Não houve o “Nossa”! Apenas
demoradão olhos nos olhos e um “Ah, moleque”!
Vou escrever um negócio que é pra
você esquecer a minha idiotice de ontem., disse Bião, levantando-se, caminhando
para o quadro de avisos.
Não! Escreva nada não, amor. Por
favor, amor.
Por que não? Vou escrever, sim.
E escreveu:
A MULHER MAIS MULHER E A MAIS
LINDA DO MUNDO
BIÃO SILVA (BS)
Joelma tirou as mãos dos olhos. Bião
não poderia entender a voada de Joelma pra cima dele, a cobertura de beijos, o
rio de choro e o pedido. Pedido de adolescente:
Me bota nos braços, amor. Me
segura, vai. Joelma beijava Bião e escrevia um tratado:
O HOMEM MAIS HOMEM E O
MAIS GOSTOSO DO MUNDO. OBRIGADA, AMOR. OBRIGADA MESMO. OBRIGADA POR TUDO, VIU?
JOELMA LIMA (JL)
É isso.
Isso, não. O domingueiro churrasco de
fim de jogo jamais tinha visto dama mais atenciosa que Joelma. Beijinhos e
sorrisos iam com ela para os cumprimentos. E não escondeu que estava namorando
o jardineiro Bião. Não podia esconder, pois de quando em quando dava uma golada
na cerveja dele.
É lógico que teve cutucadinhas, sorrisinhos,
piadinhas. Mas o que mais se ouvia era certa expressão de júbilo, conquanto
parecesse de inveja:
Ah, moleque de sorte!
Março, 17
TC
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