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JUDAS NO SÁBADO DE ALELUIA DE SÃO MATEUS
O relógio marcava cinco horas da
manhã do Sábado de Aleluia quando o soldado Galdino avistou a majestosa figura sentada
num banquinho da praça. De paletó e gravata, óculos escuros, imponente pasta de
couro nas pernas, Judas tão elegante jamais fora visto em São Mateus. Galdino bateu
uma foto e abriu a pasta. Pensava no tradicional testamento. Não havia
testamento. Mas havia cópias da esperada e temida Lista do Juca.
Dali a instantes a imaculada São
Mateus fervia de curiosidade e as redes sociais saboreavam as novidades. A
Lista do Juca... Bom, preciso justificar o adjetivo imaculada e contextualizar
a assustadora lista.
São Mateus, com cerca de três mil
habitantes, situa-se no nordeste brasileiro e é conhecida como a mais honesta e
autêntica cidade do país. Não que viva com zero de violência. Nada disso. Acontecem
homicídios, assaltos, pistolagens. Mas tudo conforme as devidas regras
criminosas. O que o matoeense não aceita é pregar uma coisa e fazer outra, o
fingimento, o falso moralismo, por assim dizer. A população sente-se orgulhosa
com o slogan “São Mateus dez, onde o falso moralismo é zero”.
A cidade é tão ciosa dessa pureza
que mantém uma curadoria para zelar pelos
bons costumes. Boatos são prontamente apurados pelo Curador-Geral do município,
o Dr. Renan Cunha.
Quanto à Lista do Juca, a tira-sono
começou a ser formada, digamos assim, há dois meses. Teve início com o moleque
Pedrinho.
Sucede que a mãe do Pedrinho pede
que ele vá ao centro vender um galo a fim de arrumar dinheiro para comprar um
botijão de gás. O moleque, dez anos, vai passando no oitão de uma casa, vê uma
janela aberta e escuta gemidos. Curioso, dá dois pulinhos no parapeito da janela
e flagra um casal transando. Vendedor nato, Pedrinho pula a janela e “Moço, me
compre esse galo”. O “porra, moleque” é abafado, pois um barulho de moto diz
que o marido da mulher está chegando. “Meu marido. Fiquem debaixo da cama. Rápido”.
Enquanto marido e mulher conversam
sentados na cama, Pedrinho e o Ricardão negociam embaixo dela. Mão arrochando o
pescoço da ave, Pedrinho vende o galo. Em seguida o compra e torna a vendê-lo.
E fica na gangorra de vender caro e comprar barato. Ao menor gesto de
relutância, Pedrinho exibe o sinal convencedor: rindo, começa a aliviar o
pescoço do galo. Só no sexto vende/compra/vende/compra, Pedrinho já de burra
cheia e com o relógio do incauto no bolso, é que o marido da mulher se afasta. Vai
tomar banho, já que tira a camisa e põe uma pistola na cômoda. Pedrinho faz
finca-pé e pula a janela. Pula e o galo escapole da mão. Resultado: o galo
espatifa-se no meio-fio e transforma-se em pedaços de gesso. Espatifa-se o galo
e começa a se espatifar a pureza de São Mateus.
Bem, Pedrinho volta pra casa e
conta tudo à mãe, a desejada Messalina. Mas que belo relógio, meu filho. Quer
dizer que o homem que desconjuntava a Maria Preá tinha um lenço no rosto. Que
galinha! E o corno do Galdino não estava nem aí. Não diga isso a ninguém,
Pedrinho, senão o curador Cunha vem atrás da gente.
O filho ficou na dele, mas a mãe
segredou a uma colega, que rumorejou com uma amiga, que mexericou com mais
duas, que caiu nas ouças do curador Renan Cunha, que enxergou a fumaça do mau
costume, que abriu um procedimento investigatório com o nome de Operação
Lava-Caráter, que interrogou a Maria Preá, que rebateu a acusação de adúltera.
Vou falar com o padre Luluca, visto
a Maria Preá viver se confessando, devota assumida que é, decidiu o curador
Cunha. O vigário não ligava muito para certos preceitos, até já o ajudara em
outros procedimentos, de forma que o curador dava como certa a deduragem. Mas o
sacerdote foi taxativo: Maria Preá não havia transado com ninguém. Ocorre que o
pároco Luluca não podia falar a verdade. E a verdade é que tivera tremendo
arranca-rabo com a Maria Preá.
Acontece que o vigário Luluca e a
Maria Preá eram amantes. Isso diz tudo, não? Existe, por sinal, jocosa expressão
popular nascida do romance deles. Permitam-me um parágrafo sobre esse fato.
Belo dia, o sacristão pega o padre
Luluca em cima da Maria Preá e tome extorquir dinheiro do pobre padre. Até que
noutro belo dia (a vida é prenhe de belos dias, não é certo?), o vigário Luluca
flagra um fiel “ajeitando” o sacristão. O sacristão subia as calças e ouvia o
sorridente Luluca: morreu Maria Preá, sacristão. A partir daquele dia “Morreu
Maria Preá” passou para o anedotário como um assunto morto, algo que deve ser
esquecido.
Muito bem, frustrada a tentativa
com o padre Luluca, restou ao curador Cunha rastrear o boato. O falso moralismo
da Maria Preá não podia ficar por isso mesmo. Rastreou e chegou à mãe do
Pedrinho, a bela Messalina. Durante a oitiva, a nervosa mãe não dizia coisa com
coisa. Ficou detida. Em cinco dias, Messalina negociou a delação premiada. Como
prova inicial, apresentou um relógio: “O relógio do ex-prefeito Adécio Cabral,
o galinha que comia a Maria Preá. Tenho nome e endereço de mais de uma centena
de falsos moralista daqui de São Mateus, Dr. Renan Cunha. Principalmente na
área do sexo”.
Messalina, nas horas vagas
professora, conhecia muita gente graúda: deu cento e quatorze nomes. Nominou-os
vinculando-os às mais diversas falsidades de condutas. Dr. Renan Cunha a liberou,
ainda que com tornozeleira. Liberou-a e se pôs a elaborar a lista a fim de
enviá-la ao juiz Juca Romero, pedindo autorização para a abertura de inquérito.
Providência necessária, posto a maioria dos componentes - a exemplo de
prefeitos, ex-prefeitos, vereadores, suplentes deles, secretárias, babás -
gozarem do foro privilegiado. A notícia correu a cidade, o burburinho foi de
carona. O magistrado Juca logo informou que assim que recebesse a lista
quebraria o sigilo.
“Dizer que faz é uma coisa, fazer é
outra. Essa lista não existe”. Falava assim o povão sabido.
Mas existia. E encontrava-se na
imponente pasta do Judas. E estava cheia de lama. A imaculada São Mateus transformava-se
em pura sujeira. O povão logo notou que não era a lista oficial, até porque dela
duvidava, mas a verossimilhança entre apelidos e fatos garantia a autenticidade.
A população vibrava, a elite estrebuchava, os bares se enchiam, as ruas
fofocavam.
Pois é, a lista não mostrava nomes
e sim codinomes. Ao lado deles uma abreviatura da falsa conduta e entre
parêntesis a explicação.
Alguns codinomes:
Batina amiga, Caju, Feia, Brocha, Caranguejo,
Goleiro, Fanhoso, Velhinho, Angorá, Buchudo.
Algumas abreviaturas:
PD – Pedófilo; AG – Agiota; SP – Sapatão;
CL – Caloteiro; PET – Pederasta; PT – Puta; CHF – Chifreira; IRR – Enrolão.
A confusão foi tão grande que
carros de som invadiram a cidade chamando a atenção para o embuste. A lista era
pura ficção, arte de cafajeste, coisa de alguém que queria soterrar a paz da
sociedade mateense, e que a Curadoria-Geral estava investigando a autoria da
desfeita.
Da janela de minha quitinete, eu
observava o alvoroço da rua quando o Pedrinho chegou com uma sacola na mão:
- Bença, pai. Mãe me falou hoje que
o senhor é meu pai. Taqui que ela mandou pro senhor. Vou embora. Mãe disse que
eu viesse num pé e voltasse noutro.
Atordoado, abri a sacola. Tinha um
bilhete, uma vestimenta feminina e um estojo de maquiagem. Li o bilhete:
O
Pedrinho deu a bença a você? Vista-se de mulher, vá para a BR e vê se pega uma
carona para Natal. Não se preocupe com a gente. O delegado está babando para nos
proteger. Ainda bem que ele não está na lista, viu?
Te
cuida. Beijos. Te amo, doido!
Messa
Abril/17
TC
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