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O DOIDO DO DOIS
Ele
não era mais doido do que as outras pessoas do mundo, mas as outras pessoas do
mundo insistiam em dizer que ele era doido. Gostava tanto de números que acabou
se apaixonando pelo 2. Depois disso, virou o Doido do 2. Escrevia o 2 em cortes
de papelão, colava nos raios da bicicleta e saía pedalando mundo a fora aos
berros de 2 é fiel, 2 é fiel, 2 é fiel.
Desculpe,
mas não vejo sinais de doidice nessas pedaladas. Normal, normalíssimo. O 2
merece.
Normal,
normalíssimo? O 2 merece? Pois diga! Doutor, doutor! Misericórdia! Então o
doido era eu, era? Porque eu tinha pena do miserável e ia atrás montado num
cambão de guidom torto corrigindo ele: Deus é fiel, Deus é fiel, Deus é fiel.
Mas o aperreio só vinha na lua grande, entende, doutor?
Entendo,
entendo. Isso durou muito tempo? E o senhor é o que dele?
Durou até 30 de abril de 1967,
quando ele fez 17 anos. Aí ele deu um fora no 2, foi vender os números do jogo
do bicho, apaixonou-se pelo 7 e
inventou de fazer música. Sou só amigo dele,
doutor. Temos um carinho especial, pois nascemos num mesmo dia dum mesmo ano,
entende, doutor?
Entendo, entendo. A paixão pelo 7 durou
muito tempo? Quer dizer que ele fazia música, era?
Durou até 30 de abril de 77, quando
foi pra faculdade fazer Economia. Mas levou o tesão por números. Fazia e faz
conta de cabeça que é uma beleza. O senhor faz conta de cabeça, doutor? Ele fazia
as provas de estatística na mão, pois não confiava na calculadora. Raiz
quadrada, médias, desvio padrão, variância, tudo, tudo, na mão. Tirava dez
direto. Virou
compositor, sim. Esse aí bastava ver uma mulher bonita e já perguntava o nome
dela. Se tivesse 7 letras, ali mesmo ele improvisava um samba. A gente sempre se
atracava porque ele não queria que eu fizesse pagode para as mulheres de 5
letras, entende, doutor? Entendo,
entendo. Mas deixe de repetir esse “entende, doutor”, homem de Deus! Que chato!
Essa fase musical durou muito tempo?
Não acabei de falar, criatura? Durou
até ele entrar na faculdade. Terminou o curso, foi ser fiscal, casou. Jamais
foi infiel à mulher. Casou virgem, viu, doutor? Mas tinha um problema. Sempre
que estava com a consorte, pensava em outra mulher. Era a única maneira de ele
funcionar, entende, doutor?
Funcionar?
Fazer
amor. Sexo. O doutor sabe. Só que a outra mulher tinha de ser uma celebridade e
o nome precisava ter 7 letras.
Sei,
sei. Normal. Normal para os dois. Como danado ele ia saber se ela não estava também
pensando num famoso de 7 letras?
Não
é isso! No princípio, ele pensava na Aniston. Por um período, pensava na Roberts.
Fechava os olhos e imaginava aquela boca, aquelas coxas. Às vezes, para variar,
pensava na Andrews. Aos sábados, por exemplo. Mas para o dia-a-dia, ou
noite-a-noite, preferia as italianas. E então começou.
O quê?
O
bambeado, doutor. Pensava em todas as celebridades de 7 letras possíveis,
fechava os olhos, se concentrava. Nada. Ele não conseguia, não conseguia...
Funcionar.
Isso
mesmo. Quer dizer, mais ou menos. Ele estava entrando na Upseola, entende,
doutor?
Entendo,
macho. Upseloa: uma por semana e olhe lá.
Na
mosca. Esse, doutor! Até que um dia ele errou a soletração. Soletrou a batida e
cheinha beldade de cinco letras e...
Funcionou.
Funcionou
que foi uma beleza, velho. Quando o sujeito está à beira da morte não tem uma
melhora? Pois!
É
verdade. Seu amigo devia ter aproveitado essa glória para tirar o 7 do quengo.
Tira
não. Esse troço está enraizado. Tem jeito não. Ele é de 7 meses, doutor. Os
pais, um tal de Luís Fernando Falcão e uma tal de Adriana Veríssimo Falcão, são
dois desnaturados. Abandonaram esse aí na maternidade e pronto. Acho até que
aquela birutice de andar com o 2 na bicicleta era uma tentativa de ele perdoar aqueles
dois, entende, doutor?
Entendo,
entendo. Então, e já que senhor está dando o caso por perdido, não posso fazer
nada pelo seu amigo. Faz quanto anos que ele não fala? Só se comunica por meio
dessa geringonça, é?
O
problema não é o 7 não, doutor. E quem disse que ele não fala, criatura? Esse,
doutor! Nessa geringonça...
Ué!
E por que ele não dá um pio? E se não é
o 7, qual é o problema, macho?
Digo
já. Nessa geringonça, ele está escrevendo as besteiras que o doutor tem falado
aqui. Daqui a pouquinho, vai botar tudo num blogue bosta que ele tem e que
ninguém lê. Esse infeliz não tem leitor pra fazer uma meizinha, doutor. Ele não
está falando porque não queria se consultar. Está emburrado, entende, doutor? Entendeu
ou quer o desenho?
Precisa
não. Ele está escrevendo a nossa conversa, é?
É. E esse é o problema. Ele vive escrevendo. Às
vezes, a gente está conversando, ele para o papo com um jeitão de abestalhado,
fica olhando pra cima, e depois diz que estava escrevendo. Como escrever sem
escrever? Um sujeito desse tem juízo, doutor? Perdi a paciência e trouxe ele
aqui pra ver se o doutor dá uma arrochada nos parafusos dele. Mas pelo que
estou vendo...
Vou
arrochar, sim. Escrever sem escrever é alucinação. O quadro é gravíssimo. Mais
na idade dele. Quantos anos ele tem mesmo?
Eu
não disse que ele completou 17 anos no dia 30 de abril de 67, criatura? O doutor
não faz conta de cabeça não, é?
Foi
mesmo. Ele veio ao mundo no mesmo ano e no mesmo dia do senhor, não foi?
Exato.
30 de abril, doutor. Amanhã. A gente faz era amanhã.
Isso.
30 de abril, 30 de abril, 30 de abril, 30 de abril, 30 de abril, 30 de...
Chega,
doutor. Vire o disco, homem.
É
que eu também sou de 30 de abril e do mesmo ano de vocês. Venham cá. Vamos
comemorar, já que amanhã a gente não vai se ver. Venham, venham!
Fomos.
Ficamos
de mãos dadas, fazendo uma roda. Então o doutor puxou a música do Carequinha:
Chegou a hora de apagar a
velinha
Vamos cantar aquela musiquinha
Parabéns, Parabéns
Pelo seu aniversário
Vamos cantar aquela musiquinha
Parabéns, Parabéns
Pelo seu aniversário
Que Deus lhe dê
Muitas venturas e paz
E que os anjos digam amém
Parabéns pra você
Parabéns pra você
Pelo seu aniversário...
Muitas venturas e paz
E que os anjos digam amém
Parabéns pra você
Parabéns pra você
Pelo seu aniversário...
Batíamos
palmas, pulávamos, cantávamos. Foi assim que a preocupada atendente do doutor
nos encontrou. Imóvel, mãos na boca, olhos arregalados, ela não entendia o
porquê de tamanho contentamento. Mais surpresos ficamos nós, ao vê-la fechar a
porta, abrir um sorriso, caminhar em nossa direção e pôr-se no meio da roda. Batia
palmas, pulava, cantava. E rebolava.
Então
começou a faxina.
Começou
dispensando o lenço. Em seguida, exonerou os grampos do cabelo. Mais uns
segundos, e deu início à demissão dos botões da blusa. A impiedosa batia as
contas da saia, e os velhotes já exibiam as pelancas da barriga, quando a sala
escureceu. Faltou energia.
Mas
a danadinha pegou as imagens do consultório e jogou na internet. O vídeo
viralizou. Os comentários vieram juntos. Meteram a lenha.
Os
espontâneos não foram mais indecorosos do que as outras pessoas do mundo, mas
as outras pessoas do mundo insistiram em dizer que foram indecorosos. Não ultrapassaram
limites, mas os falsos moralistas insistiram em dizer que foram imorais.
As
outras pessoas do mundo precisam entender que outras pessoas do mundo gostam de
fazer o que der na telha. Desde que não prejudique as outras pessoas do mundo, fazer
o que der na telha não torna doido ou imoral nenhuma pessoa do mundo.
Concordas comigo, doidinho? E tu, doidinha?
Concordas comigo, doidinho? E tu, doidinha?
Abril/17
TC
(Obrigado
pelos parabéns. De aniversário, né, gente?)
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