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A MORTE DO DELATOR
O que acha que vai acontecer,
Cabeça Dura?
A pergunta foi feita por uma amiga
do peito. De peito, de boca e de outras anatomias. Mas o “Cabeça Dura”
originava-se de minha fama de teimoso. Também, né?
Não tenho ideia, Branquinha.
Tratava-a por Branquinha em razão
da pele lanuda. Atributo que lhe trazia temores e tremores, haja a vista o
assédio de gulosos lobos, a exemplo daquele que, sem a menor consideração ao
pudor, comia-a com os olhos.
Bicho nojento, disse Branquinha, desviando-se
do ardiloso olhar e colando-se a mim.
Nunca vi o Planalto tão cheio,
Cabeça Dura. Que fauna, hein!
Tinha razão a Branquinha. O
ambiente acolhia sotaques para todos os gostos. Alguns soltavam brincadeiras,
outros aturavam-se, porquanto inimigos de longas datas, mas a maioria estampava
a interrogação no semblante. Não era para menos: havíamos recebido a ordem de
estar ali às oito horas da manhã. “Para cientificá-los de uma notícia de
extrema gravidade”, dizia a nota assinada pelo chefão. Agora estávamos a
esperá-lo.
Olha ali, olha ali aqueles dois,
Cabeça Dura. A mocinha e o velhote. A orelhuda impiedosa e o bengaludo
impiedoso. De papo, hiena e pantera. Pode um negócio desse? Só acredito porque estou
vendo, Cabeça Dura.
Dei a concordância de cabeça. A
reunião tinha o mérito de juntar aquelas figuras, cobras criadas, com umas a engolirem
outras. Se bem que, aqui acolá, algumas engoliam sapos. É a vida, a lei da
selva. É o secular jogo de interesse, em que predadores e presas vivem trocando
de posição e ingênuos caindo na conversa de espertalhões. O Homem bem que podia
ter bolado uma travinha nessa criação a fim de harmonizar os interesses antagônicos.
Brequei a tola reflexão, já que o chefe acabava de chegar.
Não digo silêncio sepulcral porque
detesto chavões. Mas o silêncio que se fez era sepulcral, sim. Éramos os
vassalos aos pés do rei.
Como a nos lembrar que aquele
território era dele, o chefe deu tremenda patada, situou-se no centro dum
círculo, olhou-nos ferozmente e abriu o discurso em forma de rugido:
Falta um camarada aqui. Já
perceberam? Esse camarada é um infrator da lei. Traidor de nossos princípios.
Esse...
Não notamos a falta de ninguém.
Será que...
Como ousa me interromper, seu
veado?
Vejam. Brigamos por termos a
violência em nosso sangue. Isso nunca vai mudar. Matamos exclusivamente para
sobreviver. Saciados, cessamos a matança. Isso também é milenar. Pois bem, há
dias eu investigava um camaradinha. Não sei como soube, certo é que ontem ele
me procurou. Disse que se entregava, mas tinha valiosíssima informação a me
dar. Em troca, queria o perdão da pena. Concordei. Concordei, mas vou matá-lo,
vou extinguir a sua raça. Odeio delatores. Era isso que eu queria compartilhar
com vocês. Agora, a delação dele, camaradas, é gravíssima. Precisamos extinguir
também a raça...
Data vênia, majestade. Quem é o...
Porra, caralho! Feche essa matraca,
filho duma cadela. Por que não vai coçar o focinho, seu cão sarnento?
Devia ter mais respeito com a
gente, seu velho safado, e não ficar estuprando a educação com essa bocarra
fedorenta. Não basta esmagar a ética com as suas patadas?
Cadê você? Me respeite. Me chame de
majestade.
Respeito uma ova. Você não merece respeito,
tampouco o título de majestade. Nem o tratamento padrão de nossa espécie, o amável
camarada, você merece mais. Merecia a nossa reverência até ir passear no podre
território dos humanos. Divertia-se nos circos e jogava fora os nossos valores.
Tanto é verdade
que voltou crápula e com essa linguagem chula. Misericórdia! Vai
ter de me escutar agora, seu mentiroso duma figa. Vou desmascará-lo, bandido.
Escutem, camaradas.
Ficamos de queixo no chão. Eram
milhares de vozes sincronizadas, mas não víamos as falantes. Voz limpa,
comunicação perfeita, verdadeira arte. Sabíamos, contudo, que a voz era das
camaradas formigas. Deitaram falação:
Escutem, camaradas. Vou dar nome
aos bois. O infrator da Lei da Selva, infratores, aliás, são o camarada Búfalo
Americano e esse aí. O camarada Búfalo não vai morrer. Está chupando o dedo, leve
e solto por aí. Não houve investigação, pena, muito menos delação, camaradas.
Mas houve e está havendo crime. O camarada Búfalo e esse aí estão estocando
alimentos. Estocando carne, camaradas. Carne, entenderam? Sabíamos da tramoia,
por isso, ontem, uma formiga-rainha seguiu o camarada Búfalo. A lua estava no
começo de minguante quando o infeliz se encontrou com esse verme. Antenas
ligadas, nossa mestra flagrou a safadeza.
O safadão do Búfalo dizia estar
desconfiando de nós. “As camaradas formigas são organizadas, comunicativas,
espertas. Elas podem nos derrubar, majestade”, reforçava o babão. Então a dupla
satânica traçou o diabólico plano.
O bandidão aí marcaria o presente
encontro a fim de nos dar ciência da suposta delação do camarada Búfalo. Artimanha,
cujo objetivo era escorar outra ciência. A de que um crime estava sendo
cometido por uma camarada. Sabem quem era essa camarada, a raça que seria
extinta, nas palavras desse imbecil? Nós, as formigas. E sabem qual era o nosso
crime? Estaríamos roubando fungos de um frigorífico. Agora segurem-se na cela,
camaradas. O camarada Búfalo matava outros camaradas apenas para bajular esse
infeliz. Dava-lhe a carne e ficava sorrindo. Matar para não se alimentar viola
o primeiro artigo da Lei da Selva, camaradas. Digo matava porque agora ele está
noutra. O camarada Búfalo está se corrompendo, camaradas. Ele e o cabeludão aí.
Para quem desconhece, há um frigorífico no limite sul de nosso território. O tal
de quem estaríamos roubando fungos. Chama-se Frigorífico Dois Irmãos. Pois bem,
os irmãos querem parte de nosso território para criar bovinos. O que fizeram? Corromperam
a duplinha infame. Estão dando carne ao peste do Búfalo, que repassa a esse
vagabundo. Propina, camaradas. Então, camaradas...
Se há uma coisa que animais não
toleram é falsidade. Daí que começaram a caminhar na direção do camarada leão.
Caminhavam lentamente, olhar fixo. A hiena, o tigre de bengala, o cachorro e o veado
puxavam a fila.
Cercado, o rei se encolhia. Acabou se deitando para que não notássemos a tremedeira.
Nossa, Cabeça Dura. Vai rolar
confusão. Vamos também, meu Carneirinho. Dar uma marrada nele, gato, incentivava-me Branquinha,
a mais linda das ovelhas daquele planalto.
Não rolou confusão. O camarada leão liberou um
lamento em forma de rugido, escutamos um estrondo e o fedor fez a galera recuar.
Quem tinha nariz saiu com ele tampado.
Também não suportamos.
E permanecemos de nariz tampado.
Maio/17
Carneiro
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