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JULGAMENTO NO TSE – PALAVRAS AO VENTO
Vossa Excelência precisa
conhecer o exato valor da palavra numa petição jurídica. Não pode ir além da
palavra chave do pedido. Aqui a palavra não tem alma, como a tem na mentalização
do poeta. Aqui o “dos” que liga rosa a ventos é tão somente um conectivo e não
o elo entre a mulher amorosa e invencível. Aqui a palavra sol ilumina, a
palavra chuva molha, a palavra terra é firme, a palavra irmão é carnal, a
palavra juro é verdadeira. Em suma, eminente relator, no Direito, a palavra
diz. Está casada com ele. Não vive de namorico com o vento.
Na presente demanda judicial, a
palavra cronista é cronista, mesmo. Jamais será contista ou romancista. Aqui a palavra
chave do pedido
é a expressão ineficácia absoluta. Algo distante de aplicabilidade
irrestrita, a pretensão do demandante.
Voto, pois, pela improcedência
da ação e vislumbro o crime de lesa-literariedade na publicação do romance Toinho,
Seu Danado!
Voto esperado, o Estadão logo
manchetou: 4X3. Ministro desempata a favor da Literatura. E desbulhou: o
presidente do Tribunal Superior de Eruditismo (TSE), ministro Vilmar Mentas,
votou pela improcedência da ação movida pelo Sr. CT e desempatou a questão em
favor da Sra. Literatura. Entenda o caso, prosseguiu o Estadão.
Em 2015, o Sr. CT submeteu-se
ao teste de escritor. Contudo, a Câmara Literária Nacional – CLN - órgão
presidido pela Sra. Literatura, negou-lhe o diploma. Negou, mas concedeu-lhe
uma licença provisória de cronista. Pura benevolência, conforme os autos do
processo. CT entrou na Justiça pedindo a ineficácia da licença ao mesmo tempo em que publicava um romance, o Toinho, Seu Danado! Publicou de
forma independente, já que as editoras tradicionais o rejeitavam. Autêntico
caixa 2 literário, segundo a Associação Brasileira dos Escritores Ciosos (ABECIO),
ao formalizar representação à CLN com o objetivo de retirar o romance de
circulação.
Os ministros pegaram atalhos.
Os votos vencedores sustentaram a tese da imprecisão do pedido. Pedia-se a ineficácia
da licença de cronista e não a extensão para publicar outros gêneros
ficcionais. Os votos vencidos combateram a censura literária e condenaram a
castração artística do Sr. CT. A publicação do romance Toinho, Seu Danado! torna
público e notório o talento do Sr. CT, o que, por óbvio, dispensa a burocrática
autorização, alegou o relator, o juiz Hermano Benjatu. E finalizou: Não se pode
enlatar um talento e ficar à mercê do humor da Sra. Literatura para abri-lo. Mas,
como vimos, esse argumento não sensibilizou o juiz Vilmar Mentas.
Bom, o nariz aceso e as mãos
entrelaçadas do relator não conseguiam esconder um porvir certamente
desconfortável para o presidente do TSE, juiz Vilmar Mentas. Mas o
contraditório saiu com voz serena:
Não fiquei insensível à
soberania popular, eminente magistrado. Ao contrário do que Vossa Excelência proferiu
no acaciano e falacioso voto, atuei em nome da soberania, porquanto a vendagem
de cinco mil exemplares (na verdade, cinco, leitor) sinalizava que ler o romance
era o desejo da sociedade. Por conseguinte, não joguei palavras ao vento,
tampouco joguei para a plateia. Não constrangi meus pares, presidente, mas
parte deles está perplexa com o voto de Vossa Excelência.
Esta
ação só existe graças a meu empenho, modéstia às favas. Vossa Excelência só
está brilhando no Brasil todo, na TV, graças a isso.
Essas palavras não saíram de minha boca. Saíram da de Vossa
Excelência. Da do presidente deste Tribunal. E saíram ontem. E tinha motivo
para jactar-se, pois se não fosse Vossa Excelência esta ação teria sido
arquivada no nascedouro, dois anos atrás. Cristalina verdade, Excelência. Agora
permitam-me ler parte daquela antológica defesa da palavra. Vossa Excelência manifestou-se
assim:
Não podemos arquivar esta ação,
eminente relatora. Precisamos discutir, repensar o Estado repressor da
liberdade de expressão. Não é um pedaço de papel que prova que alguém tem
aptidão para escrever isso, aquilo, aquilo outro. Não é um pedaço de papel que
delimitará as palavras criativas do Sr. CT.
Palavras não são culpadas nem
inocentes. Amável ou execrável é a mente que as concebe. Amoroso ou odioso é
quem as pronuncia ou escreve. Palavra é sociável. Gosta
de gente. Isolada não é nada. É apenas um som. Um namoro de letras.
Palavras
gostam de contexto.
A palavra cigarro não causa
câncer, precisa de um agente. A palavra febre não esquenta o corpo, precisa de
uma causa. A palavra beijo não encosta os lábios, precisa de outros. A palavra
sexo não concebe filhos, precisa de amantes.
Palavra diz, mas também desdiz.
Porta é uma palavra que fecha,
mas também que abre. Janela é uma palavra que abre, mas também que fecha.
Entreaberto é uma palavra indecisa, mas também pensativa.
Percebi essas e outras nuances,
eminente relatora, ao ler Toinho, Seu Danado! Certamente para se livrar das peias literárias do Brasil, e assim, registros apagados, poder publicar romances em outras línguas, é que o Sr. CT acionou a Justiça. Fosse eu, eminente relatora, teria acionado a Justiça, sim, mas para extinguir a Câmara Literária Nacional, a idiota CLN.
Se proibirmos a circulação
desse romance, não estamos a punir o autor. Estamos, isso sim, a punir a arte. O
Sr. CT não tem a licença de escritor. E daí? Será que um pedaço de papel, a
suposição, vai enfiar a peixeira na barriga dos fatos? Perfeita inversão de
papéis, Sra. relatora. Não amolarei tal peixeira.
Voto pelo não arquivamento. Meu
voto é no sentido de levarmos essa demanda ao plenário da corte. Votarei lá
para que a licença de cronista do Sr. CT perca a eficácia e assim, livre, leve
e solto, ele possa formalizar a publicação do Seu Danado e dos demais que haverá de escrever.
Essa era a posição de Vossa
Excelência, nobre presidente Vilmar Mentas. Este relator não usou fermento nas palavras.
Mas desconfio de que aquelas de Vossa Excelência tenham sido hoje cobertas com
ácido muriático.
É isso, gente. Detalhe. O Sr.
CT é palhaço do Le Cirque Amar. E o circo costuma usar um aviãozinho para
anunciar a programação. O que fez CT? Picotou dez exemplares de Toinho,
Seu Danado, pegou carona no avião e tome soltar palavras. Esperava que
algumas palavras caíssem em solo fértil e nascessem. Algumas nasceram. Hipocrisia,
por exemplo. Natal ficou empestada de frondosos pés de hipocrisia. Principalmente
sobre os prédios de luxo. Pestinha pra dar, viu? Já nas vizinhanças da residência
do CT nasceram uns pezinhos de esperança.
Esses o CT fica aguando,
aguando, aguando...
Seco junho/17
TC
Obs. Toinho, Seu Danado
encontra-se no www.clubedeautores.com
e com o autor, tcarneirosilva@gmail.com
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