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BETH, A
DESLIGADA
Cadê a minha mãe?
Não sei. Deu uma
saidinha. Então o bar é de uma mulher! Você é filha dela?
É
claro. Não acabei de falar? Como assim o bar é de uma mulher? O senhor não
conhece a minha mãe? Quem é o senhor? Cadê ela? Há quanto tempo o senhor está
aqui? O senhor...
Calma,
moça. Faça o seguinte...
Como
ter calma, senhor? Chego ao bar de minha mãe, encontro um desconhecido por dono
do bar, cheio de gente bebendo, o estranho não conhece a minha mãe, mas fala de
uma saidinha dela, e esse, esse, essa, essa pessoa ainda me pede calma quando
quero saber dela. Misericórdia.
Ele
é namorado da vovó, mamãe?
Júlio!
É
seu filho? Nossa! Teve filho muito novinha, hein? Faça o seguinte. Ligue pra
sua mãe.
Tô
ligando, não tá vendo? Só faz chamar. Agora me fale. O senhor chegou aqui e...
Não
chore não. Perco o raciocínio quando vejo alguém chorando. Escute. Gosto muito
de bar de calçada, então, ia passando, achei criativo o nome do bar e...
Me
poupe dos detalhes. O senhor chegou e...
Esse
é o problema dos jovens. São apressadinhos, detestam detalhes, viram as costas
para contextos. Resultado: a comunicação fica capenga. Diga-me uma coisa. Sua
mãe tem desafetos, assuntos amorosos, passionais, digamos assim.
Não.
Minha mãe é bem resolvida nesses assuntos.
Realmente
é preocupante. Bom, procure saber dos vizinhos se notaram algo estranho, se
viram sua mãe sair. Enfim, dê uma pesquisada na rua. Enquanto isso, dê-me o
número dela. Talvez o meu celular tenha mais sorte.
E
teve.
Espere,
volte. Está chamando. Tive sorte. Vou botar no viva-voz.
Uma
voz limpa e destemida deu o alô:
Alô.
Quem é?
Seu
mais novo empregado. A senhora não é a dona do Panegírico Bar?
Sim.
Mais novo empregado? É uma pegadinha, é?
Empregado
de seu bar, mulher de Nossa Senhora. Sua filha está desesperada. A senhora
deixou o bar aberto e...
A
filha tomou o celular, afastou-se e pegue falatório. Apresentava os olhos vermelhos,
mas tinha o semblante verde. Rindo, entregou-me o aparelho e comentou:
Folgada
a minha mãe, viu? Ela mandou lhe dar esse avental. Quer falar com você.
Explico
tudo aí, meu anjo da guarda. A Fernandinha está indo deixar meu neto na escola,
dá pra você segurar as pontas enquanto eu passo nos Correios e compro a ração
de meu cachorro?
Dava,
sim. Uma hora da tarde. Estava mesmo na hora de bater o ponto no ócio
vespertino e acessar os sistemas da vadiagem. E vende ração nos Correios? Quis
soltar os gracejos, mas como demorei a verbalizá-los, ela viu o silêncio como
sim, falou um “então tá” e desligou.
Limpava
as mesas quando ela chegou. Foi chegando e caindo na risada:
Está
usando às avessas o avental. Vou dar as suas contas. Muito prazer. Elizabeth.
Mas pode me chamar de Beth.
O
prazer é meu, Beth. Sou o Artur.
Volto
já, Artur. Estou apertada, disse, e entrou no bar.
Fiquei
de boca aberta.
Pronto,
essa boca aberta é para enaltecer o charme e a juventude da mulher. Já sei para
onde o autor está encaminhando o desfecho da história. Luxúria, certamente. Ninguém
merece! Está pensando assim, não é, leitor? Desculpe, mas não vou mentir pra
você, meu caro. A morenaça não era apenas charmosa. Era linda. E era realmente uma
jovem avó – na faixa de meus quarenta anos. Quanto à luxúria, você não perde
por esperar.
Não
esperei muito. Beth voltou com um copo.
Posso?
Nisso
meu queixo caiu. Bem-humorada, amiga de animais e ainda toma um negocinho. Conquistou-me.
Mantenho distância de quem não transporta tais atributos. Fiquei mais perto
dela e soltei íntimo “e aí”?
Aí,
meu anjo da guarda... Seguinte. Eu tinha umas contas para pagar. Como não uso
internet pra isso, sentei-me nesta cadeira pensando em ligar para meu irmão
ficar aqui enquanto eu ia ao banco. Celular fora de área, pedi um uber e fiquei
lendo um livro. Aí, meu anjo, entretive-me na leitura e me esqueci de religar
para o meu irmão. Resultado: o uber chegou e não contei conversa. Pulei dentro
e fui me divertindo com o livro até ao banco. Lendo, na fila, não ouvi as
chamadas da Fernandinha. Só me dei conta do bar sem ninguém com a sua ligação. Sou
muito desligada, Artur. Muito obrigada, viu? Obrigada, mesmo, Artur. E você?
Bom,
ia passando e o bar de calçada com nome Panegírico me fez parar e sentar-me.
Depois de minutos, e convencido da ausência do dono, peguei uma Proibida e comecei
a tomar. Então os clientes foram chegando, eu fui atendendo, contando a
história, a gente se divertindo com a situação. A propósito, apurei oitenta
reais. A mufunfa está debaixo do controle da TV. Com mais de uma hora sua filha
chegou. Foi isso, Beth.
Ficamos
rindo e jogando conversa fora. Beth despachava, limpava as mesas, falava ao
celular, bebia cerveja. E nesse pra cima e pra baixo a tarde se ia. E íamos nos
tornando mais alegres. E o olhar ia abonando o protocolo de aproximação das
libidos. No piscar dum olhar pidão, falei-lhe da inocência do Júlio, ao
perguntar à mãe se eu era o namorado da avó.
Qual
foi a resposta, Artur?
Sou,
meu menino. Sou apaixonado pela sua avó. Espero provar isso.
Arrependi-me
logo do embuste, pois a Beth sorriu amarelo, fechou a cara, leu o visor do celular,
entrou e se pôs a lavar copos. Fui ao banheiro. Meteu os pés pelas mãos,
idiota, recriminava-me, fazendo cera a fim de bolar uma saída para a
precipitação. Saí ao ouvir barulho de
portas fechando. Saia e quando fechava a porta do banheiro recebia a ordem:
Tenho
uma arma apontada para a cabeça do senhor, Dr. Artur. Se não quiser morrer,
ajoelhe-se, ponha as mãos na cabeça e vire-se bem devagarzinho. Detesto atirar
nas costas das pessoas.
Quê?!
O
doutor ouviu. Qualquer sinal suspeito e eu estouro os seus miolos, pois antevi
seu pistolão tão logo lhe mirei a cintura.
Fiquei
uns dez segundos no ar. Pensei em rapidamente me virar, rindo, supondo ser de
brincadeira a intimidação. Mas a fria advertência desaconselhava o gesto. Estava
armado, sim. Fingiria me ajoelhar e rolaria atirando. Se ela errasse o primeiro
tiro eu a acertaria. Deixe de brincadeira, Beth, quis dizer, pensando em ganhar
tempo.
Pensei
e percebi tudo. O bar era uma distribuidora de drogas. Beth não era desligada
coisíssima nenhuma. Imagina! O boteco sem ninguém era uma arapuca. Beth armara
pra mim. Alguém devia ter lhe falado de um negrão, escritor-detetive, bonitão e
assim com a polícia. Os comparsas deviam estar chegando a fim de me interrogarem.
Ela ficou emburrada e foi pra cozinha após a leitura no celular. Devia ser um
dos comparsas a alertando do compromisso. A libido dela não assinava protocolo
algum. A exibição era da delinquência: cadastrava-me no sistema da suspeita. Estava
ferrado pra deixar de ser besta. Babaca!
Depressa,
Dr. Artur. Vou contar até cinco. Ajoelhe-se, vire-se, deite-se e venha
rastejando aos meus pés.
Rastejando?
Rastejando terei mais poder de reação, refleti, um pouco aliviado. Rastejo e
atiro. Ajoelhei-me, virei-me...
A
pistola de brinquedo e o sorriso acabaram com a aflição. Respirei forte. Era
realmente brincadeira. Inconsequente, mas era. A brincadeira continuou, agora
com a mulheríssima voz.
Bote
o bundão pra cima, negrão. Deite-se e venha rastejando, dizendo-se apaixonado,
como falou para o meu neto. Prove-me com muita luxúria. Não aceito mixaria, meu
anjo.
Entrei
no clima. Desfiz-me do revólver e comecei a rastejar e a jurar amor. Beth, em
pé, lindíssima, de pistola na mão direita, pupilas dilatadas, derramando
mulher, sorria ameninada. Cheguei aos pés dela, apalpei-lhe os tornozelos. Os
dedos, timidamente, como se envergonhados, começaram a avançar, desavergonhados,
a procura de um porto seguro. Chegaram aos joelhos e ficaram parados nas
rótulas. Em seguida retomaram a penosa exploração anatômica. Atingiram as coxas
e se compadeceram com o trejeito facial da Beth pedindo pressa. Obedientes,
tentaram correr. Conseguiram. Conseguiram, mas toparam em algo sedoso. Embora a
bermuda folgadona lhes facilitasse a turnê, a folgada dona entendeu de
liberá-la: desabotoou-a e a gravidade fez o resto. Os dedinhos não perderam
tempo com a sedosa intrometida, visto a azul celeste ter tomado o destino da
bermudona. Desnutridos, os dedinhos precisavam chegar aos seios, cuja textura é
de primitivo manjar.
Precisavam...
Precisavam mas ficaram pelo caminho. Calor dilatante, mortos de cansados,
língua de fora, encontraram um providencial riacho. Esbaldaram-se.
Refrescaram-se.
Beth
desmaiou. Ou fingiu, não sei.
Amparei-a e a acomodei no piso. Acarpetado,
felizmente. Breve massagem e Beth voltou a si. Ou desfez-se do fingimento, não
sei. Voltou serelepe, monossilábica e chorona. Passado um tempão:
Onde arrumou essa pistola, mulher de Nossa Senhora?
Idiotice de meu genro, meu anjo. Deu o brinquedo ao
filho. Na primeira oportunidade eu escondi ela aqui. Mas nunca a vi como
parceira de tão gostosa aventura. Quando me cantou falando da inocência do
Júlio, pensei no livro, numa cena lida no uber, e tentei reproduzi-la com você.
Passei no teste de atriz?
Passou, Beth. Dez. E dez de quem já conhecia a cena,
viu?
Como assim conhecia a cena, meu anjo da guarda?
É mesmo desligada, Beth. Vá pegar o livro.
Mostrei-lhe minha foto na contracapa do romance.
Demorei longos minutos para fechar a boca da Beth. Consegui
com a língua. Emitidas várias interjeições, ela recebeu uma ligação. Era um
moço de uber. Queria lhe entregar a ração do cachorro.
O moço do uber. Esqueci a ração do Chiquito, Artur. Disse
e foi abrir o bar.
Ei, menina. Vai abrir o bar desse jeito, é?
Foi assim, gente. O livro em questão é de minha
autoria. Chama-se QUÊ?! São 224 páginas escritas sem o danado do “que”. Elizabeth,
Júlio, Fernandinha, Artur e o Panegírico Bar estão nele. Agora me diga uma
coisa. Percebeu que acabou de ler uma prosa (1614 palavras) sem o que. Quê? Duvida?
Então releia. Desligado, hein! E se continuar duvidando passe um imeio para tcarneirosilva@gmail.com que a gente
faz qualquer negócio.
Junho cheios de quês,
TC
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