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Olá, gente,
Tenho falado aqui da loucura que é
escrever. Habitou-se, dançou. Não se livra mais. Parece coisa feita. Vejam. Escrevi
quatro romances. Cada um mais cada um, entenderam? Leitores dos livros e do
blogue? Conto nos dedos. Mas isso não conta. O que conta é o prazer de criar. Então!
Vou escrever o quinto romance. Começa aqui embaixo. Vou criando e postando,
compreenderam? Vocês quatro (tenho quatro leitores cativos) serão testemunhas
do parto. Se o romance já tem título? Não. Espero que me ajude a criá-lo.
Vejamos a abertura do livro. Três laudas
do word.
PARTEIRINHAS SACANAS, VIU?
Estávamos
na terceira caipirinha quando a Silvana suspendeu o blá-blá-blá e olhou-me
fixamente. Vem coisa aí, pensei, acionando a prudência verbal.
Essa
prevenção há tempos me acompanha. De tanto tomarem-me a palavra, terminei me
disciplinando para não me comportar de maneira semelhante. Não apenas não corto
a palavra de ninguém, como demoro uns segundinhos para me pronunciar. Além de
manifestar respeito, estou dizendo ao interlocutor que a fala não foi de
afogadilho, porquanto sopesada. Algumas vezes me desvio dessa norma, mas nunca perante
olhar tão perscrutador quanto aquele da Silvana.
Olha
só, TC. Vamos botar as cartas na mesa. Sou assídua leitora de seu blogue. Amava
seus textos, cara. Tanto que passei a recomendá-los para as amigas. De postagem
em postagem, evoluímos dos comentários virtuais para este encontro semanal,
aqui, no Boteco 891. Tem ideia de quantos meses a gente bate ponto aqui,
Silvinha?
Cinco
meses, acho.
Esse
tempo coincide com o declínio de suas prosas, TC. Desculpe a expressão, mas
seus textos viraram uma bosta, rapaz. Você não mais descreve cenários, aboliu o
travessão dos diálogos, fala muito de barzinho e sexo, repete termos em demasia
e assim vai enrolando. Ontem nos deixava arrepiadas e aperreadas, hoje nos
deixa ensonadas e enojadas. Alguém deve ter influenciado você. Resultado:
perdeu a, a... Como é que você fala, Silvinha?
Espontaneidade.
Tornou-se técnico, artificial, TC.
Isso
mesmo. Desconheço se as estatísticas do blogue refletem essa situação, TC, mas,
daquelas amigas, apenas a Silvinha continua seguindo você. Como falei, a
qualidade de seus textos afundou tão logo passamos a nos encontrar. Talvez não
tenha nada a ver, na nossa cabeça, porém, existe uma explicação para esse
declínio. É, é, é...
O
reticente é levou-me a estimulá-la.
É...
É o quê?
Bom,
percebemos a coisa no primeiro encontro. E a partir dali só aumentou.
Relevávamos, mas a repetição virou problema e nos fez tomar uma atitude. Sabe,
TC, penso assim. Engordamos um problema ao alimentarmos com a omissão. É claro
que o problema pode tornar-se barrigudo se a solução não depender da nossa atitude.
Mas a maioria dos problemas
não são problemas. O problema é a falta de atitude
para enfrentá-los. Esse papo é de atitude, TC. Atitude que você não mostra ao
não se declarar para uma de nós. Você vive nos assediando sexualmente, TC. Seja
com o olhar pidão, seja com as palavras piegas, seja com a demasiada mesura. No
começo, sentíamo-nos lisonjeadas, em seguida, desconfortáveis. Agora chegou o
momento de acabar com a babaquice.
Quem
você quer, afinal? A mim, a ruiva Silvana acomodada no vagão trinta e cinco do
trem da vida, ou a vizinha Sílvia, a morena do vagão trinta e seis? Decida. Declare-se.
Declara-se e caia de bunda com o solavanco do trem. Você é tremendo galinha, TC.
Acabou?
Não.
Não, mas pode falar, TC.
Uma
pergunta, Silvana. Você falou no plural: não sentimos a menor atração por você.
Como ter tamanha certeza em relação à Silvinha?
Somos
velhas amigas, TC. Não há segredo entre mim e ela. Principalmente no campo
sexual
Ah.
Entendi.
Bem,
não atino por que derrubam as minhas prosas. Mas mesmo que soubesse, não
mudaria nada do que venho redigindo. Nunca escrevi pensando em arrepiá-las ou
aperreá-las. Se assim ficavam é porque assim queriam. Outros estímulos, fico a
pensar. Não escrevo exclusivamente para vocês, entenderam? Mais uma coisa. Custa-me
acreditar que fiquem enojadas. Mas ensonadas, sim. Engraçado, Silvana, você
disse que escrevo muito sobre barzinho e sexo. E está num barzinho falando de
sexo. Temazinho desatualizado, não?
Quanto
à paixão pelas duas, lamento desapontá-las. São charmosas, admito, mas não
sinto a menor atração por vocês, garotas.
Fiz
breve pausa. Torcia para que não percebessem a mentira. A verdade é que me
senti atraído antes de conhecê-las pessoalmente. Depois não sabia dizer quem
era a mais gostosa. Retornei à vertente verbal usada pela Silvana:
Entendam,
moças. Vocês me cativaram em virtude dos belos comentários sobre minhas
postagens. Esse carinho não acaba nas letras, imaginava. Pensava em sadia
convivência. Jamais imaginaria que acabasse no desaforo. Se alguém o viu nos
levando à cama não sei. Repito. Não sinto a menor atração por vocês, meninas. É
lógico que nada vai rolar. Não é ridícula languidez, Silvana. É cavalheirismo,
atenção, delicadeza. Confundiram as coisas. Pra mim, são simples leitoras. Confundiram,
não. Usaram de manjada artimanha a fim de que eu me declarasse para alguma. Certo
é que me querem, moças. Mas não se seduz um homem usando esse tipo de esperteza.
É babaca quem imagina que seduziu. Homem gosta de feminilidade, franqueza, afeição.
Desculpem, amigas.
Riam
tanto que espantaram os vizinhos de mesa. A gargalhada, com trejeitos de quindim,
induziu-me a me perguntar: será que acertei? Elas me querem mesmo? Disse ao
tempo que aguardaria a resposta. Enquanto Vanessa, a dona do boteco,
reabastecia a caipirinha, a Silvana recompunha o discurso.
Ah,
meu pai, dai juízo a essa criatura. Grande mentiroso é o que você é, TC. Aposto
que se apaixonou por nós antes de nos conhecer. Depois quis impressionar a
gente, tome frescuras literárias e acabou perdendo a espontaneidade, como diz a
Silvinha. Paixão, TC. A paixão explica tudo.
Falamos
sério, TC. Seus contos perderam a beleza. Mas temos um plano para recuperá-la.
Posso falar? Parece que ficou chateado!
Pode,
Silvana.
Então
tá. Está tudo aqui, falou, dando-me uma folha de papel. A Silvinha vai lhe
explicar. O plano foi dessa sonsinha.
Vamos
lá, TC. Selecionamos dezoito de suas postagens que classificamos de mal-assombradas.
A ideia é você escrever dezoito prosas tomando por base cada uma daquelas dezoito.
Uma antiga, uma nova, entendeu? Pode aumentar a história, pode dar outra
direção ficcional, mas não pode mudar ambientes, nomes, tampouco perfis físicos
e psicológicos dos personagens. É evidente que pode mexer numa coisinha aqui, outra
acolá. O importante é que, numa sentada só, o leitor do texto antigo e do novo
note o paralelismo entre eles. Mas que a compreensão do texto novo independa do
antigo. Simples, não? Topa?
Não
por classificarem as antigas de mal-assombradas, mas pelo desafio. Topo, sim.
Adoro ser desafiado.
Beleza!
O tamanho dos textos fica a seu critério, TC. Na verdade, são dezenove textos e
não dezoito. O primeiro deve se apoiar na conversa que estamos tendo, OK? Vai
descrevê-la, como aquecimento mental, sem usar a letra “A”.
Quê?
Impossível, Silvinha.
Impossível
coisa nenhuma, TC. Você é talentosíssimo. É só ter atitude e começar. Agora
sim, os dezoito textos. Quatro deles devem ser escritos sem as outras vogais
e...
É
sério? Minha nossa! Estão malucas?
Entenda,
TC. Um texto sem o E, um sem o I, um sem o O e um sem U. Não é tudo num texto
isolado, não.
Mesmo
assim. Continuam sendo malucas.
Malucas
ou não, vamos continuar. Ainda como aquecimento, vai redigir um texto sem o M,
um sem o N e um sem o S. já temos sete contos, não é isso?
Muito
bem. Agora como corretivo, já que condenado pela repetição dos vocábulos que
vou enumerar, deve escrever um conto sem o “que”, um sem o “se”, um sem os
pronomes “meu, minha, seu, sua” e um sem o “teu, tua, nosso, nossa”. Chegamos
ao desafio onze. Faltam sete, TC. Vejamos outra sequência.
Precisamos
de uma prosa sem vírgulas, uma só com monossílabos e dissílabos, uma só com
trissílabos e polissílabos, uma sem repetir palavras, exceto os conectivos.
Agora faltam três prosas, TC. Continuemos:
Uma
sem adjetivos, uma sem advérbios, uma sem gerúndios. Não pode a classe
gramatical. Locução pode. Mas sem abusar.
Lembre-se,
TC: textos puxados de postagens antigas, idênticos títulos, inteligíveis e de
extensão a seu critério. O leitor só vai perceber as atipicidades escritas porque
já leu ciente delas, compreendeu?
Já
imaginou qual dos mostrengos seria mais horroroso, hein, Silvinha?
Como
assim, seria? Vai fugir da raia, TC?
É
claro, Silvinha. Seria insano e patético se compactuasse com a idiotice. Tome
seu papel. Tô fora. Não acredito que vocês...
Acredite,
cara. Chama-se chutar a mesmice, TC, interveio Silvana.
Veja.
Suas prosas ficaram capengas. Isso é fato. Também é fato que fica nos
assediando sexualmente. Mas fato também é que provocamos você, cara. Adicionamos
fermento à vontade nesses fatos, TC.
Bem,
estamos cumprindo uma missão. Ajudaríamos você e ela. Para ganhar o prêmio,
digamos assim, precisaria escrever da forma que a Silvinha falou. A ideia era
que nos entregasse aqui, no Boteco 891, e sempre aos domingos, os textos produzidos
na semana. Mas o nosso julgamento sairia somente no último texto. Daqui a uns
três meses, suponho.
Aluado
algum escreveria essas bobagens em menos de quatro meses, Silvana.
É
verdade. Dezenove escritos... De qualquer maneira, acho que você podia pensar
no assunto, TC.
Então!
Vamos de quê? Voto em camarão. E você, Silvinha? Você, ficcionista medroso?
Dei
um tempo para responder. A curiosidade não deixava. Por fim:
Quem
é ela, Silvana? Alguma editora? E que porra de prêmio é esse?
Ela
é a libido, TC. A minha e a da Silvinha. A libido concebeu a provocação, você
deveria parir os dezenove rebentos e nós seríamos as parteiras. E o prêmio, TC,
seria uma de nós. Explico. Caso considerássemos péssimos os seus textos, eu ou
a Silvinha – você escolheria - daria uma saidinha com você. Se textos mais ou
menos, a saidinha viraria ardente noitada. Textos excepcionais, a moça passaria
um fim de semana com você na excitante praia de São Miguel do Gostoso. Nessa
hipótese, e se você topar... Bem, como escritores de seu naipe vivem na
pindaíba, a escolhida arcaria com as despesas. A resignada criatura faria tamanho
sacrifício em nome da literatura, TC.
Dê-me
o afrodisíaco papel, Silvana. Dá pra escrever tudo em quinze dias.
As
gargalhadas voltaram a espantar os vizinhos, e os trejeitos de quindim
deixaram-me eufórico.
Talvez
numa semana, suas diabinhas, reforcei, babando exagero e excitação.
É
isso, gente. Na próxima semana devo postar o primeiro texto, o escrito sem o A.
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