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O CARNEIRO E CARNEIRO
Madrugada. O hospital, a exemplo de Natal, dorme. Parte de Natal e parte
do hospital, quero dizer. Digo assim, porque parte do hospital está gemendo. E parte
de Natal está sendo assaltada. E parte assaltando, por óbvio.
Vejo diante de mim um carneiro malhado. Penso que estou sonhando. Bom sonho,
vou jogar do primeiro ao quinto. Veio mesmo na hora. Ando com tanta prestação
atrasada, meu Deus.
O carneiro olha-me fixamente.
Está bem, amigão. Agora pode ir bordejar. Depois você volta, sim?
Sério, o carneiro não se mexe.
Vai, carneirinho, vai. Seja camarada. Preciso sonhar outras coisas. É a
única hora em que sou dono de tudo, entende?
O animal chega-se mais perto de mim, roça-me o braço. Sentindo-lhe o
cheiro, noto que é de verdade. Recuo.
Essa não! Que é que você veio fazer aqui, criatura? Dê o fora, vamos.
Repilo-o com jeito manso, mas o carneiro não se mexe, encarando-me
sempre.
Aiaiai! Bonito. Desculpe, mas a senhor tem de sair com urgência, isto
aqui é um estabelecimento público. (Achei pouco satisfatória a razão.) Bem, se
é público devia ser para todos, mas o senhor compreende… (Empurro-o docemente
para fora, e volto à cadeira.)
O quê? Voltou? Mas isso é hora de me visitar? Está sem sono? Que é que
há? Gosto muito de criação, mas aqui no hospital, antes do dia clarear…
(Acaricio-lhe o pescoço.) Que é isso! Você está molhado? Essa coisa pegajosa… O
quê: sangue?! Por que não me disse logo, carneirinho de Deus? Por que ficou me
olhando assim feito bobo? Tem razão: eu é que não entendi, devia ter morado
logo. E como vai ser? Os doutores daqui são dez, mas carneiro é diferente. Não
sei se eles topam. Sabe de uma coisa? Eu mesmo vou te operar!
Corro à sala de cirurgia, pego
um bisturi, uma pinça. Na farmácia, pego
mercurocromo, sulfa e gaze. E, num canto do hospital, assistido por dois
serventes, enquanto o dia vai nascendo, extraio do pescoço do carneiro uma bala,
ali cravada quando o bichinho, ignorando a crueldade do cotidiano natalense,
passava perto de uns bandidos que faziam um arrastão num bar.
O carneiro deixa-se operar, com a maior serenidade. Seus olhos envolvem-me
numa carícia agradecida.
Marcolino. Dou-lhe este nome em lembrança de um carneiro que tive quando
criança, no Araçá. Está satisfeito, Marcolino?
Muito, TC.
Sem reparar que o carneiro aceitara o diálogo e sabia o meu nome,
prossegui:
Como foi que você teve ideia de vir ao Walfredo? O Hospital Veterinário
é na Cidade da Esperança, moço.
Eu sei, xará. Mas você não trabalha na Cidade da Esperança, não é? Trabalha
no Walfredo.
E daí?
Daí, preferi ficar por aqui mesmo e me entregar a seus cuidados.
Falar em cuidados, tenha muito cuidado quando for dar seus bordejos. Teve
a prova hoje. Não confie nessa sua testa dura, não, entendeu? Tem muitas feras
a solta por aqui, meu irmão. Outra coisinha. Você me conhecia?
Não posso explicar mais do que isso, TC. Carneiros não sabem muito sobre
essas coisas. Sei que estou bem a seu lado, que você me salvou. Obrigado, TC.
E lambendo-me afetuosamente a mão, cerrou os olhos para dormir. Bem que
precisava.
Aí levei um susto:
Que negócio é esse: carneiro falando?! Nunca vi coisa igual na minha
vida. E logo comigo, meu pai do céu!
O carneiro descerrou um olho sonolento. Por cima das barbas parecia
esboçar um sorriso:
Você não se chama Carneiro? Então. Além de ser meu xará, gosta de todo
tipo de animal. Que tem isso, trocar umas palavrinhas com você?
Não respondi por causa de certa comemoração. O sol vinha chegando. E com
ele a alegria dos bem-te-vis:
Bem-te-vi, te-vi, bem-te-vi, te-vi...
Novembro/17
Tião Carneiro (TC)
Sabe, gente, esse
texto é um plágio. A ideia foi do mestre Drummond. Ele escreveu A Cabra
e Francisco, in 70 historinhas. (Logo vi, está dizendo, não é? Você,
hein! Destá, viu?). Já leu a Cabra do Drummond? Então leia. É um lirismo só.
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