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CARANGUEJOS NÃO PRECONCEITUOSOS
É evidente, não? Preconceito é coisa de humanos, daí que é pura
lambança esse título. Por que, então... Ora por que? Porque eu queria que você
fizesse um pré-conceito do texto: prosa brincalhona, legal. Vou lê-la. Negócio
de escrevinhador besta, entendeu? Não? Pois diga! Quer o desenho? Veja os traços:
Estava no banheiro quando ouvi a
risada do peste. Bião é assim. Vive rindo de tudo. E também de nada.
Tá no banheiro. O que tem nessa
sacola, Bião? Um presente pra mim, é?
Decápodes de pernas cabeludas,
minha querida. É pra você, sim. Pra você botar no fogo que é pra gente comer
com cachaça. Eu e seu marido.
Saí do banheiro e fiquei
escondidinho, brechando. Imaginava os tais decápodes no piso da garagem e
antevia o barraco. Bião tirava duas cordas de caranguejos da sacola.
Quê? Caranguejo? Tô fora. Deus me livre guarde de maltratar bichinhos tão alegres. Botem no
fogo vocês. Por que logo eu, Bião?
Porque é serviço de mulher, ora
bolas!
Deixa de ser babaca, Bião.
Iniciada a resenha, fui
me vestir.
Aquela era a maneira de a dupla se comunicar. Preconceito pra lá, não
preconceito pra cá, costumavam levar um tempão naquela brincadeira. Mas, para
desconhecidos, o entrevero parecia real, tal a eloquência do fingimento raivoso.
Não passaram cinco minutos de xingamentos, ouvi o alarme de Tânia, seguido do
pedido de Bião:
BIA! Ah, meu pai!
Espera!
Corri. Ou melhor, corremos na
direção dos gritos. Eu, do meu quarto; Fernanda, do quarto de hóspedes. Chegamos a tempo de ver Tânia botando Bia nos
braços e Bião examinando uma foto no celular. Bia, sete meses, é minha neta.
Fernanda é sobrinha de Tânia, mora em Portugal, estava passando as férias
conosco. Bia chorava, já que não entendia por que a separaram de seus
brinquedos. Nós olhávamos a foto e também chorávamos. Intimamente, é verdade.
Bia estava com dois dedinhos entre a patola de um caranguejo, a mão esquerda
fazendo carrinho de outro. Mas sem adjetivos era a cena dum peludão passeando
nas perninhas dela. Bia, desdentada, sorria, e os pelos dos caranguejos
pareciam dentes à mostra.
Bião esmurrou o silêncio:
Mulher é bicho desastrado, TC. Como
é que uma avó deixa...
Com essa deixa recomeça o
quebra-quebra verbal. Fernanda toma o lugar da tia:
Misericórdia, criatura! Haja paciência,
viu? O senhor deve ser íntimo da
família, deve estar a brincar com a minha tia, assim como estava a se divertir
há pouquinho tempo. O senhor me desculpe, mas brincar de preconceito é de uma
insensatez sem limites. Até porque, na maioria das vezes, não é brincadeira. É tão
somente a forma que o preconceituoso encontra para expelir suas verdades. Nossos
miúdos não distinguem isso, moço. E esse isso vai pra mente deles, vai se
propagando, propagando, propagando... É por causa de manifestações desse tipo
que o estoque de preconceitos não baixa. Depois, gente como senhor fica no
lenga-lenga: isso é cultural, cultural, cultural...
Aqui, Tânia fez um risinho de canto
de boca, afastou-se deles e falou-me baixinho:
Agora Bião vai ver o que é bom pra
tosse. A paciência de Fernanda se apaga num sopro. Ela não alivia, amor. Viu,
nem esperou ser apresentada e já entrou de sola no pobre do Bião. Vão terminar
se atracando, você vai ver. Grave aí pra gente botar no grupo. Já postei as
fotos de Bia.
Liguei o áudio do celular:
Anotei algumas besteiras suas,
moço. O senhor disse que não é preconceituoso, falou muito de opinião, liberdade
de expressão, direito de não gostar, respeito. E a tolice maior: premissas do
bem. O preconceito é sempre uma premissa falsa, moço. Melhor: o preconceito
nasce de premissas falsas. Opinião, liberdade de expressão, direito disso,
daquilo, por exemplo, são termos concebidos - vezes por ignorância, é certo -
no leito da semântica tendenciosa.
A senhora deve ser uma dessas
intelectuais feministas que...
Deixe-me terminar, moço. Dou-lhe a
palavra em seguida.
“Na minha opinião, não é
preconceito não gostar de negro e de gay. Respeito todos, mas tenho esse
direito. Tenho o direito de me expressar”, disse o senhor. Opinião, moço, é
algo construído com a reflexão. Porque não entende isso, muita gente, o senhor
no meio, lê um post preconceituoso e, apressadamente, termina dizendo “na minha
opinião é isso mesmo”. Resultado: se essa gente tiver poder de mando – e espero
que o senhor não tenha – vai virar a cara, negar um emprego, ou coisa
correlata, para o negro e o gay. Vai discriminar esse povo, entendeu? Vai violar
o princípio legal de que todos os brasileiros têm direito ao tratamento
igualitário. Isso está no ordenamento jurídico brasileiro. Preconceito é crime,
moço.
Perceba a sequência. Preconceito,
discriminação, transgressão. Fizesse essa reflexão, muita gente, o senhor no
meio, não teria a maldita opinião, não falaria a tolice de que tem o direito
disso, daquilo. Direito de ser preconceituoso! Nossa!
Raciocine. Digamos que o senhor mate uma pessoa. O senhor fica sujeito
a um processo criminal, porquanto sua conduta ter infringido a norma que
estabelece como dever legal não matar. Note o bem jurídico: o direito à vida.
Pois
bem. A lei brasileira estabelece que certas condutas, a maioria das quais entendo
ser o senhor useiro e vezeiro, são consideradas crimes de discriminação ou de
preconceito. O senhor, portanto, anda sujeito a um processo criminal. Perceba o
bem jurídico: o direito ao tratamento igualitário.
A
diferença, moço, é que, enquanto no primeiro caso há um corpo esticado no chão,
no segundo, quem está estendida é a autoestima do desgraçado que não preenche
seus requisitos de pessoa confiável, tão só e simplesmente por ser isso ou
aquilo. Quem está estirada aqui é a evolução desse ser humana, percebe, moço? Ou
seja, lá o indivíduo morre duma vez, aqui ele vai morrendo, morrendo, morrendo.
Entenda,
senhor. Assim como pode matar, estuprar, roubar, o senhor pode discriminar.
Quem manda no senhor é o senhor. Só não pode, o senhor e ninguém, é se escorar
no direito assim, assado, na liberdade tal e qual, na opinião qual e tal, para
justificar seu crime.
Percebeu
como o preconceito nasce sempre duma premissa falsa? Notou a idiotice de “premissas
do bem”? Premissa falsa, isso sim. Premissa falsa, raciocínio falho, conclusão
desastrosa. Esse é o caminho do preconceito, moço.
O
senhor disse que respeita todo mundo. Respeita uma ova. Respeito é atitude, não
ajuntamento de letras ou som vocálico. Respeito é sorriso interno, não postura
externa para a pessoa não parecer careta.
Isso
aqui pra nós, moço, preconceito, esse do qual estou a falar, é a negação da
raça humana. Devíamos agir como os caranguejos agiram com a Bia. Deram-lhe amor
sem sequer saber a qual raça ela pertencia. De mais a mais...
Nesse
ponto, resolvi me intrometer. Mesmo porque, Bião não esboçava reação alguma. Minto:
era puro encantamento.
Está
bom, gente. Bião, Fernanda, é meu primo e...
Contei-lhe
tudo. Da habitual brincadeira com Tânia ao respeitado hoteleiro que era. Do
carinho que seus funcionários tinham por ele aos prêmios recebidos de
instituições internacionais.
Bom,
esclarecimentos feitos, risos extintos, fomos os três, eu, Bião e Fernanda,
preparar os caranguejos. Tânia faria o pirão. Já comeu pirão de caranguejo,
leitor? Santo remédio para fastio. Menino biqueiro desasna na primeira
colherada. Enquanto os caranguejos ficavam prontos, fazíamos tira-gosto com
caju. No fim da caranguejada, tínhamos derrubado um litro daquela de primeira
cabeçada, a que faz o rosário no copo. É lógico que consertamos a Educação
brasileira, encontramos solução pra tudo, melhoramos o mundo.
À
medida que a conversa avançava, seculares gestos, gestos formuladores de
conceitos íntimos, digamos assim, mais eram liberados por certo casal. Certo é
que Fernanda foi conhecer o complexo hoteleiro de Bião.
Não
disse que iam terminar se atracando?
Não dei
ouvidos ao comentário de Tânia. Estava dando uma patinha de caranguejo a Bia.
Bia
não aceitou. Virou a carinha e falou algo. Como saber em que língua ela falou?
Dezembro/17,
mês do batizado da Bia,
TC, o
avô coruja
Sou
ladrão, leitor. Vivo roubando ideias de gente sabida. Roubei de Thaís Nicoleti
a ideia desse texto. Thaís é consultora de língua portuguesa da Folha e do UOL.
Escreve delícia atrás de delícia no caderno educação da Folha. Roubei não só a
ideia, mas também algumas expressões. Roubei a ideia da postagem de 02/11/2017,
cujo título é O PRECONCEITO É SEMPRE UMA PREMISSA FALSA. Abra a folha e leia.
Dez, gente!
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