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DETERMINADOS
Segundo Drummond, foi o rapaz do
posto de gasolina quem primeiro viu os três vultos. Caminhavam a pé, sem pressa, no leito dos
carros, indiferentes ao risco. Motoristas jogavam-lhes palavrões, sem que eles
se importassem. Estavam vestidos de maneira inabitual: um de vermelho, outro de
verde, outro de roxo. As roupas se assemelhavam a túnicas e usavam boinas amarelas,
pontiagudas, aparentando coroas. Pareciam personagens de filmes históricos.
Os estranhos estavam a quinze metros
do posto. O rapaz teve vontade de se antecipar e perguntar o que desejavam. Mas
deteve-se. Eram três homens, ele estava desarmado, não sabia que espécie de
gente era aquela.
O mais alto deles ficava ainda mais
esguio olhando para o céu, como quem indaga o tempo. Os outros miravam um ponto
vago, esperando decerto que ele comunicasse o resultado da inspeção. Não houve
palavras, entretanto. O homem comprido baixou a cabeça e fitou os companheiros.
Entendiam-se pelo olhar. Não careciam de palavras, ou temiam empregá-las.
Tratava-se, realmente, de indivíduos suspeitos.
Mas a suspeição foi logo embora. O
rapaz do posto — já é tempo de chamá-lo Levi, pois assim fora batizado e
registrado, embora os colegas o chamassem de coletor — imaginara no primeiro
instante que fossem ladrões. Depois, pela excentricidade dos trajes,
supusera-os simplesmente loucos. Decidiu-se e foi ao encontro deles:
Oi, posso ajudar em alguma coisa?
Deram calado como resposta.
Falam não, é? Tão com medo da
chuva? O céu tá limpo.
Outra
resposta calada.
Ah, malucos mesmos.
Levi deu de ombros, fez uma selfie
e postou no grupo do futebol: “Apareceram do nada. Acho que saíram do mar. Não
falam, não escutam, não têm medo de carro”.
Estão imaginando, minhas lindas, no
que deu a postagem do Levi? Isso mesmo. Deu no que deu.
Bom,
os estranhos deixaram
a rua do posto e pegaram uma avenida que os levaria ao
centro da cidade. Já é tempo de chamar de Natal a cidade, pois assim ela passou
para a história, já que fundada num 25 de dezembro, data do... Ah, essa parte é
universalmente conhecida. Também já é tempo de dizer que o posto de gasolina do
Levi ficava num local conhecido como Praia do Forte. Conquanto ainda haja
tempo, é bom aproveitá-lo para informar que tal episódio aconteceu no dia 30 de
dezembro de 2017.
Tempo é ouro, vamos adiante.
Acompanhemos os malucos, como os definiu Levi. Buzinadas, xingamentos, logo a
polícia chegou. Até porque o trânsito estava ficando caótico, já que simpatizantes
desciam das calçadas e começavam a segui-los. Vida que segue. Seguiam e ficavam
os comentários: babacas, palhaços de circo, marketing de alguma coisa, extraterrestres,
doidos mesmos.
Parem. Quem são vocês?
Três vezes o policial deu essa
ordem. E três vezes a resposta veio calada. O agente pegou ar e avançou na
cintura de um deles, um baixinho entroncado. Abraçou apenas o ar. Desequilibrado,
caiu de bunda pra cima. Irado, armou um bofete e pimba. Passou batido. É
evidente que logo a bunda pra cima estava arreganhada nas redes sociais, a receber
afagos da selfie do Levi.
Passados cinco minutos, chega o
reforço policial. Confabulam. Agora são seis policiais. De mãos dadas e em
círculo, deixam os estranhos no centro da roda. Vão avançando, fechando a roda.
Terminam abraçando o ar e se abraçando: o trio está adiante, o esguio olhando
as nuvens.
A caminhada prossegue.
Prossegue igualmente a gozação na
internet. Gozação para os grupos de divertimento. Mas preocupação para os
grupos de segurança. Estes entram em alerta máximo. Quem são aquelas criaturas que
ninguém consegue tocá-las? E aparecem logo em Natal, sítio geograficamente
estratégico para a segurança mundial. Agências internacionais de inteligência nunca
trabalharam tanto.
A caminhada prossegue.
Três horas depois, por volta do
meio dia, o trio chega ao centro de Natal. Nessas alturas, com a ajuda dos
guardas de trânsito. TVs na cobertura, com direito a debates de cientistas
disso, daquilo e daquilo outro, o mundo acompanha a patética maratona.
Talvez pelo calor, quem sabe pelo
barulho, quiçá por ambos, certo é que os protagonistas da passeata ficaram
perdidos no centro. O compridão mirava o céu, baixava a vista, olhava os
companheiros. Em seguida davam quatro, cinco passos prum lado, voltavam,
pegavam outra direção. Ficavam zanzando, por assim dizer. Não conseguiam
localizar a avenida que os levaria à zona oeste da cidade.
Zona
oeste? É sério? O senhor sabia que eles queriam pra lá? É isso? Nossa!
É claro, minha linda Suzana. Sabia
de tudo. Tinha conhecimento da missão deles.
Contava esta história a duas
amigas, pensava em não as identificar, mas a veemente indagação de uma delas me
dizia que chegava o tempo de chamá-las Raquel e Suzana, pois com tais nomes
foram batizadas e registradas. Acompanhava a narração, embora com aspecto de entediada,
a minha neta Bia – batizada e registrada como Beatriz.
Respondi à Suzana e notei a carinha
de desaprovação da Beatriz. Lá vem bronca, pensei:
Ah, não, vô. Tenha santa paciência.
Conheço essa história de cor e salteado e... Olha só, tia Quel, o vô me conta
essa história todo o mês, todo o mês, todo o mês. De 2017 pra 2025 dão 8 anos. E
12 vezes 8 dão 96. São 96 relatos, vô, e o senhor nunca me falou que tinha
conhecimento da coisa.
Ele sempre tira ou bota um
detalhezinho, mas agora, tia Quel, o vô passou do limite. Dizer que sabia de
tudo foi uma grande, grande, grande... Misericórdia! Como assim, sabia,
criatura?
Desculpe não ter lhe falado desse
insignificante detalhe, minha linda. É que...
Insignificante?! Vá, prossiga. Sei
não, viu, vô.
Pois então... Gostei do raciocínio
aritmético, viu, minha linda?
Pois então, nossos amigos
precisavam de um orientador terrestre, entendem? Desliguei a TV, fui para o
centro e me juntei à multidão que os seguia. Logo o olhar do varapau cruzou com
o meu. Então comecei a dirigi-lo com o queixo. Empurrei-o para a AV. Rio
Branco, sentido zona oeste. Esperto, aqui, acolá ele olhava direto pro céu, mas
de esguelha pra mim, e tome queixo. No vamos que vamos, chegamos a certa
esquina, à direita uma linha de trem. Queixo pra linha e mais uma queixada de
reta. Tudo nos trilhos, adiantei-me e fiquei escorado no portão de casa. Ficamos,
pois uma jovem havia me seguido:
Oi, o senhor mora aqui? Desculpe, mas vinha
notando os seus sinais para o magrinho compridão. Eles vêm pra cá, não é? Sou a
Andréia Sadi, repórter da Globo. Deixe-me entrar com os senhores. Serei
discretíssima, aconteça o que acontecer. Entrarei sozinha. Se não quiser que eu
entre ao vivo, gravo as imagens e depois... Por favor, eu...
Gosto de profissionais realmente
profissionais. Daí que debitei a falinha trêmula na conta da excitação e não
titubeei:
Entre e fique no pé do portão. E
pode entrar ao vivo.
Entrou. Em segundos entramos nós -
o altão na frente. Fechando o portão e ouvindo impropérios da rua, escutei as
mesmas palavras e ao mesmo tempo:
Ufa! Obrigado, Sr. TC. Cadê a Bia?
Deve estar na sala, dormindo na
rede. A Bia adora estirar as pernas numa rede. Quatro meses dorme, não é? Vamos
lá?
Vamos. Se ela estiver dormindo,
deixaremos os potinhos de aniversário debaixo da rede.
Falaram tirando a coroa.
E assim foi. A Bia estava no
primeiro sono. Enquanto formavam fila para beijá-la, dei uma corujada nos
potes. Imaginava incenso, mirra e ouro. Acertei apenas o ouro. Ouro em pó. Os
outros potes eram de bondade e de integridade.
Já que a família enchia a cara nos
fundos da casa, achei por bem convidá-los para nos acompanhar num viozinho.
Nisso a Bia desperta. Botei os potinhos nas pernas dela:
Presente pra você, minha linda.
É tempo de falar do poder da
intuição, mas como já intuo certas fadigas, descrevo apenas o ato da repórter, Andréia:
mesmo de queixo caído, olhos molhados, nariz aceso, a bela levou o microfone às proximidades da Bia. Então,
além de se deleitar com um sorriso banguelo, o mundo ouviu, em cores e ao vivo,
as primeiras palavras da Bia:
BRIGADA, MEUS REIS
Festeiro dezembro/17/25,
TC
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