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A CARTA DO
VELHO
Querido TC de meu coração,
Espero que ao receber essas mal
traçadas linhas esteja a gozar de perfeita saúde junto dos que com você labutam.
Um beijo no coração de todos e de todas. Por cá, eu e os agregados vamos indo como
Deus quer e consente. Desculpe, TC, esse todos e todas. Tenho lido suas prosas,
sei que não gosta dessa expressão. Mas saiu, meu rapaz. E, como vai acabar
descobrindo, não posso apagá-la. Não só por estar escrevendo de caneta, mas
também por uma questão lógica, cósmica mesmo.
Ah, cara, é hora de lhe pedir duas
desculpas. A primeira é por você estar quebrando a cabeça para saber quem é o
maluco que jogou, sem assinatura, tão cafona carta na sua caixa de correspondência.
A segunda tem a ver com a linguagem. Sabe, TC, fico meio confuso na hora de
redigir. Ora uso termos antigos, ora modernos, ora gírias. As tais das redes
sociais mexeram em meus parafusos literários, TC. Destarte e contudo, continuo caminhando,
sem olhar para trás, senhor de mim, entende?
Escuta só, TC de meu coração. Sou tão
velho quanto se queira. Não o Siqueira seu amigo de boteco, mas o da sua imaginação.
Pois bem, apesar de matusalêmico, não vivo alquebrado. Tô novinho em folha,
bicho. Por que escrevi pra vosmecê?
Fi-lo porque qui-lo. Brincadeira. Dir-lhe-ei
no momento oportuno, mano. Mas esse é o momento oportuno de revelar o momento
da carta: começo de ano, TC. Como foi o seu 2017? Começo de ano, TC, é a época
do balanço da vida, do massacre ao ano finado, ainda que antecéu ele tenha
deixado. O período da foice, no dizer de dois grandes amigos de copo, o Fernando
e a Adriana. Falavam assim, um imitando o outro, balançando o copo de uísque,
olhando pra cima, mas de través pra mim, como se culpado eu fosse das
desventuras deles:
Foi-se mais um ano, foi-se alguns
amores, foi-se vários amigos, foi-se parte do cabelo, foi-se nove vírgula seis
dos neurônios, foi-se a barriguinha seca, foi-se meu açucareiro de porcelana,
foi-se o brilho de meu saxofone. E assim, TC, de foi-se em foi-se eles iam se cortando
de lembranças. Bom foi que anos atrás, eles fizeram o rosário do foi-se e
terminaram a uma só voz: foi-se aquele antigo projeto.
Não sou de me estressar, quando
muito me aborreço, mas tiro de letra tais aborrecimentos, caro TC. Ocorre mais
ao caminhar no calçadão da vida. Sempre aparece um engraçadinho, ou
engraçadinha, para comentar: “Custa andar mais ligeiro”? ou “Vai pegar o trem? Por
que tanta pressa”? Às vezes, TC, em minutos, os mesmos personagens trocam de
posição. O que estava com pressa quer que eu caminhe devagar e vice-versa. E versa-vice
também. Aí me lembro do velho A E. Dizia Einstein: Sabe, Inflexível (era assim que ele me chamava), o homem é
inconsistente. Falava, coçava o bigode e sorria com o canto da boca. Vou fazer um puxadinho, TC, para relatar um episódio ocorrido entre mim e ele. Sucedeu o seguinte.
Estávamos numa tabacaria, A E dando
cachimbadas, o dono da tabacaria tentando acender seu cachimbo e o vento
apagando a chama do fósforo. A E perdeu a paciência: só vai conseguir se mudar
de posição, amigo. E no meu ouvido: pequena amostra da estupidez humana. E novamente
alto: Meu caro Inflexível, você, viajor de nascença, senhor do mundo, me diga
uma coisa. Será que o universo é mesmo infinito? É, respondi. Você tem dúvida,
Bigodudo? (assim eu o chamava, TC). Tenho. Penso assim, Inflexível. Duas coisas
são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo,
ainda não tenho certeza absoluta. Muito bom, muito bom, disse o dono da
tabacaria.
Bem, naquele dia me estressei com
os amigos F e A. Levantei-me e dei um murro na mesa:
Aguento tudo, mas nunca o foi-se do
antigo projeto. Vai-se o ano, mas o projeto fica. O que de vocês se foi foi o
interesse.
Dei-lhes uma lição de vida, ficaram
emburrados, cortaram a relação, TC. Quer dizer, o Fernando, a Adriana me
procurou no ano seguinte e derreteu o coração deste velho.
O interesse, TC, é a chave de tudo.
Se você não o tem por alguma coisa, morreu maria preá. O danado é quando você
está interessado em algo que é discorde com o de outras pessoas, porquanto o interesse
convergente é um abraço. Aliás, aconchega-me uma ideia, TC de meu coração. Seguinte.
Elabore uma equação que faça interesses antagônicos convergirem. Isole o xis da
questão e passe para a história, homem. A Reforma da Previdência de vocês
brasileiros poderia ser equacionada assim, ó: X é igual a atitude ao quadrado,
menos mentira ao cubo, menos log de dissimulação, menos divergências
conceituais, mais transparência elevada a dez, vezes a variância de... Ah, o
mestre é você, TC.
A propósito, TC, tenho interesse em
que você caminhe comigo, topa? Por quê? Porque você, TC de meu coração, é a
única pessoa do mundo que não me usa como pretexto de nada. Daí essa carta-convite,
entendeu?
Sim, antes de encerrar esta missivinha,
devo informar o motivo pelo qual a Adriana derreteu meu coração. Falou-me com
estas palavras:
Desculpe, TP, pelo ano passado, por
tê-lo chamado de gagá. Bebi demais, meu velho. Sei do seu valor.
Não fosse você, não existiria
saudade, retrato, suvenir, antiguidade, história, época, período, calendário,
outrora, passatempo, novidade, creme antirrugas, disputa por pênaltis,
antepassado, descendente, dia, noite, nada. Não existiria sabedoria, eu sei
disso.
Só cabia a mim me derreter,
concorda, TC de meu coração?
Tchau!
É claro que acetei o convite do TP,
gente. Vou caminhar com ele.
Tudo tem seu tempo, não é verdade?
Janeiro/18
TC
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