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COISAS DE MATUTO
Lamento,
Sr. Mião. Só me resta pedir desculpa. O senhor seria o próximo.
Acontece.
Acabo de lhe tirar a culpa, minha jovem. Sua. Da clínica, não. Mas médica nem
pensar. Prefiro um médico.
Por
que não médica, Sr. Mião? Ah, desculpe de novo. Não devia ter feito a pergunta.
Saiu sem eu querer.
Acontece.
Concedo-lhe a indulgência, minha jovem. Presciência. Chama-se presciência a
minha resposta. Por gentileza, pode cancelar.
Podia
ser pela incomum linguagem, talvez pela voz de trovão, quiçá pela baixíssima
estatura de cabeça raspada, quem sabe pelo bermudão na batata das pernas e o
camisão quadriculado, mas possivelmente pelo conjunto da obra, certo é que o
Mião estava acostumado a ver ambientes lhe dirigir sorrisinhos irônicos e a
ouvir pelas costas o “que figura!”. E gostava da exclamação.
É.
É, sim, costuma discordar Mião. Mião para os estranhos, já que os amigos o
tratam por BIS. Chamam-no assim em razão do óbvio Baixinho Invocado. O S entra
em virtude da extrema empatia que dele brota. Junta menino a fim de ouvi-lo. Mião
só se chateia quando querem paparicá-lo e soltam a corriqueira expressão de que
tamanho não é documento. Discorda assim:
Tamanho
é documento, sim. Raciocinem, amigos.
O que é documento? Documento é um papel identificador,
um abre portas, objeto facilitador do dia a dia das pessoas. Algo bom,
concordam?
Continuemos.
Se, como apregoam, tamanho não é documento, e documento é algo bom, o não
tamanho é, forçosamente, algo ruim, concordam de novo?
Avancemos
ilustrando. Tenho facilidade de pegar algo num lugar elevado? Abro uma porta,
cuja tranca esteja acima de um metro e cinquenta? Não, é claro. E isso é bom?
Não, é claro. Isso prova que o não tamanho é péssimo e que o tamanho é benesse,
documento, o cara, pois facilitador e abridor de portas. Tudo é bolado para os
medianos e altinhos, gente.
Vejam.
Qual o clube de futebol, vôlei ou basquete que vai me contratar? Onde está o
viés positivo de ser baixinho? Deve haver, por certo, mas de relevância
desproporcional aos varapaus. É lógico que há que se ver tal dicotomia com
parcimônia, pois se é verdade que tudo de mais é muito, verdade é também que
tudo de menos é pouco.
Mião
se expressa assim, paga uma rodada de pinga e escuta dos parceiros:
Genial,
brilhante, irretocável.
Mião
vai além:
Sabem
os senhores quem inventou esse papo furado de que tamanho não é documento?
Foram elas, gente. A fim de não desagradar (o que é diferente de agradar) certos parceiros, elas saíram mundo afora dizendo que o que conta mesmo no milenar jogo é,
nas entrelinhas e nesta ordem: prólogo, intensidade, carinho, amor. Dizem mais:
não nos interessa o tamanho das cartas, sejam reis, sejam valetes.
Balela,
amigos, prossegue o Mião. Ponham na frente delas um reizão e um reizinho e lhes
deem a alternativa. Concordam novamente? Preciso dizer mais alguma coisa?
Mião
sempre termina essa explanação sob aplausos. De pé e demorados, registre-se.
Bom,
Mião pediu que a atendente cancelasse a consulta e despediu-se sorrindo:
Tenha
uma boa tarde, minha jovem.
Despediu-se
e ficou estático, porquanto no exato momento uma jovem médica saía do
consultório vizinho à recepção. Despedia-se do paciente:
Tenha
uma boa tarde, meu jovem.
Em
meio aos risos em razão da coincidência verbal, a médica pediu que a
recepcionista chamasse o próximo paciente.
Não
há pacientes, Dra. Sônia. O último seria esse senhor, o senhor Mião, paciente
do Dr. Anderson. Mas o Sr. Mião acabou de cancelar a consulta. Prefere ser
atendido por um médico.
Nada
contra a senhora, doutora. É coisa minha. Coisa de matuto, entendeu?
Falante
todo, Mião liberou verborragia pra cima da doutora. Começou com galanteios:
Sabe,
doutora, a senhora deve ser muita rica.
Como
assim, rica, Sr. Mião?
Vou
correr o risco de ser tachado de insolente, doutora, mas só uma pessoa rica
consegue pagar pedágio diariamente por excesso de beleza.
E
assim, Mião se amostrando para a doutora, e a doutora se mostrando boa ouvinte,
foram se afastando da recepção. Até que a doutora quis saber o porquê da
prevenção contra médicas.
Não
é isso, doutora. Ocorre que meu problema é na região genital. Aliás, não sei
bem se meu caso pode ser tratado por dermatologistas. Daí que morro de vergonha
só em pensar que uma médica vai... Enfim...
Tolice,
Sr. Mião. Mas entendo. O senhor não é o primeiro... Me diga uma coisa. Tem
secreção?
Não.
É tudo enxutinho, doutora. São carocinhos esmaecidos, compreende?
Coça?
Ah, Sr. Mião. É melhor conversarmos no consultório. Já estou consultando o
senhor mesmo.
Entraram.
Acomodaram-se.
Sei,
sei, estão pensando que estou encaminhando o texto para algo lascivo, não estão?
Conheço vocês, leitores. Ô povinho! Imaginam que estou comendo pelas beiradas a
fim de protocolar um processo carnal, não é verdade? Não vai rolar nada disso,
gente. Não digo que estão redondamente enganados porque detesto chavões. Mas
estão enganados redondamente.
Coça
não, doutora. Quer dizer, só aqui, acolá.
Sei.
Faz tempo que esses carocinhos apareceram?
Coisa
de quinze dias, doutora.
Anrã.
O senhor se depilou poucos dias antes do aparecimento?
Uns
cinco dias antes.
Pode
ser algum processo alérgico, Sr. Mião. Mas eu teria de olhar para dizer algo
mais concreto.
Compreendo,
doutora. De qualquer forma, obrigado. Pago a consulta na recepção?
Precisa
pagar nada não, Sr. Mião. Mas procure um dermatologista o quanto antes. Essas
lesões silenciosas, o senhor sabe como é. É...
Vou
procurar, doutora. Ah, vai pra lá, peste.
Quê?!
A
vergonha, doutora. Dei-lhe um safanão. Botei a peste de lado. Pode me examinar.
O
senhor é muito engraçado. Se sai com cada uma. Atrás daquela cortina tem uma
cama. Deite-se nela que já vou.
Ainda
de bermuda, Sr. Mião? Baixe a cueca, por favor, homem.
Mião
baixou a cueca e as pálpebras. Não queria fitar a médica.
Minha
nossa! Ah, meu pai!
É
grave assim, doutora?
Desculpe,
falei sem querer, Mião. Comecei a examinar agora. Mas pelo que tô vendo... Nossa!
Nunca vi nada igual.
Então,
doutora. Se nunca viu nada igual é porque...
Ah,
Mião. Você sabe do que tô falando. Você...
São
apenas manchinhas. Alergia, suponho. Não há manchas aqui no tronco. Tampouco no
meio. Deixe-me examinar a glande. Ah, meu pai. Está doendo, Mião?
Não,
doutora. É que eu... Eu...
Então
por que está gemendo?
As
luvas, doutora. Tire as luvas.
Doutora,
não. Sônia, viu? Já ia tirar, Mião. Tá bom assim? Assim tá bom?
Mião
abriu os olhos. A doutora estava sem luvas e sem bata. E desabotoava a blusa.
Passados
vinte minutos...
Sabe,
Sônia, é bom você receitar alguma coisa, uma pomada, creme, não? A consulta foi
demorada, daí que é aconselhável eu pagar a consulta, você não acha? A
recepcionista pode...
Vou
passar. Tome. Use esse creme quando for dormir. Pagar consulta não. Foi
cortesia de sua médica. Vou marcar o retorno.
Beleza.
Retorno quando, Sônia?
Amanhã.
Nessa mesma hora.
Não
disse que vocês estavam enganados redondamente?
Quê?!
Agosto/18,
TC
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