Imagem Google
O CANDIDATO DO BIÃO
Portão
eletrônico aberto, o bicho entrou de garagem a dentro. O pessoal da obra parou
as atividades e ficou em posição de alerta. Um dos serventes não se conteve e
falou. Baixinho, é certo, mas soltou: Porraé!
O
portão-garagem aberto se explica porque um servente estava pondo entulhos numa
caçamba. Entulhos da obra, evidentemente. A obra é uma área de lazer que estou
construindo nos fundos da casa. Esse é o motivo, aliás, de fazer um tempão que
não posto nada aqui. É que cristão algum aguenta a fofocagem de marquita,
serra, martelo, furadeira. Esse povinho se junta com os parentes e tome
blá-blá-blá. O cabra já escreve ruim no, com licença da palavra, silêncio
sepulcral, imagine...
E
a posição de alerta do pessoal? Foi em razão da feiura do bicho, gente. O bicho
em questão era meu primo Bião, conhecidíssimo dos leitores antigos desta
Pocilga. Daí que nem vou descrevê-lo. O Bião é feio e pronto. Ou não acreditam
em mim? Pois! Pior que, pra variar, o infeliz estava bêbado.
Bião
não falou uma nem duas e foi direto para a cervejeira. Pegou uma piriguete,
tomou-a de uma golada e abriu o protocolo da maledicência com a irritante
segunda pessoa.
Já
vi cerveja melhor nessa geladeira. Legal, primo. Vais me chamar para a
inauguração, não vais?
Sim,
é claro, respondi, armando-me de paciência, preparando-me para os por quês.
Bião gosta de me azucrinar com o interrogativo por que. Pronuncia-o com
tanta má-educação,
tamanho sotaque depreciativo, que deixa a arrogância olhando pros lados, a
procura de um buraco pra se socar. É a forma indireta de me chamar de burro. No
mais das vezes, dou sonoro pqp e mando-lhe educado vtnc. Hoje, porém, encontrou-me
de pachorra.
O
sujeito passa um tempão planejando a coisa, a compra dum carro, por exemplo, aí
chega um bucéfalo e lhe joga um “por que não comprasse carro tal? É bem mais
econômico”.
Foi
de burro que o Bião me chamou:
Por
que compraste um churrasqueira, primo? Minha irmã mandou fazer uma...
Porque.
Bião
ficou sério, mas caindo na risada por dentro. Tenho certeza disso.
Por
que não fizeste o piso de porcelanato? Um amigo meu...
Porque.
Aí
o peste deu uma escapadinha da obra:
Em
quem vais votar pra presidente, primo?
Tô
pensando, Bião. Procuro um candidato que não tenha certos costumes.
Não
vais achar, primo. Todo mundo tem costume. Eu, tu, a torcida do Fluminense... O
que procuras para presidente é um bom nome, primo.
Certos.
Falei certos costumes, Bião.
Certos,
errados, determinados, bons, maus, ilícitos, éticos, profanos, castos e por aí
vai. Todos temos costumes, firmamos jurisprudência. Bote isso na cabeça, primo.
Você
tá bêbado, Bião.
É?
Escuta só. Deixaste de fumar maconha e cheirar um pozinho?
Quê?
Tá maluco? Nunca fui dessas coisas. Você sabe disso, Bião.
É
lógico que sei, primo. Tens o costume de não fumar maconha, de não cheirar cocaína,
de não roubar, de manter gelada uma cervejinha para as visitas, de nos servir
gostosa galinha caipira, de frequentar a igreja aos domingos e por aí vai. Nasceste
com essas coisas, primo, ou foste pegando o costume?
Homem!
Ora,
homem! O que procuras é um bom nome para presidente, repito.
Acho
que é isso mesmo, Bião. O que acha do Haddad, o terceirizado do Lula?
Péssimo
nome, primo. O cara tem muito “d” no nome. Se chegar à presidência vai ficar
cheio de dedos. Se o Lula, que tinha menos dedos, deu no que deu, imagine...
E
o Bolsonaro?
Tá
maluco? Um presidente, cujo nome começa com bolso? Só tu mesmo, primo.
O
Meireles, então.
O
Meireles não, pelo amor de Deus. De novo, a mesma linha do Bolsonaro. O nome do
Meireles é Henrique, primo. Sempre foste ruim de verbo, mas te pergunto. Sabes qual
é o imperativo afirmativo de enricar? Enrique. Enrique ele, entendeste?
Então
nem vou falar do Boulus, Bião, porque...
É
bom, primo. É outro nome sem futuro. O que esperar dum presidente de nome
Boulus? Bolo, né, não?
É
verdade, Bião. O cabo, o Daciolo, seria um bom nome, não?
Esse?
Nome de xarope de gripe, primo. Tome uma dose de daciolo três vezes ao dia. Nossa!
De mais a mais, está provado que presidente terceirizado é uma roubada, primo.
Mas o Daciolo não é terceirizado,
Bião.
Não é? Terceirizado de Deus, primo. De
cada três falas, uma é o “Glória a Deux”. E “Deux me mandou”. Nunca ouviste?
Tá
difícil, Bião. A Marina, o Ciro, o Amoedo, o...
Para,
primo, pediu ele, indo buscar mais uma cerveja. Sabe o que acontece, ao menos
comigo? Não voto apenas pelas propostas, até porque tenho claro que são
propostas lorotas. Analiso outras variáveis, meu irmão. Preciso ter empatia com
o candidato, preciso de alguém que não me deixe na mão nas horas incertas,
preciso que role alguma cumplicidade, entendeste? Dos nomes que falou aí...
Marina, por exemplo, apesar do radical Mar, é muito sem sal. O Ciro, pelo
contrário, tem muito sal. O Amoedo vem de amoedar, quer dizer transformar em
moedas, monetizar, essas coisas. Tenho minhas restrições a esses nomes, primo. Não
acho bons nomes, na verdade.
Quem
abarrota seus requisitos, então?
Meu
candidato, meu nome é o Álcool em Mim, primo.
Outubro
de embriagadíssimas eleições,
TC,
o abstêmio.
Nenhum comentário:
Postar um comentário