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O NOVO PRESIDENTE DO BRASIL
O homem acomoda-se estrategicamente
no bar do hotel. Joga iscas de observação. Quem chega ao hotel cai na malha
dele. É bom nisso. É seu esporte preferido. Em minutos, é capaz de dar um
parecer sobre qualquer indivíduo. Acerta com impensável precisão: esse é
vendedor, aquela é servidora pública, aquele é médico, aqueloutro, advogado.
É preciso higienizar a mente, minha
nobre Eileen, diz ele, quando a namorada caçoa da mania.
O homem está no Mandala Hotel
Berlin. Espera a amante. A moça tinha ido ao Mall Of Berlin. O homem não gosta
de Shopping Centers, daí ter preferido esperá-la ali. Almoçariam e viajariam
para Hamburgo, onde residem. Vieram visitar parentes da namorada. Ele
aproveitou para votar, até porque as redes sociais alertavam para problemas nas
urnas eletrônicas do consulado brasileiro em Hamburgo.
O homem não é um homem comum. É
gênio da comunicação, do disfarce, da escrita.
O homem não comum escreveu apenas
um livro, mas que só perde em vendas para a Bíblia. Especialista em comunicação
de massa e internet, o homem vive mundo a fora criando sucesso para empresas e
para candidatos a cargos públicos. O primeiro trabalho na política partidária se
deu aos dezesseis anos, quando concebeu o Caçador de Marajás, em 1989, na
eleição do Collor, que viria a ser presidente do Brasil. Já o último trabalho
foi eleger o presidente francês, o Macron. Trabalho de cunho remunerado,
diga-se, posto ter dado uma canja para o Witzel chegar ao segundo turno na
eleição de governador do Rio de Janeiro. Puro diletantismo, visto o próprio
candidato desconhecer a benfazeja providência.
O homem não é um homem comum. Tem o
privilégio de mexer nos acontecimentos. No mais das vezes viajando no porvir,
mas não raro recolocando a verdade nos equívocos. Detém tamanho poderio mental,
que preferiu viver no anonimato, haja vista a abundância de assédios a que
diuturnamente era submetido. Apenas a amante alemã (tem amante em todo os lugares),
a administradora de sua agenda literária e econômica, tem noção de seu poder
mental e intelectual. Noção, sim. Simples noção é o sintagma exato, mesmo ela testemunhando
o namorado levantar uma falida empresa de refrigerante com a simples frase: “E
já provou o novo”? Simples noção, ainda que ela tenha ficado sem internet por
duvidar dele:
“Tudo originado do homem é mutável,
nobre Eileen. Tudo pode ser negociado, tudo pode ser alterado, tudo pode ser
desfeito. Você pode desfazer um relógio dando-lhe marteladas, ou desfazê-lo
peça a peça. Então, posto a internet ter sido feita, desfeita pode ser. Não com
marteladas e sim com o desmonte pecinha a pecinha. Como todas as coisas, basta saber
bulir no seu Padrão Básico (PB) para as funções serem desmoronadas, tais quais
pedras de dominó entre si escoradas”.
Falou assim o homem
após retirar do
ar a internet (e reativá-la meia hora depois) duma cidade alemã, já que a Eileen
teimava em mexer no celular, mesmo quando, rindo, ele a ameaçava deixá-la sem
internet.
"Ich glaube nicht, ich glaube
nicht, ich glaube nicht", ficou repetindo a alemãzinha boca-aberta.
Não é um homem comum o homem que
tira a internet do ar. Daí o cuidado com a segurança pessoal.
Não é um homem comum o homem que mantém
chamego com a intuição e é sócio do interesse e do contexto nos negócios da
vida. Daí o cuidado com a higiene mental.
“Se os humanos escovassem a mente
na intensidade em que escovam os dentes, eliminariam muitas cáries de
informação. Sem esforço algum, mastigariam, por exemplo, a salada de
sentimentos englobados nas palavras interesse e contexto - as mais significativas
da linguagem universal. Tal rotina reduziria bastante as banais desavenças do
cotidiano, minha nobre Eileen”.
O homem não comum é um escritor
brasileiro de quarenta e dois anos. Reside em Hamburgo, Alemanha, com a
assistente e namorada, a Elieen. Escritor, não. Intuitor hiperfísico,
autodenomina-se. Intuitor hiperfísico porque acessa estados mentais alheios e
os altera a seu bel-prazer.
O homem incomum chama-se Abraão e usou
o pseudônimo Bião para escrever o best-seller Intuitor Bião, um Homem de
Palavra (Editora Protexto).
É hora de oferecer simplicíssima
amostra de como funciona a mente do incomum Abraão. Antes, permitam-me um
parágrafo de contexto. Conceito, aliás, bastante usado pelo Abraão.
Então, a uma semana da eleição
presidencial no Brasil, a Eileen recebeu a Sra. Jilvanete, assessora do
candidato Haddad. Negociaram um contrato de vinte milhões de reais, no qual o
Abraão se comprometia a eleger o Haddad no segundo turno. Caso não ganhasse no
primeiro, por óbvio. Mas, igualmente por óbvio, o Haddad já antevia a derrota.
Não tinha nada a perder o candidato, já que o Abraão tem por norma devolver os
recursos na hipótese de revés do candidato. Negociaram, porém a quitação do
valor (e a assinatura do contrato) ficou marcado para a segunda feira, oito do
dez, no Brasil, em Natal, torrão natal do Abraão, num hotel a ser definido.
Bom, o Abraão almoçava e dava
orientações a assistente:
Escuta, nobre Eileen. O Bolsonaro deve
nos procurar, apesar de ganhar no primeiro turno. Elabore um contrato pra ele.
Faça um copiar/colar do contrato do Haddad e pronto.
Quê? Como assim, Abraão. Não já
fechamos com o Haddad? Tudo bem que, por precaução, é normal o ganhador do
primeiro turno nos sondar, mas nunca aceitamos sequer um trabalho. Jamais pusemos
nossos honorários em leilão, meu querido. Não estou entendendo. Ou é mais um de
seus mistérios?
Abraão riu e comentou:
Fique tranquila, nobre Eileen. Quero
apenas conversar com os dois representantes juntos, criar um contexto de
confronto, embora afável, espero.
Conversar com eles? Essas
tratativas não são sempre comigo?
Dessa vez o comando será meu, minha
nobre. O plano é o seguinte. Fale com a Sra. Jilvanete, desmarque a reunião de
amanhã e diga que depois dirá a nova data. Mas a tranquilize: informe que estou
elaborando o episódio que fará o Sr. Haddad ganhar a eleição.
Outra coisa. Marque o encontro com o
assistente do Sr. Bolsonaro, que deve nos procurar de amanhã pra depois, para a
segunda-feira, dia quinze, às três horas da tarde, no Rifoles Praia Hotel, em
Natal. Em seguida, combine o encontro com a Sra. Jilvanete para o mesmo
horário, no Serhs Natal Grand Hotel. Eu e você ficaremos hospedados no Ocean
Palace Beach. Não leve a mal, mas já fiz a reserva. Serei o Sr. Heleno e você a
Sra. Helena.
Sabe, querido, nunca vou entendê-lo.
Por que implicar três hotéis?
Não quero correr o risco de os dois
representantes se encontrarem antes da conversa comigo.
Com você? Essas tratativas não são sempre
comigo? Sabia que existe WhatsApp, e-mail, celular? Por que não usar um desses
facilitadores e acertar o encontro para o nosso hotel, o Ocean?
Porque o risco de se encontrarem
permaneceria, a menos que marcássemos o encontro para horários distintos.
Déssemos um intervalo de meia hora, digamos assim, entre um e outro. Nesse
caso, porém, um deles teria de ficar esquentando cadeira durante os minutos desse
intervalo. E detesto fazer alguém esperar, sabe disso você. Demais, por uma
questão de civilidade, porquanto o contato físico é ótimo sinal de interesse, minha
nobre. Por isso, você deve estar às três horas no hotel da Sra. Jilvanete. Pede
desculpa pelo transtorno e a leva para a nossa suíte no Ocean. Procederei de
igual forma com relação ao assessor do Bolsonaro, apresentando-me como adjunto
do Abraão. Pelos meus cálculos, devo chegar ao Ocean dez minutos antes de você.
Estamos entendido, minha nobre?
É claro. Enquanto fico aqui para me
encontrar com o bolsonarista, você fica numa boa em Natal, certamente se
encontrando com as brasileirinhas. Viaja para o Brasil de madrugada, não?
Sim. É a vida. Contextos
circunstanciais, nobre Eileen.
E assim foi. Não com dez minutos,
mas com onze minutos a Eileen e a Jilvanete chegavam à suíte. O broche “Haddad
Presidente” na blusa da mulher alfinetou a desconfiança do Sr. Erivan, o
preposto do Bolsonaro:
Que é isso? O que essa comunista
faz aqui, Sra. Eileen?
Eu é que pergunto. O que esse
aprendiz de ditador faz aqui, Sra. Eileen?
Ditador, não. Seu candidato é quem
é aluno do Maduro e...
Ficaram uns dez minutos trocando
farpas. Impassíveis, o Abraão e a Eileen não falavam uma nem duas. Mas a Eileen
sabia que o Abraão estava se falando por dentro, divertindo-se. Até que se deu
por satisfeito. Foi duro:
Sr. Erivan e Sra. Jilvanete, por
favor.
Meu nome é Abraão. Certamente...
Quê? O senhor é o homem que sabe de
tudo? Nossa senhora. Que honra!
Não sei de tudo, Sra. Jilvanete.
Apenas desenvolvi certos poderes. Foto não, por favor.
Agora escutem-me, por gentileza.
Certamente não conhecem os escritos do filósofo Bertrand Russel. Ele adorava
esta frase. “Os homens nascem ignorantes e não estúpidos. Para se tornarem estúpidos, são necessários muitos anos
de educação”. Pergunto: precisaram de quantos anos?
Sabem o adjetivo para quem se porta
com descortesia, incivilidade? Estúpido, senhores - permita-me a redução gramatical
para o gênero masculino, Sra. Jilvanete. Os senhores são adversários, não
inimigos. Não custa nada abandonarem a criancice e se cumprimentarem. E não se
atracarem verbalmente. Pensar é penoso. Do contrário, os senhores teriam
concluído que só estamos juntos porque assim eu quis.
Mas imagino que mente oca e
deseducação sejam atitudes herdadas de seus líderes, inconsequentes que são. Quer
um exemplo, Sra. Jilvanete? Não se deve brincar com as palavras, senhores. E
seu líder, senhora, foi irresponsável brincalhão ao espalhar “o nós contra
eles”. Expressão de absurda carga mental conflituosa. Isso, Sra. Jilvanete, não
é fala de líder. É fala da estupidez. Argamassa para contexto de violência.
E o seu, Sr. Erivan, ao tomar
conhecimento de agressões praticadas pelos seus seguidores, disse que lamenta,
pede que não façam aquilo, mas que não tem o controle. E arrematou: “O que
tenho a ver com isso?”. Isso, Sr. Erivan, não é discurso de líder. É discurso
da estupidez. Argamassa para contexto de selvageria.
E não me venham, senhores, chamarem
de retórica a falação de seus líderes. Só se for a retórica dos sofistas da
Grécia antiga. Na verdade, senhores, o contexto discursivo de seus chefes é irreal
e todo na direção de iludir o eleitor, seja com vantagens econômicas, seja com
juramentos religiosos, seja com promessas políticas. O nome disso? Sofisma,
senhores. A reunião de mediocridade, ridículo, felonia, desfaçatez, hipocrisia,
patranha. Reunião, cuja ata foi protocolada no cartório do indiscernimento,
situado na rua do analfabetismo.
Indiscernimento, senhores, que
abarrota os seus candidatos, não somente nas questões nacionais, mas também no
plano mundial. Não enxergam o novo ordenamento internacional. Ordenamento
socioeconômico, sociocultural, organizações de controle social, Ongs as mais
diversas. É essa turma que sai com a internet, toma uma com a imprensa ativa e
forma a mais eficaz governança global. É essa turma que dá aos governantes tão
somente o status de administradores. No plano econômico, o mais visível, são as
pragmáticas reuniões dos grandes grupos econômicos, dos fundos de investimento
e dos agentes correlatos quem ditam as regras do jogo. Mandam, senhores, em
razão dos sinais de confiança que recebem. Ou, vale dizer, pelos sinais emitidos
pelo resto do mundo. Mas para emitir esses sinais é preciso que o governante
tenha a virtude anfíbia. Virtude anfíbia significa o balanceio entre engolir e
rejeitar sapos. Em alguns momentos é preciso engoli-los, noutros, rejeitá-los.
É ridículo abaixar as calçolas para o capital, assim como é ridículo usá-las
muito acima da cintura.
Tínhamos candidatos com esse
perfil, mas o descalabro imposto ao país pelo seu líder, Sra. Jilvanete, fez
com que muitos eleitores não os enxergassem e vissem a salvação em quem desse
um murro na mesa. A esses eleitores não
frutifica nenhuma tentativa de convencimento, pois só escutam o que lhes
interessa. E o que lhes interessa é a própria opinião, a do murro na mesa.
Murro desproporcional, é certo.
Murro sinalizador de quem não engole sapos. Na contramão, há um candidato
extremamente subserviente. Sintoma de grande engolidor de sapos.
Ambos são carentes da virtude
anfíbia. Não os deixarei governar o meu país, pois o risco é descomunal.
“Não deixarei?”, indagaram ao mesmo
tempo o Sr. Erivan e a Sra. Jilvanete, num tom de voz que deixaria a vergonha
doida pra se socar em algum buraco.
Não deixarei, senhores.
Seu candidato, Sr. Erivan, tem
ejaculado esbranquiçados fluidos de autoritarismo, de intolerância. Contexto
comportamental de quem é incapaz de engolir sapos.
E o seu, Sra. Jilvanete, tem
lançado babados líquidos de submissão, de subserviência. Contexto
comportamental de grande engolidor de sapos.
Não me interessa pular nos
quadrados ideológicos dos senhores, de maneira que encerro por aqui o desabafo
e lhes informo que não vamos pegar o serviço de nenhum dos senhores.
Desculpem, senhores, há um pormenor
que tenho de mencionar. É em relação à campanha de seu candidato, Sra.
Jilvanete. O Sr. Haddad chamou os brasileiros de idiota. Veja. Começou dizendo
que ele era o Sr. Lula e o Sr. Lula era ele. E era mesmo, tanto que o Sr.
Haddad se reunia semanalmente com o Sr. Lula. Contudo, mal terminou o primeiro
turno, passou-se a dizer independente. A tal ponto de abandonar os símbolos de
seu partido, Sra. Jilvanete. Pior, independência sugerida pelo Sr. Lula. É de
deixar D. Idiota tachando-se de imbecil ou não? É muito sapo, moça.
É isso, senhores. Gostaria...
Não deu pra se conhecer de que o Sr.
Abraão gostaria, pois a TV apresentava a alarmante chamada de edição
extraordinária do Jornal Nacional. Willian Bonner noticiava:
Não precisamos votar no segundo
turno. O Brasil já tem novo presidente, acaba de informar o Tribunal Superior
Eleitoral (TSE). A presidente do TSE, ministra Rosa Weber, fará um
pronunciamento em instantes. Mas, segundo apuramos, ocorreu uma tremenda falha
no sistema de apuração dos votos do primeiro turno. A falha diz respeito aos números
dos três candidatos mais votados. Deu-se com os números 17, 13 e 12:
Os votos no número 51 foram
divididos por 3 e computados para o número 17. Outra falha aconteceu quando o
sistema pegou os votos 51, subtraiu os votos 12 e dividiu por 3, computando-os,
portanto, para o número 13.
Feitos os ajustes, o candidato de
número 51 obteve 69, 6% dos votos válidos. O novo presidente do Brasil é o candidato
de número 51, o Cabo Daciolo.
De queixo no chão, a Sra. Jilvanete
e o Sr. Erivan não entenderam o Glória Deus da Eileen:
Ehre Sei Gott.
Outubro eleitoral e democrático de
2018,
TC
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