O BEM-TE-VI E O VINHO DE ROMÃ
Tá carregado, né gente?
Só para esclarecer. A foto é do pé de romã de meu jardim. Por que esclarecer o
óbvio? Porque existem pessoas que veem o óbvio, escutam o óbvio, sentem na pele
o óbvio, mas ao fim e ao cabo acabam vendo, escutando e sentindo apenas aquilo
que querem.
Esse pé de romã é uma
bênção.
Pra começo de conversa, é
político. Notaram, não? Pro meio de conversa, é acolhedor, já que nele mora de
graça o bem-te-vi gago da Cecília Meireles. Aliás... Volto já ao gago, táoquei?
Pro fim de conversa, é milionário
mão-aberta, pois fica transformando folhas em notas de duzentos reais. Vivo de
espinhaço torto de tanto apanhá-las.
Já o fruto, a romã, é milagrosa.
É assim, assim com a
saúde humana. É da cozinha do bem-querer. Serve pra tudo na vida. Darei só dois
exemplos: o gargarejo pra desinflamar garganta e o chá pra secar barriga.
Celulite é puta da vida com romã. Sabiam não sabiam? Voltando ao bem-te-vi gago
de D. Cecília. O abençoado ficou bonzinho, bonzinho com o gargarejo da romã.
Cinco horas da manhã, Nenete, Tânia ou Thalia levavam a caneca do gargarejo
dele. Bastaram sete sessões, gente, e agora o “vi”, vem que é uma vivacidade só. Dava-me
uma pena danada aquele “te-te-te”. Ficou desenvolto, o danado. E seletivo. Pras
moças daqui de casa ele fica cantando “Bem, bem, bem”. Tanto que elas o
registraram como Bem. Agora, esteja onde estiver, se flagrar alguém com malfeitos,
o Bem não alivia: “Te-vi, te-vi, te-vi”, fica repetindo. Tem até uma vizinha
nossa que fica estirando a língua pro inocente. A canção completa o Bem só
canta pra mim. Isso porque sou eu quem lhe dá o vinho do dia a dia. Essa taça
de vinho que estão vendo na foto...
Perceberam não
perceberam? Não? Na parte inferior da foto, pertinho do pé de acerola. Viram?
Viram o Bem tomando vinho? Pois! É vinho de romã. Feito por mim. O Bem bebe
três taças por dia. Isso já deu confusão, pessoal. Acontece que...
Acontece que... Bom. Bem
e colegas não eram, digamos assim, essas coisas toda em consciência. Ilustro:
cantavam a qualquer hora. O que acabava perturbando o sossego de outras
espécies. O Bem só começou a cultivar a consciência quando começou a emborcar
vinho de romã. O Bem liderou essa transformação e hoje eles só cantam até escurecer.
Então. Antes da pandemia da impiedosa, vinham colegas dele de magote tomar
vinho na romãzeira. Daí ocorreram alguns arranca-rabos no começo da coisa,
porquanto o Bem fechava o bico e não recepcionava mais de dois confrades. O Bem
sabe que não pega o corona, por óbvio, mas costuma discursar para os confrades
e confreiras:
“Somos outra espécie. Não
pegamos essa praga. Daí que também não a transmitimos, mas vivemos em coletividade, né, gente? Precisamos ser
empáticos com os sapiens, já que eles nos acolhem com tanto carinho. Nem todos, é verdade, mas...”.
Bem bica assim, solta alegríssimo "Bem", levanta a
taça do vinho de romã e brinda:
Tim-tim.
Natal, 02 do 21,
TC

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