sábado, 25 de maio de 2024

Prepare-se: o TS vai arrebentar você


 

Prepare-se: o TS vai arrebentar você

Olá, gente,

Na postagem abaixo (de 15 de abril), transcrevi a contracapa da Sisi Confidencial (Coisinhas), meu último pesadelo literário.  Porque esticadão, chamei de novela o escrito 4 e dei-lhe o título de “Do perspicaz Antônio”.

Antônio, conhecido por TS, é um bilionário brasileiro que quer ser presidente do Brasil. Até aí tudo bem. Agora, gente, a campanha do cara...

Só vendo. Ou só lendo a Sisi. Ou leu?

Pra vocês terem ideia, o TS costuma simular conversas com hipotéticos eleitores e tome chamá-los de meu nobre, nobríssimo, minha nobre, nobríssima. Essas coisinhas. E outras. Mas a fineza de tratamento não o impede de passar reprimendas. Figuraça, o TS.

Pois bem. O TS é incondicional defensor do capitalismo de mercado. E, segundo as pesquisas eleitorais, deixa o eleitorado convencido de que tachar o capitalismo de explorador da mão-de-obra e de selvagem é fruto do analfabetismo econômico, político, filosófico. Essas coisinhas. E outras.

Impressionante, gente, é que o TS conquista o eleitorado só em conceituar duas palavrinhas: lucro e liberdade.

 Só vendo. Ou só lendo a Sisi. Ou leu?

O TS, gente, chega a babar quando fala em liberdade.

Foi numa babada dessas que o TS se excedeu. Do nada, e num “papo” com uma nobríssima, o cara botou Deus na conversa o que me fez usar duas páginas do Word. Precisei cortar essa parte, pois além de encompridar a história, o TS corria o risco de perder votos, haja vista a conversa ter potencial para contrariar convicções de todas as correntes religiosas. Nessa conta: ateus, céticos, hereges, agnósticos. Esse povo. E outros.

Cortei a conversa, mas a botei num arquivo chamado retalhos.

Agora, contentíssimo em razão de o Pocilga ter atingido a marca histórica de 5 leitores (ganhou 2 nos últimos 15 dias, gente), decidi colar o recorte aqui. Atente para o detalhe de que o TS botou Deus na conversa quando falava de liberdade econômica. Supondo que não tenha lido a Sisi, devo alertá-lo para o jeitão confuso de o TS se expressar. Ele tem o costume de, do nada, pular de assunto. O TS jamais seria escritor, já que leitor algum suportaria os seus contorcionismos verbais.

Vejamos, então, o trecho cortado da Sisi Confidencial.

 

“Acredita

em um ser supremo, em um criador do universo? Acredita em Deus, nobríssima? Se sim, pode me provar com algo comum nos humanos, algo em que presenciamos de forma inquestionável a presença de Deus? Algo presente em todos os humanos e em todos os momentos?

Parece que estou vendo, nobríssima, você me dando um sim de cabeça para a primeira pergunta e pensando em responder assim a segunda:

Milagres, testemunhos, bíblia, fé, Jesus. Se isso não bastar, candidato TS, devo afirmar que sinto a presença de Deus em todos os momentos.

Não é difícil supor tal resposta, nobríssima, pois são com palavras idênticas que 10 em cada 10 pessoas por mim questionadas me respondem.

Mas veja, nobríssima.

Nem todo mundo no mundo tem fé, nem mesmo a mesma fé; nem todo mundo no mundo lê a bíblia, nem mesmo o mesmo livro religioso; nem todo o mundo no mundo sente a presença de Deus, nem mesmo a do mesmo Deus.

Mais: nem todo mundo no mundo reconhece milagres; nem todo mundo no mundo abona testemunhos; nem todo o mundo no mundo segue Jesus.

Daí que o seu depoimento não prova a existência de Deus. Entenda, nobríssima. Suas respostas - e as daqueles dez – não estão erradas. Vocês se sentem reconfortados e em paz com tais sentimentos. Nada contra dogmas, missas, cultos, retiros, adorações, jornadas, pregações. Aplausos pra vocês. Mas o que lhe pedi foi a prova da existência de Deus. O algo comum em todos os humanos, lembra?

Peço causa. Você me entrega consequência. Peço pragmatismo. Você me entrega simbolismo. Peço ação. Você me entrega manifestação.

Aqui vejo você argumentando: mas a prova do jeitinho que você quer, candidato TS, não existe.

Existe, sim. E vou apresentá-la a você, minha nobre. Na verdade, são duas as provas. São interligadas, mas, neste programa, apresentarei apenas uma, tá legal?

Escute, nobríssima. Você acompanha jogos de futebol?

Imagino que sim. Torcedora do Fluminense, não é? Então já deve ter escutado comentaristas enaltecendo determinada vitória do Flu sobre o Fla. Deu-se, diz o comentarista, porque o técnico tricolor avançou o lateral, trocou fulano por sicrano, pediu para beltrano flutuar na área do Flamengo. Essas coisas. E outras.

O Flu pode ter vencido por causa das providências do treinador. Isso é verdade, nobríssima. Mas, sejamos realistas, também pode ter vencido por causa da dinâmica do jogo, já que o imponderável, sinuoso atleta das ciências físicas, é atuante ator de uma partida de futebol. Por mais talento que exibam, os atletas não podem se livrar de indesejada direção da bola em razão de ela ter batido na canela deles. Aí o destino da bola pode ser a salvação ou a danação do atleta.  Concorda, nobríssima?

Existem muitos eventos assim no jogo da vida. Isso quer dizer que as duas teorias – a da providência e a do imponderável - estão corretas.

Mas quando o jogo começou? O da vida, né, nobríssima?

Se você acredita que há um criador do universo, um ser supremo, então não vai ter dúvida de que foi esse criador quem deu o pontapé do jogo da vida. Concorda que foi Deus quem começou o jogo, nobríssima?

Pois! Deus criou o universo e falou assim para os humanos:

“Ide para experiência. Sede livre. Amai vosso irmão”.

Essas palavras formam a prova. Mas não se preocupe, nobríssima. Vou desdobrá-las, tá? Ocorre que Deus é o maior escritor do mundo. É a síntese da concisão. Não escreve como certos fornecedores de linguiça, provedores de lero-lero, comerciantes de blá-blá-blá. Não por acaso, foi Deus quem criou as escrituras.

Deus, nobríssima, envia o homem pro mundo – experiência, no caso -, pede que o homem ame os semelhantes e exibe a prova de tudo com a expressão “Sede livre”. Com o tempo, “sede livre” passou a ser chamado de alvedrio, depois de livre-arbítrio. Hoje existe certo receio de chamar livre-arbítrio de liberdade.

Livre-arbítrio, ou liberdade, minha nobre, é o algo inquestionável da existência de Deus. É o algo presente em todos os humanos e em todos os momentos.

Livre-arbítrio - ou liberdade - é o algo que legitima dogmas, missas, cultos, retiros, adorações, jornadas, pregações.

Livre-arbítrio – ou liberdade – é o algo que nos provoca a dor da convivência, como bem descreveu a digníssima professora Giulia Mitre, já que, não raro, coçamos a cabeça pelo fato de alguém tocar a vida de forma diferente da que a imaginamos correta.

Livre-arbítrio - ou liberdade - é o algo que explica (falei explicar. Não falei aprovar, nobríssima) calúnia, injúria, extorsão, estupro, discriminação, assalto, assassinato, genocídio.

Livre-arbítrio – ou liberdade - é o algo (muita calma nessa hora, nobríssima) probatório de que não existe pecado.

Não existe pecado? Como assim, candidato TS? Então não me torno pecadora quando não cumpro os bens de Deus? Misericórdia, TS.

Pensa que não vejo na sua testa, nobríssima, tais interrogações de olhos aboticados?

Simples pela obviedade, nobríssima. Mas vamos lá. O bem maior de Deus para o homem foi o “sede livre”. O livre-arbítrio, pois. Com esse ato de extremo amor, Deus está dizendo que o homem é seu semelhante. Entenda, nobríssima. Se Deus não tornasse livre o homem, esse homem ficaria obrigado a seguir as determinações divinas. Deus seria, então, um autocrata. E Deus não é ditador, déspota, dominador. Essas coisas. E outras.

Daí, minha nobre, que não existe pecado. Só existiria pecado se existisse a rebeldia da obrigação. E a obrigação do homem é a de ser livre. Concorda, nobríssima? Você pode, portanto, mostrar as belas pernas na praia e tomar aquela caipirinha sem temor algum de labaredas.

Mas aí você pode argumentar que de Deus só sai o bem. Mas que, ao conceder o livre-arbítrio, Deus deu chance pro azar de o homem praticar o mal.

Sim. Acontece que Deus sabia que o homem tornar ilegítima a liberdade era uma possibilidade, ainda que bastante factível. Mas a alternativa de ele, Deus, se tornar ditador seria eterna. E ter alguém definitivamente sob seu julgo seria o extremo do mal. Se tal raciocínio parece elementar pra gente, imagine pra uma Inteligência Infinita. Deus não é ditador. Preciso desenhar, nobríssima?

De mais a mais, e por precaução, Deus mostrou ao próprio homem o caminho de eliminar o descaminho do livre-arbítrio. Ah, nobríssima, a conversa eleitoral alongou-se sem me dar conta, mas tenho de falar sobre o descaminho do livre-arbítrio. Ou da liberdade.

O que acontece, nobríssima. O homem criou um sistema de Justiça. Reza num dos capítulos desse sistema:

 “Livre-arbítrio, ou liberdade, é o grau de independência legítimo que uma nação, ou cidadão, elege como valor supremo”.

Aí o tal Sistema saiu listando o que não é legítimo. O que humano algum tem a liberdade de ação. Matar, assaltar, injuriar, caluniar, estuprar, explorar fazem parte da lista. Lista continuamente atualizada, diga-se.

Se fizer essas coisas, nobríssima, está pecando. Agora, sim, pecou. Pecou e vai arder na cadeia. Vou lhe falar uma coisinha, nobríssima, ainda que o óbvio da obviedade. Todo o mal provocado pelo homem, todos mesmos, seja a desavença do lar, seja o conflito entre nações, nasce da liberdade ilegítima. Existe até um verbo aliado do ilegítimo. Sabe qual é, nobríssima? Invadir. Ligue-se nele. Ou melhor: desligue-se.

É isso.

Isso, não, dirá você. Estou convencida de que o livre-arbítrio, ou liberdade, prova a existência de Deus. Mas já estava antes de sua baboseira. Meu marido é que ficou o programa todinho balançando o não de cabeça. Disse que vai esperar a segunda prova, a complementar.

Falou assim ou não falou? Conheço bem o meu eleitorado, nobríssima.

Veja. Para os crentes religiosos, igualmente a você, os ritos ecumênicos provam tudo. Não me oponho a isso, minha nobre.

Mas para os descrentes de carteirinhas, apenas as provas do Alexandre de Moraes e as do Issac Newton convencem. Esses precisam entender, no entanto, que estamos falando de um ser transcendental. As provas, pois, precisam ser transcendentais. Esses nunca vão ficar convencidos de que algo comum no mundo inteiro, algo que existe independemente de cultura, de opção, de idioma e de ideologia só pode sobreviver se originado de um ser metafísico.

Naquele FlaXFlu, os descrentes sempre dirão que o Flu ganhou por causa de boladas nas canelas. Se num futuro FlaXFlu, o Fluminense jogar com 11 jogadores e o Flamengo com 7, e o Flu ganhar, os descrentes continuarão afirmando que o resultado veio de caneladas. Jamais será por providência do técnico ou da evidência da lógica. O descrente só crê no que pega ou no que a ciência lhe ensinou. Mas nem por isso o condeno, nobríssima: a liberdade dele é legítima.

Reforçando, nobríssima.

Nosso querido algo se chama liberdade. Esse algo sobrevive, ainda que vermes criaturas e criaturas vermes vivam lutando para exterminá-lo”.

 

Foi esse o retalho da Sisi Confidencial, gente. O outro retalho ainda vou decidir se posto aqui. Corro sério risco de ser execrado. Caso escape deste.

 

05 do 24,

TC

 

 

 

 

Um comentário:

Anônimo disse...

Quando fala de liberdade, preciso concordar com todos os detalhes expressados! Mas Deus existe, é que geralmente as pessoas se deixam levar por opiniões que decretam o que certo ou errado. Porque é padre ou pastor, está acima de tudo e todos. Enfim, opiniões.