Prepare-se: o TS vai arrebentar você
Olá, gente,
Na postagem abaixo (de 15
de abril), transcrevi a contracapa da Sisi Confidencial (Coisinhas),
meu último pesadelo literário. Porque
esticadão, chamei de novela o escrito 4 e dei-lhe o título de “Do
perspicaz Antônio”.
Antônio, conhecido por
TS, é um bilionário brasileiro que quer ser presidente do Brasil. Até aí tudo
bem. Agora, gente, a campanha do cara...
Só vendo. Ou só lendo a
Sisi. Ou leu?
Pra vocês terem ideia, o
TS costuma simular conversas com hipotéticos eleitores e tome chamá-los de meu
nobre, nobríssimo, minha nobre, nobríssima. Essas coisinhas. E outras. Mas a
fineza de tratamento não o impede de passar reprimendas. Figuraça, o TS.
Pois bem. O TS é incondicional
defensor do capitalismo de mercado. E, segundo as pesquisas eleitorais, deixa o
eleitorado convencido de que tachar o capitalismo de explorador da mão-de-obra
e de selvagem é fruto do analfabetismo econômico, político, filosófico. Essas coisinhas.
E outras.
Impressionante, gente, é
que o TS conquista o eleitorado só em conceituar duas palavrinhas: lucro e liberdade.
Só vendo. Ou só lendo a Sisi. Ou leu?
O TS, gente, chega a
babar quando fala em liberdade.
Foi numa babada dessas
que o TS se excedeu. Do nada, e num “papo” com uma nobríssima, o cara botou Deus
na conversa o que me fez usar duas páginas do Word. Precisei cortar essa parte,
pois além de encompridar a história, o TS corria o risco de perder votos, haja
vista a conversa ter potencial para contrariar convicções de todas as correntes
religiosas. Nessa conta: ateus, céticos, hereges, agnósticos. Esse povo. E
outros.
Cortei a conversa, mas a
botei num arquivo chamado retalhos.
Agora, contentíssimo em
razão de o Pocilga ter atingido a marca histórica de 5 leitores (ganhou
2 nos últimos 15 dias, gente), decidi colar o recorte aqui. Atente para o
detalhe de que o TS botou Deus na conversa quando falava de liberdade
econômica. Supondo que não tenha lido a Sisi, devo alertá-lo para o jeitão
confuso de o TS se expressar. Ele tem o costume de, do nada, pular de assunto.
O TS jamais seria escritor, já que leitor algum suportaria os seus contorcionismos
verbais.
Vejamos, então, o trecho cortado
da Sisi Confidencial.
“Acredita
em um ser supremo, em um criador do universo? Acredita em Deus, nobríssima? Se sim, pode me provar com algo comum nos humanos, algo em que presenciamos de forma inquestionável a presença de Deus? Algo presente em todos os humanos e em todos os momentos?Parece que estou vendo, nobríssima,
você me dando um sim de cabeça para a primeira pergunta e pensando em responder
assim a segunda:
Milagres, testemunhos,
bíblia, fé, Jesus. Se isso não bastar, candidato TS, devo afirmar que sinto a
presença de Deus em todos os momentos.
Não é difícil supor tal
resposta, nobríssima, pois são com palavras idênticas que 10 em cada 10 pessoas
por mim questionadas me respondem.
Mas veja, nobríssima.
Nem todo mundo no mundo
tem fé, nem mesmo a mesma fé; nem todo mundo no mundo lê a bíblia, nem mesmo o
mesmo livro religioso; nem todo o mundo no mundo sente a presença de Deus, nem
mesmo a do mesmo Deus.
Mais: nem todo mundo no
mundo reconhece milagres; nem todo mundo no mundo abona testemunhos; nem todo o
mundo no mundo segue Jesus.
Daí que o seu depoimento
não prova a existência de Deus. Entenda, nobríssima. Suas respostas - e as
daqueles dez – não estão erradas. Vocês se sentem reconfortados e em paz com
tais sentimentos. Nada contra dogmas, missas, cultos, retiros, adorações, jornadas,
pregações. Aplausos pra vocês. Mas o que lhe pedi foi a prova da existência de
Deus. O algo comum em todos os humanos, lembra?
Peço causa. Você me
entrega consequência. Peço pragmatismo. Você me entrega simbolismo. Peço ação.
Você me entrega manifestação.
Aqui vejo você
argumentando: mas a prova do jeitinho que você quer, candidato TS, não existe.
Existe, sim. E vou
apresentá-la a você, minha nobre. Na verdade, são duas as provas. São
interligadas, mas, neste programa, apresentarei apenas uma, tá legal?
Escute, nobríssima. Você acompanha
jogos de futebol?
Imagino que sim.
Torcedora do Fluminense, não é? Então já deve ter escutado comentaristas
enaltecendo determinada vitória do Flu sobre o Fla. Deu-se, diz o comentarista,
porque o técnico tricolor avançou o lateral, trocou fulano por sicrano, pediu para
beltrano flutuar na área do Flamengo. Essas coisas. E outras.
O Flu pode ter vencido
por causa das providências do treinador. Isso é verdade, nobríssima. Mas, sejamos
realistas, também pode ter vencido por causa da dinâmica do jogo, já que o
imponderável, sinuoso atleta das ciências físicas, é atuante ator de uma
partida de futebol. Por mais talento que exibam, os atletas não podem se livrar
de indesejada direção da bola em razão de ela ter batido na canela deles. Aí o
destino da bola pode ser a salvação ou a danação do atleta. Concorda, nobríssima?
Existem muitos eventos
assim no jogo da vida. Isso quer dizer que as duas teorias – a da providência e
a do imponderável - estão corretas.
Mas quando o jogo começou?
O da vida, né, nobríssima?
Se você acredita que há
um criador do universo, um ser supremo, então não vai ter dúvida de que foi esse
criador quem deu o pontapé do jogo da vida. Concorda que foi Deus quem começou
o jogo, nobríssima?
Pois! Deus criou o
universo e falou assim para os humanos:
“Ide para experiência.
Sede livre. Amai vosso irmão”.
Essas palavras formam a
prova. Mas não se preocupe, nobríssima. Vou desdobrá-las, tá? Ocorre que Deus é
o maior escritor do mundo. É a síntese da concisão. Não escreve como certos fornecedores
de linguiça, provedores de lero-lero, comerciantes de blá-blá-blá. Não por
acaso, foi Deus quem criou as escrituras.
Deus, nobríssima, envia o
homem pro mundo – experiência, no caso -, pede que o homem ame os semelhantes e
exibe a prova de tudo com a expressão “Sede livre”. Com o tempo, “sede livre”
passou a ser chamado de alvedrio, depois de livre-arbítrio. Hoje existe certo
receio de chamar livre-arbítrio de liberdade.
Livre-arbítrio, ou liberdade,
minha nobre, é o algo inquestionável da existência de Deus. É o algo presente
em todos os humanos e em todos os momentos.
Livre-arbítrio - ou liberdade
- é o algo que legitima dogmas, missas, cultos, retiros, adorações, jornadas, pregações.
Livre-arbítrio – ou liberdade
– é o algo que nos provoca a dor da convivência, como bem descreveu a digníssima
professora Giulia Mitre, já que, não raro, coçamos a cabeça pelo fato de alguém
tocar a vida de forma diferente da que a imaginamos correta.
Livre-arbítrio - ou
liberdade - é o algo que explica (falei explicar. Não falei aprovar, nobríssima)
calúnia, injúria, extorsão, estupro, discriminação, assalto, assassinato, genocídio.
Livre-arbítrio – ou liberdade
- é o algo (muita calma nessa hora, nobríssima) probatório de que não existe
pecado.
Não existe pecado? Como assim,
candidato TS? Então não me torno pecadora quando não cumpro os bens de Deus? Misericórdia,
TS.
Pensa que não vejo na sua
testa, nobríssima, tais interrogações de olhos aboticados?
Simples pela obviedade,
nobríssima. Mas vamos lá. O bem maior de Deus para o homem foi o “sede livre”.
O livre-arbítrio, pois. Com esse ato de extremo amor, Deus está dizendo que o
homem é seu semelhante. Entenda, nobríssima. Se Deus não tornasse livre o homem,
esse homem ficaria obrigado a seguir as determinações divinas. Deus seria,
então, um autocrata. E Deus não é ditador, déspota, dominador. Essas coisas. E outras.
Daí, minha nobre, que não
existe pecado. Só existiria pecado se existisse a rebeldia da obrigação. E a obrigação do
homem é a de ser livre. Concorda, nobríssima? Você pode, portanto, mostrar as
belas pernas na praia e tomar aquela caipirinha sem temor algum de labaredas.
Mas aí você pode
argumentar que de Deus só sai o bem. Mas que, ao conceder o livre-arbítrio,
Deus deu chance pro azar de o homem praticar o mal.
Sim. Acontece que Deus sabia
que o homem tornar ilegítima a liberdade era uma possibilidade, ainda que
bastante factível. Mas a alternativa de ele, Deus, se tornar ditador seria
eterna. E ter alguém definitivamente sob seu julgo seria o extremo do mal. Se tal
raciocínio parece elementar pra gente, imagine pra uma Inteligência Infinita. Deus
não é ditador. Preciso desenhar, nobríssima?
De mais a mais, e por
precaução, Deus mostrou ao próprio homem o caminho de eliminar o descaminho do
livre-arbítrio. Ah, nobríssima, a conversa eleitoral alongou-se sem me dar
conta, mas tenho de falar sobre o descaminho do livre-arbítrio. Ou da
liberdade.
O que acontece,
nobríssima. O homem criou um sistema de Justiça. Reza num dos capítulos desse
sistema:
“Livre-arbítrio, ou liberdade, é o grau de
independência legítimo que uma nação, ou cidadão, elege como valor supremo”.
Aí o tal Sistema saiu
listando o que não é legítimo. O que humano algum tem a liberdade de ação. Matar,
assaltar, injuriar, caluniar, estuprar, explorar fazem parte da lista. Lista continuamente
atualizada, diga-se.
Se fizer essas coisas, nobríssima, está pecando. Agora, sim, pecou. Pecou e vai arder na cadeia. Vou lhe falar uma coisinha, nobríssima, ainda que o óbvio da obviedade. Todo o mal provocado pelo homem, todos mesmos, seja a desavença do lar, seja o conflito entre nações, nasce da liberdade ilegítima. Existe até um verbo aliado do ilegítimo. Sabe qual é, nobríssima? Invadir. Ligue-se nele. Ou melhor: desligue-se.
É isso.
Isso, não, dirá você. Estou
convencida de que o livre-arbítrio, ou liberdade, prova a existência de Deus. Mas
já estava antes de sua baboseira. Meu marido é que ficou o programa todinho
balançando o não de cabeça. Disse que vai esperar a segunda prova, a
complementar.
Falou assim ou não falou?
Conheço bem o meu eleitorado, nobríssima.
Veja. Para os crentes religiosos,
igualmente a você, os ritos ecumênicos provam tudo. Não me oponho a isso, minha
nobre.
Mas para os descrentes de
carteirinhas, apenas as provas do Alexandre de Moraes e as do Issac Newton convencem.
Esses precisam entender, no entanto, que estamos falando de um ser
transcendental. As provas, pois, precisam ser transcendentais. Esses nunca vão ficar
convencidos de que algo comum no mundo inteiro, algo que existe independemente
de cultura, de opção, de idioma e de ideologia só pode sobreviver se originado
de um ser metafísico.
Naquele FlaXFlu, os
descrentes sempre dirão que o Flu ganhou por causa de boladas nas canelas. Se num
futuro FlaXFlu, o Fluminense jogar com 11 jogadores e o Flamengo com 7, e o Flu
ganhar, os descrentes continuarão afirmando que o resultado veio de caneladas. Jamais
será por providência do técnico ou da evidência da lógica. O descrente só crê
no que pega ou no que a ciência lhe ensinou. Mas nem por isso o condeno,
nobríssima: a liberdade dele é legítima.
Reforçando, nobríssima.
Nosso querido algo se
chama liberdade. Esse algo sobrevive, ainda que vermes criaturas e criaturas
vermes vivam lutando para exterminá-lo”.
Foi esse o retalho da
Sisi Confidencial, gente. O outro retalho ainda vou decidir se posto aqui. Corro
sério risco de ser execrado. Caso escape deste.
05 do 24,
TC

Um comentário:
Quando fala de liberdade, preciso concordar com todos os detalhes expressados! Mas Deus existe, é que geralmente as pessoas se deixam levar por opiniões que decretam o que certo ou errado. Porque é padre ou pastor, está acima de tudo e todos. Enfim, opiniões.
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