Este
é um textinho dedicado às mulheres. É troncho. E a razão da tronchura consiste em
não estar instigando o leitor logo no primeiro parágrafo, como recomenda a boa
literatura. O motivo dessa atipicidade foi um enunciado que acabei de ler no
Instagram. Escrito por um homem, vi nele a milenar manipulação masculina imposta
às mulheres. Manipulação elogiadíssima, acrescento, por inúmeras comentaristas
do enunciado. É claro que a ninguém é atribuído o poder de pensar por ninguém -
o que significa que cada leitor interpreta o texto segundo sua cognição e
percepção -, mas fiquei com a impressão de que o manipular da postagem venceu o
pensar das comentaristas.
Leiam o enunciado que me trouxe
aqui:
“Quanto mais bem tratada
uma mulher é, mais ela tem vontade de servir, cuidar e ser doce. Sábio é o
homem que entende isso”.
Isso não é exaltar a
mulher. É capturá-la. É instrumentalizá-la. Tratar bem é dever. Não é o conduzir
a espera do servir. Esse homem sábio não é um altruísta. É um estrategista.
Pode se alegar que estou
sendo intransigente com o autor da postagem, que o autor não teve a manipuladora
intenção, que a mulher se comporta do mesmo jeitinho em relação ao homem, que essas
coisas. E outras.
Teve a intenção, sim: “Sábio
é o homem que entende isso” entrega o autor. Teve, sim: o dar pra receber é postulado bíblico, é verdade,
mas só o é sem a egoísta espera do receber. Teve, sim, ainda que o autor não tenha
se dado conta da aleivosia, já que enraizada na milenar cultura dos sapiens. Cultura
que faz o homem ser usurpador, que o faz ver a mulher como fofoqueira, mas que a
ela nega a suprema criatividade.
Vou dar uma passada na
cultura sapiens a fim de ilustrar a usurpação e a criatividade. Não resisto,
porém, de lhes contar certo episódio fofoqueiro protagonizado por uma amiga vizinha
na semana passada. Disse a essa vizinha que um amigo em comum me dissera que
certo casal, também amigo em comum, havia se separado:
“Mentira! Quando foi? Aquela nunca me enganou. E ele também não é flor que se cheire. Foi chifre mesmo? Teve
empurra-empurra? Quem saiu de casa? Ela pediu medida protetiva?”“Não sei, fulana. Meu amigo
só me falou da separação”.
“Se não sabe de nada, não
devia ter me contado essa merda, Tião”, irritou-se a amiga, passando dois dias
com a cara por acolá pra cima de mim..
A cultura sapiens, então.
Somos do gênero humano, espécie Homo sapiens, família dos primatas. Antes de
nós, tivemos o Homo habilis, o Homo erectus, o Homo floresiensis, para citar apenas
três. Os neandertais foram os nossos antecessores. Cada espécie apresentava traços
físicos distintos, mas tinham em comum a burrice. Viviam nus, é evidente. No sexo,
as moças se punham faceiras, abriam-se e dobravam o dedinho do venha para os
rapazes.
Estão me acompanhando?
Pois bem. Belo dia, bela
moça pega umas folhagens, cria algo parecido com saia e a usa a fim de
impressionar um nean que costumeiramente a ignorava. Foi esse o primeiro sinal
da criatividade de vocês, nobres leitoras. Essa bendita criação inicia a sequência
imaginação, experiência, criatividade, que, integrada, recebe o nome de
inteligência, que, se provocada, é suficiente para mudar o mundo.
Lembram-se
da lição do saudoso Rubem Alves? A inteligência precisa ser provocada para dar
frutos, disse o Rubem no Programa do Jô. E exemplificou a provocação com o
pênis.
“Tal ser vive borocoxô, caminha de cabeça baixa, numa
melancolia de dar dó. Mas, se provocado, enche-se de entusiasmo, levanta a
cabeça, caminha confiante, agiganta-se numa euforia de dar inveja. Precisamos provocar
a inteligência do pensar”, arrematou o Rubem.
Pois bem. O nean ficou eufórico ao
ver a mina com a novidade, pôs-se a imaginá-la e bolou a primeira fofoca. Disse
a ela que havia um pé de oliveira na beira do rio que do tronco emitia sinais do
local onde encontrar comida farta.
Estão me acompanhando?
Então. Tudo na vida, tudo mesmo,
começa na imaginação. Os neandertais, assim como as espécies antecessoras, não
eram burros. Só viviam com a imaginação desativada. Não somos Homo sapiens coisíssima
nenhuma, garotas. Somos neandertais adestrados.
Prossigamos?
Pois bem. O casal foi pro pé de
oliveira, botou o ouvido no tronco e nadica de sinalização de nada. Começaram a
rir e foram rolar na beira do rio. Ficaram o resto do dia lá. Saíram com um
pacto:
E aí, gazela (hoje chamam gata,
né?), pra deixar as colegas morrendo de inveja, tu vai dizer que esse negócio
ai fui eu que criei como prova de amor por tu. E que até dei uma surra num idiota
que queria roubar isso de tu. E assim se deu, nobríssimas.
Acompanharam?
Viram a manipulação do moleque?
Viram que veio do moleque a primeira fofoca do mundo e que a gazela ficou
apenas responsável por passá-la pra frente? A fofoca vive batendo pernas no
mundo, modernizou-se. No Brasil, a fofoca é reverenciada com dois nome
chiquíssimos: feiquenil e narrativa.
Bem. Disse-lhes que ia dar
uma passada na cultura sapiens a fim de ilustrar a usurpação masculina e a
criatividade feminina.
Vou ilustrar o masculino com
famosa usurpação no campo da física. Deu-se com o criador da lei da gravidade,
Isaac Newton. Newton morreu virgem, em 1727, com 85 anos, mas manteve longo caso
com a aluna Virgínia (Calma, meninas). Obviamente que não vou transcrever a fórmula
da lei da gravidade. Mas o princípio – sabem todos – é o da queda livre, instantânea:
“Aquilo que sobe volta
instantaneamente para o ponto de partida”, garantia o cabaçudo. Mas quem criou
a lei da gravidade foi a Virgínia. Newton apoderou-se da lei na mão grande. Grave
mesmo (desculpem o trocadilho) foi o Newton ter omitido valioso detalhe. Este:
A Virgínia disse que tudo
que sobe desce, sim, mas não instantaneamente. Antes de descer, a coisa subida passa
um tempinho lá em cima. A Virgínia chamou esse tempinho de êxtase contemplativo.
Sobre a criatividade e
competência feminina, torna-se redundante descrevê-las, visto escancaradas no
dia a dia. Serei redundante:
Será que elas brincaram
em serviço quando criaram o trabalho? Será que elas não perceberam que tudo é
passageiro quando criaram o uber? Será que elas dormiram no ponto quando
criaram o metrô? Será que elas não pensaram em servir quando criaram a bandeja?
Será que elas deram mole quando criaram a tadalafila?
Não posso fechar esta
prosa sem mencionar uma das mais importantes criação do Homo sapiens. Cria de
uma mulher, naturalmente. Cria daquela vizinha que não gosta de fofocar,
lembram-se? Tinha 17 anos a sapeca quando criou o vaso sanitário. De barro,
sim. Criou, instalou, afastou-se, franziu o cenho, fez cara de quem comeu e não
gostou e expeliu:
Merda! Que cagada!
E aí, cambada de
usurpadores. Cuidem bem de suas meninas.
E vocês, meninas,
cuidem-se.
Cuidem-se todos, afinal.
Lembrem-se de que vocês
têm dois eus. Um falso e um verdadeiro.
O falso é o pai do
sofrimento, pois nasce da crença de que o parceiro ou parceira aja conforme a
sua expectativa. Quer coisa mais insana, se ele ou ela não é você?
O verdadeiro é a sua
essência. É a consciência de que nada ou ninguém é igual a você.
“Quanto mais bem tratada
uma mulher é, mais ela tem vontade de servir, cuidar e ser doce. Sábio é o
homem que entende isso”.
Expectativa. Pensem numa
palavrinha conflituosa.
A mulher tem a
expectativa de que sempre será bem tratada. Uma falhazinha nesse percurso e
tome sofrimento de desconfiança.
O homem tem a expectativa
de que a doçura e o bem servir da mulher será contínuo. Uma falhazinha nesse
percurso e tome sofrimento de desconfiança.
O gestor econômico sabe
que a expectativa faz parte de seu negócio.
Já o gestor da vida não
vive de negócios. Vive de viver. Ele sabe que o cargo mais alto que alguém pode
ocupar é o de ser genuinamente ser humano. E para o genuinamente ser humano a
vida é o agora. E expectativa é o amanhã.
Cheiros pra vocês, garotas.
Mas não agora ou amanhã.
Só domingo, tá?
No 3 do 26,
TC
Um comentário:
Muito bom meu amigo Tião. O erro consiste exatamente expectativa. Mas na prática isso acontece com muita frequência. Faz parte do cortejo. Se bem que hoje cortejar uma mulher, ficou mais difícil, pois pode ser confundido por assédio.
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