quinta-feira, 5 de março de 2026

Respeitem elas, cambada de usurpadores

 


Este é um textinho dedicado às mulheres. É troncho. E a razão da tronchura consiste em não estar instigando o leitor logo no primeiro parágrafo, como recomenda a boa literatura. O motivo dessa atipicidade foi um enunciado que acabei de ler no Instagram. Escrito por um homem, vi nele a milenar manipulação masculina imposta às mulheres. Manipulação elogiadíssima, acrescento, por inúmeras comentaristas do enunciado. É claro que a ninguém é atribuído o poder de pensar por ninguém - o que significa que cada leitor interpreta o texto segundo sua cognição e percepção -, mas fiquei com a impressão de que o manipular da postagem venceu o pensar das comentaristas.

Leiam o enunciado que me trouxe aqui:

“Quanto mais bem tratada uma mulher é, mais ela tem vontade de servir, cuidar e ser doce. Sábio é o homem que entende isso”.

Isso não é exaltar a mulher. É capturá-la. É instrumentalizá-la. Tratar bem é dever. Não é o conduzir a espera do servir. Esse homem sábio não é um altruísta. É um estrategista.

Pode se alegar que estou sendo intransigente com o autor da postagem, que o autor não teve a manipuladora intenção, que a mulher se comporta do mesmo jeitinho em relação ao homem, que essas coisas. E outras.

Teve a intenção, sim: “Sábio é o homem que entende isso” entrega o autor. Teve, sim:  o dar pra receber é postulado bíblico, é verdade, mas só o é sem a egoísta espera do receber. Teve, sim, ainda que o autor não tenha se dado conta da aleivosia, já que enraizada na milenar cultura dos sapiens. Cultura que faz o homem ser usurpador, que o faz ver a mulher como fofoqueira, mas que a ela nega a suprema criatividade.

Vou dar uma passada na cultura sapiens a fim de ilustrar a usurpação e a criatividade. Não resisto, porém, de lhes contar certo episódio fofoqueiro protagonizado por uma amiga vizinha na semana passada. Disse a essa vizinha que um amigo em comum me dissera que certo casal, também amigo em comum, havia se separado:

“Mentira! Quando foi? Aquela nunca me enganou. E ele também não é flor que se cheire. Foi chifre mesmo? Teve

empurra-empurra? Quem saiu de casa? Ela pediu medida protetiva?”

“Não sei, fulana. Meu amigo só me falou da separação”.

“Se não sabe de nada, não devia ter me contado essa merda, Tião”, irritou-se a amiga, passando dois dias com a cara por acolá pra cima de mim..

A cultura sapiens, então. Somos do gênero humano, espécie Homo sapiens, família dos primatas. Antes de nós, tivemos o Homo habilis, o Homo erectus, o Homo floresiensis, para citar apenas três. Os neandertais foram os nossos antecessores. Cada espécie apresentava traços físicos distintos, mas tinham em comum a burrice. Viviam nus, é evidente. No sexo, as moças se punham faceiras, abriam-se e dobravam o dedinho do venha para os rapazes.

Estão me acompanhando?

Pois bem. Belo dia, bela moça pega umas folhagens, cria algo parecido com saia e a usa a fim de impressionar um nean que costumeiramente a ignorava. Foi esse o primeiro sinal da criatividade de vocês, nobres leitoras. Essa bendita criação inicia a sequência imaginação, experiência, criatividade, que, integrada, recebe o nome de inteligência, que, se provocada, é suficiente para mudar o mundo.

Lembram-se da lição do saudoso Rubem Alves? A inteligência precisa ser provocada para dar frutos, disse o Rubem no Programa do Jô. E exemplificou a provocação com o pênis.

“Tal ser vive borocoxô, caminha de cabeça baixa, numa melancolia de dar dó. Mas, se provocado, enche-se de entusiasmo, levanta a cabeça, caminha confiante, agiganta-se numa euforia de dar inveja. Precisamos provocar a inteligência do pensar”, arrematou o Rubem.

Pois bem. O nean ficou eufórico ao ver a mina com a novidade, pôs-se a imaginá-la e bolou a primeira fofoca. Disse a ela que havia um pé de oliveira na beira do rio que do tronco emitia sinais do local onde encontrar comida farta.

Estão me acompanhando?

Então. Tudo na vida, tudo mesmo, começa na imaginação. Os neandertais, assim como as espécies antecessoras, não eram burros. Só viviam com a imaginação desativada. Não somos Homo sapiens coisíssima nenhuma, garotas. Somos neandertais adestrados.

Prossigamos?

Pois bem. O casal foi pro pé de oliveira, botou o ouvido no tronco e nadica de sinalização de nada. Começaram a rir e foram rolar na beira do rio. Ficaram o resto do dia lá. Saíram com um pacto:

E aí, gazela (hoje chamam gata, né?), pra deixar as colegas morrendo de inveja, tu vai dizer que esse negócio ai fui eu que criei como prova de amor por tu. E que até dei uma surra num idiota que queria roubar isso de tu. E assim se deu, nobríssimas.

Acompanharam?

Viram a manipulação do moleque? Viram que veio do moleque a primeira fofoca do mundo e que a gazela ficou apenas responsável por passá-la pra frente? A fofoca vive batendo pernas no mundo, modernizou-se. No Brasil, a fofoca é reverenciada com dois nome chiquíssimos: feiquenil e narrativa.

Bem. Disse-lhes que ia dar uma passada na cultura sapiens a fim de ilustrar a usurpação masculina e a criatividade feminina.

Vou ilustrar o masculino com famosa usurpação no campo da física. Deu-se com o criador da lei da gravidade, Isaac Newton. Newton morreu virgem, em 1727, com 85 anos, mas manteve longo caso com a aluna Virgínia (Calma, meninas). Obviamente que não vou transcrever a fórmula da lei da gravidade. Mas o princípio – sabem todos – é o da queda livre, instantânea:

“Aquilo que sobe volta instantaneamente para o ponto de partida”, garantia o cabaçudo. Mas quem criou a lei da gravidade foi a Virgínia. Newton apoderou-se da lei na mão grande. Grave mesmo (desculpem o trocadilho) foi o Newton ter omitido valioso detalhe. Este:

A Virgínia disse que tudo que sobe desce, sim, mas não instantaneamente. Antes de descer, a coisa subida passa um tempinho lá em cima. A Virgínia chamou esse tempinho de êxtase contemplativo.

Sobre a criatividade e competência feminina, torna-se redundante descrevê-las, visto escancaradas no dia a dia. Serei redundante:

Será que elas brincaram em serviço quando criaram o trabalho? Será que elas não perceberam que tudo é passageiro quando criaram o uber? Será que elas dormiram no ponto quando criaram o metrô? Será que elas não pensaram em servir quando criaram a bandeja? Será que elas deram mole quando criaram a tadalafila?

Não posso fechar esta prosa sem mencionar uma das mais importantes criação do Homo sapiens. Cria de uma mulher, naturalmente. Cria daquela vizinha que não gosta de fofocar, lembram-se? Tinha 17 anos a sapeca quando criou o vaso sanitário. De barro, sim. Criou, instalou, afastou-se, franziu o cenho, fez cara de quem comeu e não gostou e expeliu:

Merda! Que cagada!

E aí, cambada de usurpadores. Cuidem bem de suas meninas.

E vocês, meninas, cuidem-se.

Cuidem-se todos, afinal.

Lembrem-se de que vocês têm dois eus. Um falso e um verdadeiro.

O falso é o pai do sofrimento, pois nasce da crença de que o parceiro ou parceira aja conforme a sua expectativa. Quer coisa mais insana, se ele ou ela não é você?

O verdadeiro é a sua essência. É a consciência de que nada ou ninguém é igual a você.

“Quanto mais bem tratada uma mulher é, mais ela tem vontade de servir, cuidar e ser doce. Sábio é o homem que entende isso”.

Expectativa. Pensem numa palavrinha conflituosa.

A mulher tem a expectativa de que sempre será bem tratada. Uma falhazinha nesse percurso e tome sofrimento de desconfiança.

O homem tem a expectativa de que a doçura e o bem servir da mulher será contínuo. Uma falhazinha nesse percurso e tome sofrimento de desconfiança.

O gestor econômico sabe que a expectativa faz parte de seu negócio.

Já o gestor da vida não vive de negócios. Vive de viver. Ele sabe que o cargo mais alto que alguém pode ocupar é o de ser genuinamente ser humano. E para o genuinamente ser humano a vida é o agora. E expectativa é o amanhã.

 

Cheiros pra vocês, garotas. Mas não agora ou amanhã.

Só domingo, tá?

 

No 3 do 26,

TC

 

 


Um comentário:

Damião dfs disse...

Muito bom meu amigo Tião. O erro consiste exatamente expectativa. Mas na prática isso acontece com muita frequência. Faz parte do cortejo. Se bem que hoje cortejar uma mulher, ficou mais difícil, pois pode ser confundido por assédio.