CHICOTADAS
NA - E DA - PROFESSORA
“C, h,
e... Che; c, h, e... Che; c, h, i... Chi; c,h, i... Chi”.
Apurei as
ouças e parei. Ficara seduzido pelo charme daquela voz. Tão limpa e feminina, sensual,
até, estava por ver. Ou por escutar. Escutar, porque... Bem, vou explicar.
Moro parede e
meia com um colégio estadual. Ontem à noite, estava sozinho em casa, silêncio
completo, vou à garagem apanhar um livro que deixara no carro, então ouço
aquele galante som professoral. Escoro-me no capô do carro e fico assistindo à
aula. Aula de alfabetização, deduzi pelo che e chi. De adultos, percebi pelo
timbre de voz dos alunos. De adulto cabido, um deles, ao menos, concluí ao
perceber a capciosidade de certas perguntas.
Embevecido com
a aula-palestra, pois agora os assuntos estavam transitando por diversas
matérias, abasteço-me com caprichada dose de uísque, puxo uma cadeira, sento-me
e fico gravando a aula.
“Professora
Salomé, a senhora...”
Não escutei a
pergunta do aluno atirado,
posto que passava na rua um desses carrinhos,
antigamente de sorvete, hoje de música. Às alturas, o indiscreto tocava
reboladíssimo sacolejo de um grupo musical daqui de Natal. O refrão era este:
“vem de peito, vem de peito, vem de peito, mas se não tiver peito, vem de
bunda, vem de bunda, vem de bunda”. Depois o carro começou a se afastar tocando
Rio Antigo, com Alcione. Interessante é que a intervenção do
assanhado aluno havia sido exatamente sobre o refrão da estimulante música, do
contrário a professora não estaria a repreendê-lo:
“Se vou com
peito, com bunda ou com outro excitante, não é de sua conta, Seu Orlando. O
senhor deve perguntar essas coisas a meu namorado. Ele lhe dirá, após enchê-lo
de porradas, que, em nossas degustações, fazemos questão de determinadas
companhias. Além dos componentes corporais que citou, sempre nos acompanham a
probativa de sabores e os “folheadores” de cardápios. São essas companhias, Seu
Orlando, que preparam a deliciosa refeição de todo o santo dia. Sabe, Seu
Orlando, suas falas são cheias de lero-leros, tendenciosas, no mais das vezes.”
Caramba! A
professorinha botou quente no tal do Orlando. Professora está sujeito a cada
uma. O salário, ó! e ainda ter de ouvir certas figuras! Matutava assim e
terminei perdendo a pergunta seguinte. Acho que se reportava ao Velho Chico,
por isso a professora estava respondendo:
“Por que todo
Francisco é Chico, Seu Francisco. Ora bolas! Ele é brasileiríssimo, sim.
Nordestino típico, de mais a mais. Canastra é tão somente um nome, mas não
nasceu canastrão, Seu Francisco. Pelo contrário, competente, integrador e
autêntico é o que sempre foi. Daí a expressão integração nacional.”
“Pena que ele tenha morrido, não é, professora?”
“Que
conversa é uma, Seu Francisco. Não, não morreu, nem morrerá. Ele nunca será um
rio que passou em nossas vidas. Será sempre um Vasco da Gama a navegar na
memória de cada brasileiro.”
“Mas
se a televisão tá dizendo que ele morreu, professora? Pergunte ao professor
Raimundo, então! O professor tava na sala quando a televisão tava dando a
notícia. Inclusive...”
“Mas...
mas... mas...”
Não
quis ouvir o gaguejado da professora Salomé. Sabia da doença do Chico.
Desliguei o gravador e fui para a internet. Li tudo. Lembrei-me de seus
personagens e terminei plagiando o que falou o Drummond quando a Cacilda Becker morreu:
Morreram Chico
Anysio.
Abraços
enlutados,
Tião
2 comentários:
Querido amigo Tião;
Que delícia de texto! Você soube conduzir com leveza, uma notícia tão pesada e doída para os brasileiros. O Chico Anysio nunca morrerá, pois o trabalho que ele realizou com tanto amor e felicidade, estará eternizado diante dos nossos olhos. Ele foi um grande brasileiro.
Adorei a sua observação da aula da professorinha Salomé, que aliás o Chico tinha uma personagem: "Salomé de Passo fundo".
Parabéns, amigo! Você é sim um grande escritor.
Beijos! Licia.
Valeu, Lícia.
Obrigado pela chicotada de carinho no ego deste pobre escrevinhador,
Tião
Postar um comentário