Implicância
Não atino por que a pestinha da implicância vive a chicotear nossa
mente. Só sei que ela chega de fininho, faz-se de brincalhona e tome ferroada.
Quando percebemos, lá estamos a implicar com as mais tolas situações. Não me
refiro à intolerância depressiva, irracional, mas à birra burlesca,
controlável. Se bem que o sujeito precisa estar atento a fim de que a
implicância não o contamine em áreas vitais, a exemplo do que aprontou com um
amigo. Contou-me ele:
- Tião, cara, preciso de uma
porçãozinha de autocontrole.
- Por que, meu nobre?
- Porque... Veja, estava num evento literário, conheci uma escritora,
começamos a papear, saímos para um barzinho. Tião, bicho, a mulher,
liberadíssima, um boeing de feminilidade, está entendendo?
Pintou o clima da imaginação erótica, cara. Lá pras tantas, a charmosa olhou o relógio. Eu, mal-intencionado todo, perguntei-lhe se queria levantar acampamento. A lindona sorriu e pôs a mão direita no meu joelho:
Pintou o clima da imaginação erótica, cara. Lá pras tantas, a charmosa olhou o relógio. Eu, mal-intencionado todo, perguntei-lhe se queria levantar acampamento. A lindona sorriu e pôs a mão direita no meu joelho:
- Sim. Até cupido tem os seus acampamentos, não?
- Verdade, minha nobre. Amanhã não seremos o que fomos nem o que somos.
“Concordo plenamente. Convido-o, então, para continuarmos citando
Ovídio, o poeta do amor, em meu apartamento”, disse a assanhadinha, tremendo-se
de tanto rir.
Bom, pra resumir a história, caro Tião, estamos lá, horizontalmente
febris, salivas misturadas, ofegando na mesma passada, equipamentos testados e
aprovados, aguardando tão somente a sirene do Ovídio para explodirmos, e eis que a poetisa levanta-se e começa a declamar, não sem antes
comunicar que os versos seriam dela:
“Um delírio divino, uma dança sagrada,
conduzida num fluir tranquilo e suave, uma ondulação interminável através do
qual os corpos fazem apenas o que deve ser feito um para ou outro, levando-os
além da fronteira do êxtase na direção do plano sutil da multifacetada
experiência mística.”
Tião, bicho, pulei da cama, comecei a me vestir, e a esperada explosão
surgiu em forma de desaforo:
Sabe de uma coisa, D. Ovídia, pegue o seu enviesado através, cubra a
multifacetada de sua multifacetada, fique se multifacetando sozinha, se
preferir, pois o Ovídio aqui vai embora.
Bati a porta e saí, Tião. Com dois minutos estava arrependido, é certo, mas...
Implico demais com o tal do através e da multifacetada.
Ô duas palavrinhas chatas! Preciso me livrar dessa besteira, amigo. Como
agravante, a faceteira ainda jogou as duas indecentes na boca do Platão. Esse
poema é dele, Tião. A embusteira disse que o poema do Platão era dela e ainda
introduziu duas palavras que o Platão jamais pronunciaria. Pode um negócio
desse, Tião?
Devidamente consolado, o amigo me deu o celular da beldade a fim de que
eu a ela justificasse a causa de sua potente disfunção semântica.
Liguei, marcamos um encontro, disse-lhe que meu amigo ficava brocoió ao ouvir as duas palavrinhas etc. etc. etc.. A bela poetisa
mostrou-se compreensiva, revelou que recitar o poema naqueles momentos era
implicante exigência da libido e que não esperava tamanha patada de meu amigo.
Sorrimos e confessei que também tinha minhas implicâncias. Gostava, sobretudo,
de ouvir o através e o multifacetado em dados momentos. Implicava com certas
libidos quando não ouvia tão amorosas palavras. Sorrimos de novo e...Senti-me nas alturas quando escutei as duas inocentes.
Daí, meus nobres, que
devemos ter cuidado para não cair na esparrela da implicação. Dou-me como
exemplo. De há muito a literatura implica comigo. Provoca-me até nos momentos
de lazer, como três horas atrás.
Estou esparramado na rede,
folheando um jornal, deparo-me com uma matéria sobre o Arena das Dunas, o
estádio que Natal está construindo para a Copa de 14. Ao lado da notícia, uma foto de
autoridades ligadas ao acontecimento. Em comum no retrato a minha recente
implicação: o capacete. Todas tinham um capacete na cabeça. O “na cabeça” é
importante porque minha cisma não é com o protetor em si, mas com o conjunto da
obra. A obra, no caso, não tem nada a ver com a construção, e sim com
“autoridade com capacete na cabeça em determinados locais”.
A literatura implica porque
não escrevo sobre a implicação com o capacete, pois peguei a mania de fazer uma
caretinha quando vejo tais fotos. Entenderam a implicação da amiga implicância? Acho engraçado, leitor, a ruma de
poderosos com aqueles capacetes. Sei que precaução e caldo de caridade não fazem mal a ninguém, mas sobre esse tema não escreverei uma linha. Que se dane a implicação.
Discordo de meus fofoqueiros
botões. Segundo eles, os botões, eles, os poderosos, usam capacete por temerem
que algum peão lhes jogue um seixo no quengo: “Só pode ser por isso, seu Tião,
já que a obra fica parada no local onde esse pessoal está passando. Não há a
menor possibilidade de acontecer um acidente nessas horas, seu Tião”.
Divirjo dos botões e
argumento, ainda que deixe o assunto guardado na cachola. A troco de que a
piãozada se comportaria raivosa, já que os vistoriadores pensam apenas no
bem-estar coletivo? A verdade, digo-lhes, é que os capacetes simbolizam uma proteção mental
contra nuances delituosas, visto que obras tão gigantescas sempre despertam
tentações não republicanas. Então, eles, os governantes autoridades, valem-se
dos bichos exatamente para evitar o pecaminoso desejo. Sei disso muito bem,
mas assim mesmo a implicância permanece e caio na risada quando vejo os danadinhos na
cabeça dessa gente.
Tenho vontade de perguntar a
meus botões se eles sabem que aquelas armaduras são revestidas de cidadania,
mas entendo inútil tal pergunta. Por que lhes perguntaria, se a resposta seria
escandalosa risada, pois meus botões vivem nas casas da ignorância, abotoados
de ideias preconcebidas, algumas delas de colete marrom, verde, bege, vermelho?
É claro que os capacetes
cidadãos não eliminam a vontade de fazer profanas carícias financeiras. Não
serei ingênuo de tal coisa afirmar. Há exceções, naturalmente. Mais são
exceções infrequentes, transordinárias,
raríssimas, incomuns, entenderam? Até porque, o indivíduo que se aventurar
nesse campo, o da falcatrua, estará correndo o risco de ser severamente punido, porquanto ser bastante sumário o rito processual desses casos.
Olhei a fotografia mais uma
vez, detive-me num especial capacete, a literatura voltou a implicar. Fiquei
propenso a ceder e escrever sobre os capacetinhos, mas, por sorte, escutei a
voz da gerente do boteco da Marluce. Botei o jornal debaixo do sovaco,
atravessei a rua e pra lá me dirigi.
No barraco da Marluce, sabe
quem costuma me ler, é servida a melhor cerveja de Natal, embora a Marluce
fique fula da vida com o carinhoso termo barraco. Somos cinco clientes,
atendidos pela gentil gerente, a Cíntya. Danado é que só vamos ao biongo à
noite. E a Marluce é assim, ó, de amarrada: prefere ler o horóscopo (por isso
levei o jornal) na turva iluminação da rua a ligar o único bico de luz do
ambiente.
Somos clientes
preocupadíssimos com os problemas brasileiros. Depois da terceira cerveja,
sempre encontramos solução para cada um. No comando da seleção brasileira, já
acertamos a substituição do Mano Menezes pelo Felipão. Na CBF, a saída do
Teixeira foi por nós antecipada. Na política, acabamos de saber quem será o
prefeito de Natal, ou pelos menos quem não será, e por aí vai.
Estávamos na quinta cerveja,
quando a nossa cidade, Natal, entrou na conversa. Diniz, grande geógrafo, dizia
que Natal era a cidade mais bem cuidada do Brasil, quiçá do mundo, posto que
desconhecia cidade que não ficasse intransitável com 42 milímetros de chuva em
duas horas. Concordamos, evidentemente. “Graças à inexistência de buracos”,
reforçou o Francisco. Ainda com o nosso aval, Kerginaldo lembrou que no quesito
limpeza pública também Natal estava entre as primeiras do mundo. Renato começou
a falar da segurança, mas logo mudamos a vista para um tropel que vinha da rua.
Fiquei de boca aberta, juro.
Eram três policiais a cavalo. Caramba! Aqui! Sem mais nem menos! Numa rua
dessas! Cheia de carro e de gente! Um dos cavalos soltou montanhosa
desperfumada mesmo na frente do boteco, como se tivesse a desaprovar meus
pensamentos.
Em silêncio, mão no queixo,
pensativo, vendo os animais se afastarem, matutei:
Acho que vou implicar com
esses cavalos. Olhei novamente para os bichos e só então percebi que os
policiais estavam de capacete.
Até mais ver,
Tião
4 comentários:
Meu nobre escriba Tião. Nos encontros da vida nos deparamos com momentos de intolerancia que se tornam bizarros, dependendo das circunstancias. As vezes implicamos com animais,pessoas ou situações. Mas a maior das implicancias as vezes é com nós mesmos. Até mais ver, meu nobre escriba.....Parabéns!!!!
Grande verdade, meu nobre.
Valeu e pode continuar implicando com o blogue.
Beleza!
Um abraço,
Tião
Meu nobre TIÃO, isso foi verdade mesmo, estava no dia e compartilhei com todos essa história.
Um abraço!!!
CYNTIA PEREIRA.
Mas é claro que você estava, Cyntia. Se foi você e o Diniz que apanharam a "desperfumada" dos cavalos!
Abraços perfumados,
Tião
Postar um comentário